31 agosto 2008

- Pong



Você gosta de pingue-pongue? Nunca jogou? Então vamos lá: ao fim da última estrofe há um tag, que é aquela palavra de cor diferente. Aperte o tag e abrirá um link. Boa brincadeira!


A garota com quem sonho
reside na minha rua.
Vislumbro a silhueta sua,
ela não anda: flutua,
qual bola de pingue.


Sou esse rapaz tristonho,
que ama essa rapariga,
embora jamais consiga
pedir a ela que siga
também o mesmo caminho.


Meu dia será medonho
se essa menina eu não vejo.
Ninguém sabe do desejo
que eu tenho de ter um beijo
ou dela um simples carinho.


Não me conheces, suponho,
ó misteriosa guria,
por quem sofro noite e dia,
por quem vivo em agonia.
Onde ela de mim se esconde?

24 agosto 2008

Vale a pena ler de novo (VII)

Homenagem a um gaúcho

Quem é coxo parte cedo,
frase mais do que batuta.
Um elogio te concedo:
tu és um filho da luta!
Já tem Maia no pedaço
botano sua cuié,
traz a espada de bom aço
vem tarveis com a muié.
Dança o shótis ou baião,
o amigo do nordeste?
Puxa gaita ou rabecão
gaúcho do sudoeste?
Pra saudar nossa amizade,
e abraçar a migalhada,
eu canto Mário de Andrade
com sua viola quebrada.

A. Cerviño - SP

(Migalhas 15.08.07)

20 agosto 2008

Vale a pena ler de novo (VI)

Desafio

Ontõe Gago e Zé Preá,
gente boa num repente,
se encontraro em Cabrobró
pra alegria dos presente.


Fizero um forrobodó
de botá inveja na gente.
Desafia um daqui
arremete outro de lá
e ameaça arrebentá
a cara desse sagüi.

Eis que chega um forastero
para entrá na brincadera.
Quem é ele? Mano Mero,
vindo do sul brasileiro.


No Nordeste é no repente,
lá no sul é califórnia.
Veja o senhor a esbórnia
que ele tem na sua frente.

Zé Preá puxa o punhá
Mano Meira sua espada.
Bota ela ali deitada
no terreno do quintar.


E o gaúcho vem bailando
saltita sobre a danada.
Zé Preá nu intende nada,
Ontõe Gago só mirando.

Toda lida ali termina
com gritinho e alegria,
com abraço e cantoria.
Coisa munta feminina.

Devo agora terminá
este modesto repente.
Me desculpe, Zé Preá,
se lhe fui tão renitente.


Mano Meira vem pra cá
comer churrasco co’a gente.
Ontõe Gago vai dançá
xaxado, todo contente.

A. Cerviño - SP

(Migalhas 1º. 09.06)

18 agosto 2008

Desperdício



Pinga o pote na cozinha
pinga pinga pinga pinga
pinga o pote de caninha
pinga pinga pinga pinga
pinga o pote que continha
pinga pinga pinga pinga
pinga a pinga pinga a pinga
pinga pinga pinga pinga

e pinga e pinga e pinga e pinga
pinga pinga pinga pinga
é pinga é pinga é pinga é pinga
e pinga a pinga e pinga a pinga
pinga pinga pinga e pinga
pinga pinga e pinga
pinga e pinga
pinga pinga
pinga pinga
pinga
pinga
pinga

pinga

pinga


pinga


pin

ga


pin



ga


pin





ga

17 agosto 2008

08 agosto 2008

Causas e Efeitos


Quando o Zidane, em plena Copa de Futebol, mostrou para todo o mundo o tamanho do seu pavio, alguém se deu o trabalho de procurar traduzir o comentário que o alvejado lhe havia feito. Era coisa de mãe ou irmã. Justificava?

Tempos atrás, um dos nossos selecionados craques, quando um jornalista o acuou com perguntas atrevidas, exibiu o relógio que trazia no pulso e argumentou: pra teu governo, este relógio vale mais do que o apartamento em que tu mora. Diz-se que alguns atacantes já utilizaram de argumento semelhante para humilhar o marcador do time adversário: o que eu ganho num dia você não ganha em um ano! E depois reclamam das botinadas.

Dia desses certo jogador de futebol provocou um auê danado lá no Nordeste porque, sendo expulso injustamente de campo, foi vaiado pela torcida adversária. Ora, vaia de adversário é elogio. Pois ele, que teria feito um gesto obsceno, foi preso, algemado e literalmente expulso do estádio. Na verdade, o que ele queria, segundo diria seu advogado, se fosse eu, era mostrar ao público o dedo médio da mão direita, que, havendo sido lesionado em campo, ele não conseguia dobrar. Vejam o que me fizeram! O pobre rapaz foi mal-entendido, e o caso foi parar na delegacia de polícia, com direito a Juizado Especial e as famosas e providenciais cestas básicas como pena alternativa. O que me faz lembrar de um dentista que, havendo cometido um crimezinho qualquer, foi condenado a prestar serviços comunitários semanalmente, cuidando dos dentes de favelados por uma hora. Mas, doutor, eu já fico a tarde toda do sábado na favela fazendo isso! sussurrou-me ele. Pois de agora em diante ele deveria encarar aquilo como pena alternativa.
E não se fala mais nisso.
O trio Cláudio, Luizinho e Baltazar fez a alegria de muitos corintianos nos anos 40/50. Um desses jogadores, ao que se dizia, tinha um irmão homossexual, o que, naquela época, não era coisa tão comum como hoje. Ou, pelo menos, não era algo de que as pessoas se orgulhassem, como parece ocorrer nos dias atuais, com direito a parada de trânsito e tudo o mais. Pois alguns marcadores passavam o jogo todo sussurrando no ouvido do craque os pormenores dos encontros amorosos que teriam tido com o irmão do corintiano, inventando as histórias mais abjetas e, com isso, conseguindo, não poucas vezes, obter o descontrole emocional do craque e sua expulsão de campo. Certo jogador do São Paulo, bem mais forte do que o corintiano, certa ocasião recebeu foi uma tijolada na testa. Tudo, certamente, por causa da tal provocação.

Ironicamente, hoje é o São Paulo Futebol Clube que faz vistas grossas ao modo de andar de um de seus craques, que, segundo dizem. Bobagem. O Johnny Depp, ao ser convidado para ser o pirata do Caribe, impôs ao diretor uma condição: ele correria rebolando, com os braços dobrados e as mãos sendo agitadas no ar. Resultado: a série já vai para o quarto episódio. E ele nem bate escanteio.

Heleno de Freitas foi uma figura lendária no futebol brasileiro, com uma biografia que merece um belo filme. Pois alguém, naqueles idos e vividos tempos, resolveu compará-lo a Rita Hayworth, que, na ocasião, estrelava o filme Gilda. Nunca houve uma mulher como Gilda dizia o apelo publicitário. Nunca houve alguém como Heleno de Freitas disse um admirador do craque do Botafogo, talvez ligado ao famigerado Clube dos Cafajestes. Foi o que bastou para que a torcida adversária o apelidasse de Gilda.

Heleno apresentava claros sintomas de um crescente desequilíbrio mental, fruto, ao que parece, da sífilis. Vários incidentes são narrados em sua biografia, onde se verifica que a doença se somou à sua notória megalomania, vindo ele , por fim, a ser internado numa clínica psiquiátrica, onde morreu. Não tinha ainda atingido os 40 anos de idade. O mais famoso incidente, autêntica gota d’água, foi algo muito mais constrangedor do que a cabeçada do Zidane na Copa do mundo. Em um FlaFlu qualquer, Heleno vinha infernizando a defesa do time adversário. Era preciso contê-lo, antes que aquilo se transformasse em uma humilhante goleada. Foi quando a sempre irreverente torcida resolveu gritar em um retumbante e sonoro grito o apelido do excepcional craque. Aquilo foi elevando a pressão sangüínea do nosso Heleno de Freitas que, a certa altura, qual um Zizou sul-americano, volta-se de costas para a platéia, baixa o calção e lhes mostra seu alvo traseiro.

Dizem que o seu arrière, como então se dizia, era mais bonito do que o da Rita Hayworth.

06 agosto 2008

A experiência do rio


“A verdade é que apenas Deus pode conhecer Deus.”
(Joseph Campbell)


As religiões orientais geralmente não se atrevem a definir Deus, ao contrário do que ocorre com os ocidentais, menos cerimoniosos, menos humildes, mais atrevidos e mais racionais. Falar d’Ele diretamente nem pensar, tudo são imagens, parábolas e coisas assim, como o caso de alguém que perguntasse ao sábio que é a Lua? e tudo o que o sábio fizesse fosse estender seu dedo indicador dele sábio ali diante dos nossos olhos curiosos, que lhe vêem os pelos do sobredito dedo, seu tarso mais o metatarso, a unha e sua eventual sujidade, coberta ou não por providencial esmalte sangüíneo ou de cor outra mais atrevida, mas a Lua mesmo, nada! Que é da Lua, mestre? E o dedo continua a apontar e o sábio diz: vai e vê. E quando nós olhamos adiante do dedo que nos indica o caminho, lá está uma foice sem cabo que se vai esvaindo até ficar o nada lunar no céu de nossa indagação ignorante. Que é da Lua, mestre? Vai e vê. Mas se não vejo nada? Aguarde pacientemente, que ela lhe ressuscitará.

Primeira idéia: crer é ver a Lua que não está lá.

E olha eu agora mirando o rio ali defronte, riacho heraclitano que se atravessa a vau e onde o sol despeja aqueles ouros lá dele e nós sem saber qual a cor do rio nem o sabor do rio a não ser atravessando, com as águas batendo-nos nas magras canelas, meio e modo de conhecer Deus. Quer conhecer Deus? diz-nos o sábio, banhe-se nele. E agora que vadeaste de cá para lá, certamente pensas que conheces o rio. Conheces nada!, que as águas então vadeadas não mais estão ali, senão lá mais embaixo, cem ou duzentos metros, talvez quilômetro, sendo atravessada agora por outras pernas, talvez de nossos netos, que também pensarão que já experimentaram suficientemente Deus, tanto quanto nossos tios e avós que cruzaram o sempre rio lá perto do seu nascedouro tempo faz.

E se vadeares de lá para cá descobrirás que tuas canelas, já enriquecidas e satisfeitas da experiência anterior do rio, talvez não se abram à nova experiência que é experimentar esse novo rio, pois as águas agora são outras, não vê que aquelas antigas já lá estão longe? Sem falar que o rio não são só águas, senão que peixes muitos, dúzias e dúzias, e mais aquelas pedrinhas, mais de centena, talvez milhar, que o passar do rio, no rio e através do rio e a decorrente experiência que elas assim façam vai delas aparando as arestas do egoísmo e da irritação, da indiferença e da impaciência, e lá vão elas se casando umas com as outras, roliças de virtudes e paciência, respeitando o modo de ser uma das outras, na convivência que se supõe decorrer da harmonia grávida de virtudes.

E se pensares que a experiência humana do rio se faz apenas com as canelas, pobre de ti! Repara na apalpação das pedrinhas que teus pés fazem quando vais e quando vens. Sentes cada pedra? Sabes o tamanho de cada uma? Sua cor? Sua forma? Sabes nada! Saberás acaso quais as pedras que pisaste quando foste e quais as que estás a pisar agora que retornas na nova experiência do rio? Certamente não. E não é só com a sola dos pés e as canelas anuecidas que se experimenta o rio, senão que também com a bunda, atente para isso. Quem te garante que teus pés não escorregarão nessas idas e vindas e quando vês estás lá estatelado no meio daquele corguinho que é o rio mas não é todo o rio? E tuas nádegas lanhadas te ensinarão coisas do rio que nem o frescor da água na canela, nem o confundir-se ele com a cor da poeira dourada que o sol lhe derrama, nem o cheiro bom da água não lhe haviam ainda proporcionado a você.

E aquilo ali é rio mas não é todo o rio. É rio porque ali há água, mas não há toda a água; há peixes, mas não há todos os peixes; há pedregulhos, mas não são todos os possíveis pedregulhos que ali estão naquele trecho que tuas canelas e teu corpo todo experimentaram na vadeagem e na revadeagem, nas idas e vindas a vau que é tua pálida experiência do rio.

E como juntar todos os peixes, e toda a água, e todos os pedregulhos para que saibas como é efetivamente o rio? Como ver ao mesmo tempo o nascimento do rio, seu caminhar por leitos planos e pedregosos, ora calmos ora cascateiros, límpidas aqui sujas ali suas águas, sua espuma e sua planície, e o seu findar, quando se finda? Quanto mais subas ao espaço para buscar essa visão de pássaro, mais longe estarás do rio e tudo o que verás será sempre um pálida imagem do rio em sua inteireza. Uma fotografia, sem vida nem cheiro, quase uma caricatura. E haverá quem diga que aquilo é um rio! Que inocência!

Pensa em tuas pernas jovens e fortes a pisar firme o chão daquele solo líquido que tua experiência agora perfura, tal como já fizeste um dia outrora. Será o pisar de hoje tão forte como o foi o de ontem? Será a correnteza de hoje menos calma do que era a de ontem? E como ficarás quando o titubeio da incerteza te atrasar os passos, por não teres reparado que as pernas já não são as mesmas, e, de fato, não no são, nem as águas já não são as mesmas, como de fato também não são? És o mesmo mas não és mais o mesmo; mesmas são as águas mas as mesmas águas já não são as mesmas; repete-se a mesma experiência que já não é a mesma experiência. Tudo tão velho e conhecido, mas, também, tão novo e desconhecido ainda.

Segunda idéia: a experiência de Deus é a travessia diária, sem saber se o atrevimento do afoito ou a fragilidade das pernas não fará daquela a derradeira travessia, a travessia que não se completará. E tropeçarás, como todos um dia tropeçamos; e cairás e serás envolvido pelas águas; e talvez te levantes e retomes a caminhada, para concluir mais esta travessia.
Ou talvez não seja mais o caso de te levantares. E como os peixes e os pedregulhos, te confundirás com as águas, que te levarão e farão do destino delas o teu destino.

E o rio que agora caminha é apenas rio, embora nele estejam os peixes, os pedregulhos e estejas também ali tu, tudo indistinto. E o rio chegará ao seu fim que não será propriamente um fim, mas um despejar-se num rio muito maior, oceânico e eterno.

E agora que chegamos, onde estão os peixes? Quais as pedras que se acamaram? Que é feito do rio? Onde estás tu?

01 agosto 2008

Trova (V)

Lágrima de quem chora
Lágrima de quem ri
Que pena eu ter ido embora
Que bom você estar aqui