28 outubro 2008

Mini conto

- E tua noiva, como está?
- Partiu desta pra melhor.
- Meus pêsames, cara. Meus pêsames. E quando foi que ela morreu?
- Morreu? Quem falou em morte? Lembra-se daquela mania que ela tinha de cheirar perfume? Coisa mais desagradável! Pra mim aquilo era TOC. E me arrastava para as lojas do shopping, abrindo e fechando vidros e mais vidros de perfume, que levava ao nariz. Ao meu nariz! “Sinta esse leve cheiro de alfazema”. Eu nem sei se alfazema é animal, vegetal ou mineral; se é sólido, líquido ou gasoso, mas atendia aos rogos dela. Ou ordens dela. Tudo pelo nosso futuro casamento.
- Fugiu com o dono da loja?
- Quase. Participou de um concurso internacional de provadores de perfume e foi aprovada para trabalhar na Christian Dior, em Paris.
- Mas você disse que ela passou desta pra melhor?
- E você acha São Paulo uma cidade melhor do que Paris?



12 outubro 2008

Heil, Heinzs


“Nós sempre teremos Paris”
Palavras de Rick (Humphrey Bogart) ao despedir-se de Ilsa (Ingrid Bergman) no final de Casablanca


Quando as tropas germânicas invadiram a bela cidade de Paris, Josephine Baker dançava em um cabaré de quinta categoria, se houvesse alguns outros cabarés para que se pudesse fazer a comparação. Cantava e exibia os dotes que a natureza lhe dera: dois belíssimos dentes caninos, que brilhavam quando a luz do refletor incidia sobre eles. Dois marfins que faziam a loucura de quantos puderam ouvi-la cantar Lili Marlene. “Vor der Kaserne/ Vor dem großen Tor/ Stand eine Laterne/ Und steht sie noch davor/ So wolln wir uns da wiederseh'n,/ Bei der Laterne/ Wolln wir steh'n,/ Wie einst, Lili Marleen/ Wie einst, Lili Marleen.” Wunderbar!

Em uma mesinha de canto, um militar francês traça planos de fuga, entre um gole e outro de uma bebida, que a luz difusa não permitia saber se seria uísque ou chá. Fosse inglês o general, dúvidas não poderia haver: ou era uísque ou era chá. A menos que não se chamasse Winston, que nem sei se já era general. Ou se algum dia foi general. Entre um gole e outro da misteriosa bebida, o francês dirigia-se ao ouvido de sua colega de conspiração, uma espiã disfarçada (ou que motivos teria ela para usar aquela saia curtinha e aquele decote enorme?), que ora lhe dizia que sim, ora lhe dizia que não, como era fácil decifrar da inevitável leitura de seus lábios sensuais. Ou de seus movimento de cabeça.

As tropas alemãs passavam sob o Arco do Triunfo e o capitão Heinzs Zumpfill entendeu que era hora de, como direi?, despejar algum volume do líquido que lhe intumescia o abdômen, contido dentro de uma farda que havia sido feita para alguém bem menos obeso do que ele. Hora de mijar, enfim, como disse ele à tropa.

O grande problema era que sua tropa era composta por soldados novatos, que só agora haviam enfrentado sua primeira Grande Guerra. Jovens nazistas ou meros simpatizantes que, como num jogo de futebol, torcem para o time que está ganhando. E nós estávamos ganhando. Perguntem ao Ratzinger, que servia conosco na ocasião. Eles estavam de tal forma adestrados (passe o termo!) para a luta e para seguir sempre em frente que seus ouvidos simplesmente se recusaram a ouvir o que lhes estava sendo ordenado pelo comandante. Eles ouviram apenas o que desejavam ouvir. Como, aliás, ocorre conosco todos os dias. Halt? Nem pensar.

Assim, logo após a ordem, o capitão galopou para o local mais próximo, que outro não era do que a biboca onde a Baker trinava seus gorjeios e mostrava seus belos caninos dizendo que sob a luz da lanterna, perto da entrada da barraca, era ali que você me esperava, querida Lili Marlene, querida Lili Marlene, reiterava ela, se não me falha a memória.

E os soldados? indagar-me-eis. Estes continuaram em frente e posaram para os fotógrafos e cinegrafistas que documentavam aquele solene momento de desagravo. Lembra-se da I Guerra Mundial? Pois é. Humilharam-nos tanto, pois agora não se queixem.
Lá vão eles marchando, imponentes, em seus corcéis brancos, como deuses wagnerianos, baixados à Terra para purificá-la. Só cavalos arianos. Nada de cavalos negros. Nem ciganos. Alguns animais que traziam a testa estrelada foram deixados na fronteira, por motivos que desconheço.

Pois lá estava o capitão saindo do reservado local onde acabara de desaguar-se, com o quepe sob o braço esquerdo, tentando, com as duas mãos, fechar a braguilha da calça. Quando inventarão o zíper? Ou o velcro? indaga-se ele. Aliviado, nosso homem senta-se num canto do cabaré, com os olhos já se acostumando àquela semi-escuridão. Vê os dois caninos que brilham e deixam de brilhar, à medida que Josephine abre e fecha a boca. Maravilhado, ele não percebe que foi visto pelo militar francês. Este ergue o copo de chá, ou uísque, displicentemente, e aponta com ele à sua companheira o recém-chegado.

A voz estridente da cantora impede que ouçamos exatamente o que o casal conversa. Mas o gesto dele, passando o dedo indicador da mão direita no pescoço, denuncia que ele está tramando degolar o capitão alemão. Ou tentando tirar a gravata que o incomoda. Agora que bateu um facho de luz naquele canto dá para perceber que ele, de fato, tirou a gravata. Continua, porém, a gesticular. Não dá para perceber exatamente o que sua gesticulação significa porque a orquestra, na verdade uns três ou quatro músicos que lidam com seus instrumentos com o mesmo entusiasmo de um ascensorista depois de cinco horas de trabalho, agora atacam um acorde que desperta a ira de um dos presentes, que dormia com o rosto despejado sobre a mesa, se me permite a necessária força de expressão, que certamente lhe passou despercebida, se é que te conheço bem. Vê se presta mais atenção ao que lê, rapaz!

Viemos a saber mais tarde que se tratava de um maestro. Como não conhecíamos a sua identidade, estranhamos quando ele puxou de baixo da mesa um longo estilete e se dirigiu à orquestra, na verdade uns três ou quatro músicos que etc. Os músicos param de tocar, esperando para saber qual deles será estocado pelo cabeludo que subiu ao palco. Ele levanta o braço e, antes que possa comandar a orquestra, na verdade etc., com sua batuta, recebe um tiro certeiro na nuca.

Mama mia!, exclama o maestro enquanto cai para a frente. Os músicos, despertados de seu pasmo, voltam a movimentar-se, tocando uma alegre mazurca da moda. Josephine, que já está sentada na perna esquerda do capitão, tenta soletrar alguma coisa em alemão. Ele não entende. Quelle merde de terre c’est la vôtre? grita ela, provocativamente, pensando que ele fala francês. O militar alemão concorda com a cabeça várias vezes, pedindo-lhe que cante a música que ela lhe havia anunciado, quelque chose sur la vie. Enquanto ele procura o sapato, que ficara sob a mesa, ela se levanta e começa a dizer alguma coisa que ninguém ali entende. Sua voz eleva-se cada vez mais. A orquestra, na verdade etc., aumenta o som. O militar francês levanta-se e começa a dançar com a espiã. Forma-se uma barafunda dos diabos e o capitão não entende mais nada. Mas ele está de pé sobre a mesa de canto, descalço, apenas de cuecas e bate palmas ritmadamente.
Longe, muito longe, jovens loiros continuam a avançar, montados em seus belos cavalos arianos, rumo ao futuro da Humanidade, sem saber que a guerra, qualquer guerra, vale bem menos do que um copo de chope.


10 outubro 2008

Piropo (VII)


Penso em ti a todo o momento,
não sabes quanto te quero;
mesmo nas tardes sem vento
no meu veleiro eu te espero.