16 março 2009

Evangelhos apócrifos

Dizem que, além dos quatro Evangelhos que todos conhecemos, que são os oficiais, ditos sincrônicos, há outros mais, ditos apócrifos,  nome antipático para o que melhor se qualificaria de oficiosos, alguns dos quais contam algumas historinhas sobre a infância de Jesus. Como aquela que narra o hábito que ele tinha de fazer passarinhos de barro, que ia colocando ali, ao lado dele, um ao lado do outro. Quando se cansava, ele, entre um bocejo e outro, dava um sopro sobre eles e as avezinhas saíam voando em bando.

Meu pai nos contava o dia em que, indo pregar em outra freguesia, Jesus levou consigo o amigo Pedro, recomendando que este trouxesse no embornal um frango assado, determinando ao cabeçudo amigo que só abrisse o matulão quando chegassem ao destino. O Pedro, porém, com fome, enfiou a mão na cesta e arrancou do frango uma das pernas, que comeu discretamente. Quando se sentaram para comer e o Mestre descobriu que faltava uma perna ao frango, repreendem o discípulo. “Mas esta é uma ave de uma perna só”, justificou o apóstolo. Prosseguiram viagem e, lá adiante, havia umas aves pernaltas, fazendo a sesta sobre apenas uma das pernas, a outra guardada debaixo da asa, talvez jaburu, se é que havia dessa ave por lá. O Pedro não perdeu a oportunidade. “Veja, Mestre, ali está a ave de que lhe falei”. O Mestre correu até elas, espantando-as, e elas se puseram a correr, mostrando agora as suas duas pernas lá delas. O Pedro não se fez de achado: “Eita home bão pra fazê milagre, sô!”

Que importância terá o fato de não termos prova da veracidade desses míni-contos? Vi certa vez uma ilustração em que o menino Jesus, de camisolão ocidental até os pés, rosto branco como um escandinavo e cabelos arianos loiros caindo pelos ombros, está numa oficina muito bem aparelhada, ajudando o pai carpinteiro. Já o Zé Saramago, com a liberdade que sua genialidade poética lhe permite, descreve uma refeição na gruta do casal: José, de cócoras, prato amparado na mão esquerda, com a mão direita fazendo as trouxinhas de comida que leva sucessivamente à boca. No canto escuro, Maria espia, de pé, encostada na parede, aguardando sua vez de almoçar, talvez coçando as costas. Sei de algumas pessoas freqüentadoras de missa que não foram além dessa página.  

Acho que todos temos o direito de sonhar e, sonhando, construirmos o mundo que gostaríamos de ter. Ou imaginando, no sonho, como o mundo talvez pudesse até ser muito pior do que já é, consolo dos inconsoláveis. Daí os sonhos de que nós acordamos alegres e aqueles de que acordamos ofegantes, coração disparado, mas felizes por voltarmos a este mundo caótico, menos terrível do que aquele que havíamos construído no sonho recentemente sonhado. Sonhamos o sonho de que necessitamos, dizem alguns estudiosos dessas coisas do inconsciente, esse porão mal iluminado amontoado de lembranças passadas e futuras. “Nunca é mais escuro do que a meia-noite” disse eu à Artemísia, minha psicoterapeuta, nome infeliz, pois terapia se refere a quem está doente e o bate-papo com psicólogo ou psicóloga só faz quem tem juízo, né, Cláudia? “Nunca será mais escuro do que a meia-noite” disse eu certa ocasião, repito, procurando acalmar os temores dela, analista responsável, diante de minha ocasional depressão e aonde pode chegar um deprimido. “Isso não vale para o porão do inconsciente”, disse-me a Artemísia, nome mais bonito esse, recomendando cautela quando avançar por esses corredores escuros. Há os que aí se perdem e não encontram mais a porta da saída, eternizando-se no seu labirinto mental.

Tenho dado tratos ao juízo para tentar descobrir o que levaria Deus a humanizar-se no seio da família de um carpinteiro. Se nem uma folha de árvore, se nem um dos cabelos masculinos despede-se da vida sem autorização divina, claro está que o Espírito Santo haveria de ter algo em mente quando, podendo escolher a casa de um político ou de um comerciante para aí botar o ovo da futura Humanidade, resolveu deixá-la naquela gruta do Saramago.

Fiquemos com a primeira hipótese. José, na sala de visitas, recebe correligionários, com os quais discute verbas para a aquisição de mulas e camelos, com os quais poderão ser atendidos doentes residentes em sítios mais distantes. E também as verbas para a aquisição e distribuição de merendas às crianças das favelas locais. “Nossa comissão nesse negócio será de tanto”, diz um dos recém-chegados. Jesus, pelo vão da porta, só espia, ansioso, a cara do pai.

Não. Melhor pensarmos na segunda hipótese. O pai de Jesus é um rico comerciante de tecidos. As belas roupas do filho, que vive passeando pelos arredores da cidade, entrando em casebres e limpando, com a manga de suas belas roupas, o ranho das crianças que encontra, são como os macacões dos corredores de fórmula um. Quem vê a roupa dele sabe que o fabricante é o José, aquele um que é casado com a Miriam. Um dia, o jovem Jesus é repreendido pelo pai, pois não deve andar por esses lugares de má fama. “Eu já não lhe comprei título de clube de golfe? Então, que história é essa de andar com más companhias por lugares ermos? Vá dar uma volta de jet-ski, meu filho.” Além do mais, o que haverão de dizer as freqüentadoras daquele shopping nazareno vendo os tecidos exclusivos ali vendidos, importados graças a facilidades fiscais obtidas junto ao Senado romano, sendo empregados para limpar as sujeiras dessa gente periférica?

O filho teria um acesso de santa ira, como aquela que mais tarde ele viria a ter na escadaria do templo, tiraria a roupa, jogaria no chão, e sentenciaria, solene: “Eu não preciso dessa merda para ser feliz!” E sairia à rua nu, catando pedras para restaurar uma capelinha do bairro periférico que está a merecer algum reparo físico. Talvez que ali as crianças aprendam a ler e escrever, sonha ele, que talvez ali seja chamado de Chico.

Fico, porém, com a hipótese oficial. O menino Jesus está ali pendurando portas em batentes. Enquanto o corpo trabalha, a mente não descansa. “E pensar que a casa de meu Pai tem muito mais portas do que temos aqui!” resmunga ele, enquanto tira o suor do rosto com a manga da longa túnica. “Disse alguma coisa, filho? O barulho da serra não me deixa ouvir.”

Ou então passando a bonequinha de pano embebida em verniz sobre os desenhos da madeira, que ele acaricia. “E pensar que ainda ontem isto era uma árvore!” Vejo-o empolgado por essa idéia. Ele pára o que estava fazendo, volta-se para uma assistência de fiéis imaginários, e se põe a discorrer. “A semente morre e temos a árvore; a árvore morre e temos sua presença entre nós por gerações e gerações, sempre pronta a servir, como cadeira, como mesa, como algum outro utensílio. E vós? Sois semente? Sois árvore? Pois eu vos convido a serdes árvores eternizadas na utilidade que emprestardes à vossa vida. A cadeira não existe para si. A mesa não existe para si. E vós, a quem serve a vossa existência?” José, muito compreensivo, aproxima-se dele, passa a mão nos cabelos negros encaracolados do filho. “Vá brincar um pouco, filho. O tempo das coisas sérias pode esperar”.

24 fevereiro 2009

Noite

O pequenino pássaro

pousa na pálida prímula.

A olorosa rosa

fecha-se,

não quer prosa.

A lua,

nua de nuvens,

ilumina a rua.


15 fevereiro 2009

Juízo Municipal Informal de Conciliação


A descrença na rapidez da atuação do Poder Judiciário não é privilégio do Brasil, sendo raríssimos os países que contam com um Judiciário tão eficiente que o vencedor da causa não tenha de amargar as conseqüências da demora, a que os juristas, para dourarem a pílula, preferem aludir em latim: periculum in mora. A demora é algo insuperável, agravada no Brasil pela existência de um número infinito de recursos, sem que se adote o sistema de sucumbência por incidente, que muito refrearia esse ímpeto demandista. Quer recorrer? Pois que arque com as conseqüências da perda do recurso: cada vez que for derrotado, o recorrente deveria pagar não só as custas do recurso como os honorários do advogado da parte contrária. 

Quando ministro do Supremo Tribunal, Sydney Sanches, certa ocasião, informou-me que tinha em mãos os autos de um processo relativos ao 33º(trigésimo terceiro!) recurso interposto em uma única causa. Conte isso lá fora e eles te internam. O ministro Sepúlveda Pertence declarou, com seu conhecido bom humor, que quase foi chamado de ignorante por um colega de outro país. Ele relatou, em certo congresso internacional de juristas, que, naquele ano, havia dado uns tantos mil votos. Como a palestra foi dada em inglês, o colega estrangeiro dele, gentilmente, corrigiu: “o ilustre palestrante, certamente pouco afeito à língua inglesa, confundiu hundred com thousand”. E o Sepúlveda: eu não quis dizer centenas, quis dizer milhares de processos.

A Suprema Corte norueguesa é composta de mais juízes do que a nossa. Seu presidente declarou-me que no ano de 2005 haviam julgado quase 500 recursos criminais. Um assombro, segundo ele. Nossa Suprema Corte julga muito mais do que isso por mês!

Qual a solução para esse insuperável volume de serviço? Uma tentativa recente é a adoção da chamada “súmula vinculante”, pela qual se obrigam os juízes a respeitar uma decisão-padrão tomada pelo Supremo Tribunal Federal sobre determinado tema jurídico. Outra é buscarem-se resolver os conflitos por conciliação e arbitragem.

A arbitragem, como se sabe, é uma proposta de processo não-judicial de resolução dos conflitos inter-individuais, que pode ser instituído mediante cláusula contratual compromissória expressa (os contratantes se comprometem a solucionar os conflitos decorrentes do contrato sem ingressar em Juízo) ou pela simples convenção das partes, tendo como escopo diminuir as conseqüências acima referidas, tanto que as partes fixam um prazo razoável para que os trabalhos do árbitro sejam concluídos. Por mais que alguns juízes esbravejem, certamente por verem nisso a demonstração de que o Poder Judiciário brasileiro está falido, isso nada tem de inconstitucional, pois não se está delegando atividade jurisdicional, que é coisa diversa. Aliás, isso de ter de submeter qualquer conflito ao Poder Judiciário já está superado.

Todos nós conhecemos algum jogo de futebol vencido irregularmente por um dos times. Cite-se, por todos, aquele em que a famosa “mano de Diós” se utilizou do Dieguito Maradona para dar a vitória à seleção argentina. 

Campeonatos de futebol são decididos com base em algum gol questionável e nem por isso os clubes entram com uma ação judicial para contestar o resultado. Aliás, isso consumiria anos e anos, o que levaria o caos ao futebol, com incertezas e perda de dinheiro por parte de clubes e de jogadores.

Juiz de paz celebra casamento e nem por isso precisa de toga. Aliás, até padre está autorizado a isso. Aí está a lei n. 6.015/73 que me não deixa mentir. E não me consta que alguém alguma vez haja tentado anular um casamento porque não foi celebrado pelo juiz de Direito ou, ao menos, pelo juiz de paz.

Se ela não vem expressamente mencionada no contrato, a arbitragem aparece em uma convenção ou compromisso posterior, quando as partes interessadas, diante de um desentendimento, não desejando, sabiamente, submeter o caso ao Poder Judiciário, dada a demora que isso acarretaria, resolvem nomear uma ou mais pessoas de confiança de ambos para definirem o impasse, pondo-se, assim, fim ao litígio. Esse árbitro, de comum escolha, terá todos os poderes necessários à sua atuação e sua palavra final, atribuindo razão a este ou àquele, não poderá ser contestada. Igual a um juiz de futebol, até porque o juiz de Direito, pobre dele!, sua palavra pouco vale, tantos são os recursos judiciais possíveis.

Digno de notar que em 1975 os Estados membros da Organização dos Estados Americanos - OEA -, dentre os quais o Brasil, por seus ministros plenipotenciários, em reunião realizada no Panamá, aprovaram a Convenção Interamericana sobre Arbitragem Internacional, segundo a qual “é válido o acordo das partes em virtude do qual se obrigam a submeter a decisão arbitral as divergências que possam surgir ou que hajam surgido entre elas em relação a um negócio de natureza mercantil”. O Congresso Nacional brasileiro, depois de 20 (vinte!) anos, ratificou aquela Convenção e, em face disso, o Poder Executivo, pelo decreto n° 1.902, de maio de 1996, promulgou a Convenção, incluindo, pois, seus dispositivos em nosso sistema jurídico. Passaram-se mais de 10 anos e isso ainda esbarra em nossa cultura de eterna desconfiança.

  Muito embora a possibilidade de estabelecimento de um Juízo Arbitral já viesse prevista em nossa legislação há muito tempo, em especial no Código de Processo Civil, somente com a edição da lei n 9.307/96, que decorreu da promulgação daquela Convenção, é que se pôs ponto final às discussões que havia a respeito da possibilidade de sua adoção entre nós, o que era negado por alguns juristas em face do princípio constitucional que proíbe qualquer acordo que implique a exclusão de apreciação pelo Poder Judiciário de qualquer alegação de lesão de direito individual. Aliás, só a má vontade pode ver nesse tipo de solução de conflito a exclusão do Judiciário, pois a porta dele sempre estará aberta para a discussão de eventuais defeitos formais no processo conciliatório. Tanto quanto para avaliar a validade de um casamento.

Realmente, segundo o contido nessa lei, escolhido o árbitro, ou árbitros (neste caso em número ímpar, por motivos óbvios), pelas partes interessadas, deverão elas acatar o que por ele for decidido, somente podendo qualquer das partes recorrer ao Poder Judiciário, para impugnar o laudo ou sentença arbitral, em caso de ocorrer nulidade dessa decisão, o que ocorrerá se:

i)    vier a descobrir-se que alguma pessoa que atuou como árbitro não podia sê-lo;

ii)  a decisão arbitral contiver vícios formais, como falta de fundamentação ou de assinatura de algum dos árbitros;

iii) tiver ela ido além do objeto a que se destinava, decidindo mais do que aquilo que haviam requerido as partes interessadas;

iv) tiver ficado aquém daquilo que haviam requerido as partes, deixando de decidir parte da questão submetida a julgamento;

v)   ficar comprovado que o árbitro fora submetido a ameaça, corrupção ou tenha agido por prevaricação, atendendo a algum sentimento pessoal para favorecer uma das partes;

vi) tiver sido proferida além do prazo fixado pelas partes;

vii) não tiverem as partes sido tratadas com igualdade no processo.

Prevista sua possibilidade no contrato ou resolvendo as partes interessadas submeter a solução do impasse a um Juízo Arbitral, a este será levada a questão, por ambas as partes ou ao menos por uma delas, que, em tal caso, especificará devidamente o assunto a ser decidido.

Decidida a realização da arbitragem, caberá ao árbitro ou árbitros tomar todas as providências para melhor ser decidida a questão, podendo até mesmo mandar realizar perícia, ouvir testemunhas, requisitar documentos, além de poder ouvir as partes interessadas. Finalmente, esgotados os meios probatórios, será lançada a sentença arbitral, dentro do prazo concedido pelas partes, tornando-se, a partir de sua publicidade, uma norma que vincula as partes interessadas.

Duas observações importantes: o Juízo arbitral somente pode ser utilizado quando se estiver diante de direitos patrimoniais disponíveis, por motivos óbvios. Por isso, as partes podem estabelecer como bem entenderem as regras a serem observadas pelo árbitro. Por fim, a escolha do árbitro, para evitarem-se novas demandas, deverá recair sobre pessoa experiente, respeitada na comunidade e familiarizada com o tema a ser decidido.

O que importa registrar é que esse procedimento retira do âmbito do Poder Judiciário a demorada fase do processo de conhecimento. Encerrada a conciliação ou sobrevindo a decisão do árbitro, aí estará um título executório, que, não respeitado, dará ensejo ao processo de execução. Desnecessário enfatizar quanto de tempo se ganha nisso.

Ora, sendo isso assim, nada impede, antes tudo aconselha, que esse serviço seja incluído na esfera das atividades do município. A praticidade disso e a descentralização que isso implica não deixam a menor dúvida quanto à sua conveniência e praticidade. Hoje em dia, especialmente no Estado de São Paulo, pode-se dizer que cada município tem sua faculdade de Direito, por mais mambembe que seja ela. Se não ele, a cidade maior mais próxima certamente o terá. Se o Prefeito, devidamente autorizado pela Câmara de Vereadores, firmar um convênio com tais Faculdades, esse Juízo Informal Municipal de Conciliação poderá contar com estudantes de Direito, que, além de praticarem naquela atividade, poderão até mesmo preparar-se para uma futura carreira na magistratura. O juiz da comarca a que pertencem tais municípios não terão dúvida em reunir-se, periodicamente, com esses conciliadores, dando-lhes eventuais esclarecimentos de que a atividade deles mostre necessitarem.

Apresentei estas idéias em algumas cidades do interior. Em Santos, um advogado, ao fim dela, levantou-se e afirmou: “Acho que essa idéia não pega. Ela é tão simples que as pessoas tendem a rejeitá-la por isso. Nós adoramos é complicação.”

Acho que o colega pensava no famoso ovo do Cristóvão Colombo.

09 fevereiro 2009

Presunções

"Não existe nenhum país no mundo que ofereça tamanha proteção (aos acusados). Portanto, se resolvermos politicamente – porque esta é uma decisão política que cabe à Corte Suprema decidir – que o réu só deve cumprir a pena depois de esgotados todos os recursos, ou seja, até o Recurso Extraordinário ser julgado por esta Corte, nós temos que assumir politicamente o ônus por essa decisão".

(Ministro Joaquim Barbosa, quando do julgamento do HC 84078/MG pelo STF)

 

Se você conhece alguma coisa da vida  sabe que o criminoso é alguém que demonstrou não respeitar as regras de convivência social. Se conhece alguma coisa do Direito Penal certamente sabe que uma das finalidades da pena é proporcionar a ressocialização de quem cometeu um crime. 

Imaginemos, porém, que você seja leigo em Direito. Você passa por uma avenida pela manhã e vê um automóvel inteiramente desfeito, com aqueles ferros retorcidos empilhados junto a um poste, sangue na calçada correspondendo ao passageiro que ali era transportado. Se você é um adulto que conhece as coisas naturais da vida, o que os juristas costumam chamar de illud quod plerumque accidit, aquilo que normalmente acontece, sabe que: a) automóveis não foram feitos para colidirem contra um poste, mas para trafegarem no chamado leito carroçável; b) os automóveis são construídos com material resistente e só se desmancham quando colidem contra um obstáculo, em alta velocidade. Aqueles dados à sua disposição permitirão que você chegue a algumas conclusões: a) o automóvel colidiu contra o poste por haver saído indevidamente do leito carroçável; b) os danos produzidos na colisão sugerem que ele estava trafegando em velocidade incompatível com a que seria razoável nas circunstâncias. Logo, concluirá você que esse motorista acaba de cometer um crime de trânsito, causando danos físicos ao passageiro ou sua morte.

Se, entretanto, ao seu lado estiver um advogado criminalista, ele bradará: “Enquanto não for comprovada a culpa desse motorista em um processo judicial, assegurando-se a ele ampla defesa, com a possibilidade de interpor todos os recursos previstos em lei, ele deve ser considerado inocente”.

Você então concluirá que os operadores do Direito são gozadores ou débeis mentais, pois, de acordo com o citado illud quod plerumque accidit, a presunção evidente, decorrente daquilo que ali está exposto, é no sentido de que o motorista foi imprudente, ao imprimir velocidade inadequada ao veículo, e imperito, ao deixar o automóvel desgovernar-se. Logo, a menos que ele justifique cabalmente sua conduta, a presunção será de culpa, não de inocência, até porque o fato se passou na madrugada e não havia qualquer testemunha presencial. O tal advogado, ao ouvir isso, lhe entregará um cartão de visitas. “Não saia à rua sem ele”, dirá a você, com um sorriso de mofa no rosto.

Imaginemos agora que você resida num prédio de apartamentos, no qual moram várias famílias, cujas crianças costumam brincar num play ground situado nos fundos do terreno. No terceiro andar mora um rapaz, dono do apartamento, cujo quarto tem a janela voltada para o tal play ground. Ele encontra-se em gozo de férias e, por isso, pretendia dormir até mais tarde, o que o barulho da criançada não permite. Ele então empunha sua espingarda de caça e vai abatendo, uma a uma, as perturbadoras crianças, como se estivesse em Columbine.

Ele vem a ser preso, é lavrado o auto de prisão em flagrante e arbitrada fiança, pois ele é primário, tem residência fixa e emprego. Paga a fiança, ele é solto, voltando para casa.

Vamos dramatizar ainda mais: uma das crianças mortas era seu único filho. Como você se sentiria cruzando diariamente com aquele vizinho no corredor do edifício ou subindo com ele no mesmo elevador? Que idéias lhe viriam à mente?

Oferecida denúncia contra ele, o defensor arrola meia dúzia de testemunhas, dentre as quais Gisele Bündchen e Ricardo Izecson Santos Leite. Serão expedidas cartas rogatórias para ser tomado o depoimento da itinerante modelo onde quer que ela esteja desfilando e para ser ouvido o tal rapaz, que atua no futebol da Europa sob o nome de Kaká. Anos depois, quando voltarem as cartas rogatórias devidamente cumpridas, a defensoria requererá que o jogador e a modelo sejam submetidos a acareação, cujo indeferimento caracterizaria cerceamento de defesa. Quanto tempo mais será necessário?

Imaginemos que um dia a instrução desse processo termine e sobrevenha uma sentença condenatória. Condenatória? Coisa nenhuma. Será uma sentença determinando que o réu seja submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri. O acusado continuará a circular pelo edifício onde vocês dois moram, pois é primário e tem bons antecedentes. E continua sendo legalmente inocente.

A primeira providência da defensoria será apresentar um recurso de Embargos de Declaração, para que o juiz explique melhor algum trecho da sentença. Esse recurso será rejeitado ou acolhido, publicando-se o resultado meses depois. 

Sobrevém então o recurso propriamente dito, que deverá ser apreciado pelo Tribunal de Justiça, recurso esse no qual a defensoria certamente argüirá umas tantas nulidades e pedirá a despronúncia do recorrente, como é de praxe. Os autos do processo irão à Procuradoria de Justiça, de onde retornarão no ano seguinte. Enquanto isso você continua a cruzar com o mesmo vizinho no corredor do edifício onde ambos residem.

Anos depois, o recurso será julgado, confirmando-se a decisão que mandara o réu a julgamento pelo Tribunal do Júri. O Acórdão será então lavrado, assinado, registrado e publicado, o que exigirá uns tantos meses. A defensoria, então, apresentará recurso de Embargos de Declaração, para que seja esclarecido isto e mais aquilo. Meses depois os tais Embargos serão julgados, o respectivo Acórdão será lavrado, assinado, registrado e publicado, o que exigirá mais alguns meses. Enquanto isso você continua a cruzar com o recorrente no corredor do edifício onde ambos residem, pois ainda não é o caso de expedir-se mandado de prisão, já que o réu continua sendo legalmente inocente.

Agora a defensoria apresenta não apenas um, mas dois novos recursos. No primeiro, dito Recurso Especial, ela invocará violação de algum preceito constante de lei federal; no outro, dito Recurso Extraordinário, a defensoria alegará violação de algum preceito constitucional, coisa que qualquer rábula sabe fazer. Os autos irão novamente à Procuradoria de Justiça, de onde retornarão no ano seguinte, com pareceres sobre um e outro desses recursos. Eles serão então despachados pelo Presidente do Tribunal de Justiça que ou manda que o recurso seja enviado ao tribunal de Brasília competente para apreciá-lo, ou indefere o recurso. Do indeferimento caberá novo recurso, dito Agravo de Instrumento, que será apreciado por um Ministro de um Tribunal Superior, em Brasília, sabe-se lá quando. Em Brasília caberão tantos recursos de Embargos de Declaração quantos a imaginação e a criatividade do Advogado conseguirem criar. Quando algum deles for indeferido liminarmente, sob a alegação de ser meramente protelatório, sempre caberá o recurso de Agravo Regimental, cuja decisão também admite novos Embargos Declaratórios.

Enquanto isso você continua a cruzar no corredor do edifício, onde ambos ainda residem, com a pessoa que, anos atrás, quando os cabelos de tua esposa ainda não eram grisalhos e quando havia cabelos em tua cabeça, disparou contra crianças que faziam algazarra no play ground do edifício onde você e ele já viviam. Lembra-se?

Repare que até agora ele ainda não foi submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri. Quando isso ocorrer e ele for condenado, finalmente ele será preso e começará a cumprir a pena. Certo? Errado. Ainda faltam ser interpostos muitos e muitos recursos.

Quando tiver sido definitivamente julgado, o tal rapaz, agora um respeitável senhor, casado e bem empregado, deverá deixar o emprego e a família para passar uns tempos atrás das grades. Uns anos mais e ele sairá de lá presumivelmente ressocializado.  


02 fevereiro 2009

Nossos poemas em Portugal

"O passatempo sobre o vinho foi muito participado. E bem participado, como se pode ver. Desta vez, para a escolha do poema que iria ser gravado em audio, optei por uma solução diferente da habitual: seleccionei dois poemas de autores que nunca publicaram (um deles — o cartunista Álvaro Santos —, penso que esta é a sua primeira experiência em poesia, o que muito me alegra, pois um dos objectivos deste blogue é trazer mais adeptos para a Poesia). Além disso, estes dois poemas que escolhi são bastante originais e divertidos, o que é óptimo para começar um Ano Novo.
Não se esqueçam de que este espaço aberto é um espaço de tertúlia e não de alguma espécie de competição. Para isso existem os concursos literários, com júris e prémios monetários. O poema (ou poemas) que escolho para serem gravados em audio não têm necessariamente de ser os melhores. Como entenderão, é impossível o Luís Gaspar gravar em audio todos os poemas participantes, pelo que tenho sempre que escolher apenas um ou dois. 
A vossa participação nestes passatempos deve ser sempre na óptica da partilha, da sã convivência. E até para divulgarem o que escrevem. Por isso vos agradeço a forma como têm participado nestes passatempos.
Uma nota também de agradecimento ao Luís Gaspar, que tão bem nos soube servir estes nectares que gravou, para nosso deleite. Sei que ele também se divertiu a gravá-los.
Aqui ficam, então, todos os poemas que chegaram ao porosidade. E no final, os poemas que foram escolhidos para gravação em audio." 

(Inês Ramos)

26 janeiro 2009

China


Que é feito de ti, menina?
Como anda teu sorriso?
Eu quase perdi o juízo
por causa da minha sina.

Não creia que isto é besteira:
és promotora de dores!
E como vão tuas flores?
Tua vida é a costumeira?

Quando estiver na prisão,
Co’ esta saudade danada,
eu ali não terei nada
mais que a minha solidão.

A poesia em mim guardada
declamarei aos detentos,
de mil afagos sedentos,
esperando uma advogada.

Espera inútil, garanto.
Quem nos virá visitar?
Quem teremos pra secar
do rosto esse nosso pranto?

Pedirei ao Francimar
que um habeas corpus proponha
- Digo isso sem vergonha –
pra um juiz me libertar.

Mas pra que a liberdade,
se uma juíza tão terna
me impõe prisão eterna
na forma desta saudade?

Isso não é desengano,
pois nós servi legis sumus
ut liberi possimus,

como dizia Ulpiano.

Escravo sou desta sina,
mas liberdade não vejo,
se a coisa que mais desejo
és tu, minha ingrata china.

Uma coisa me consola:
não me tens em teu fandango?
Pois não bailarás o meu tango
ao som do Astor Piazzolla.

21 janeiro 2009

Urbanidade. Quem se lembra?

Eu sou do tempo em que. E lá vem alguma comparação entre isto e aquilo (claro, sempre dizendo que aquilo era melhor do que isto). “Naquele tempo juiz não pisava no tapete vermelho quando por ele passava um desembargador”, assegurava o desembargador Hildebrando Dantas de Freitas a um grupo de juízes que com ele conversávamos exatamente sobre o tapete vermelho do sexto andar do Tribunal de Justiça de São Paulo, coisa de uns trinta anos passados. Ou mais. Coisa de gente velha, direis. Ou que está envelhecendo, na melhor das hipóteses.
Nas aulas de Direito Administrativo aprendia-se que é dever de todo funcionário público (hoje se fala em “agente do serviço público”, como se, mudando o título da pessoa que ali atua, o serviço melhorasse) tratar as pessoas que o procuram com urbanidade. Que é ser urbano? E o professor citava os clássicos, dizendo que a vivência na cidade (urbe) deixava as pessoas mais afáveis, mais civilizadas, mais educadas. Uma palavra politicamente incorreta, diríamos hoje, pois ofende os moradores da zona rural. Além de tudo uma palavra injusta, pois a cortesia ainda é uma característica dos interioranos, enquanto os da capital não respondem nem a cumprimento quando nós, os mais antigos, dizemos um bom dia ao entrar no elevador do prédio onde nós e eles moramos.
Pois deu-se que o estagiário (“solicitador acadêmico”, dizia-se naquela época) atuava no XI de Agosto, o nosso HC do Largo de São Francisco. Era um caso incrível: o juiz titular, por descuido, aplicou à causa uma lei já revogada, negando, com base nela, o que havia sido solicitado. Agravou o “advogado”, requerendo que fosse aplicada ao caso a lei correta. O juiz auxiliar (diga-se, a bem da verdade, recém-chegado do Interior, onde, aliás, nascera), dando pelo equívoco, aplicou ao caso a lei nova. Mas negou, com base nela, o que havia sido solicitado. Ou seja: não reformou coisa nenhuma. O pobre estagiário ficou em palpos de aranha: seu recurso havia sido acolhido mas não havia sido acolhido. Que fazer? Procurou o juiz, famoso por seu vasto bigode e pelo modo pouco cortês como atendia aos advogados (atributo que o solicitador ainda desconhecia). Apresentou-se humildemente e tentou obter alguma orientação. “Trata-se de uma hipótese interessante que...”, balbuciou o futuro advogado, como que se dirigindo a um professor, que supunha fossem todos os juízes. “Nós aqui não lidamos com hipóteses”, sentenciou o magistrado, que mais não disse nem lhe foi perguntado, pois o estagiário rodou nos calcanhares e dali escafedeu-se. Aprendera a dura lição.
Muitos lustros depois, o eterno estagiário, agora voltando a advogar, já com cabelos brancos e quarenta anos de formado, em audiência, levanta-se para conferir na tela do monitor do computador se o juiz ditara corretamente um depoimento (na verdade, ele omitira texto importante ao ditar à escrevente o que dissera a testemunha). O juiz repreende severamente o grisalho advogado, “ensinando-o” que ninguém ali se levanta sem sua licença. Fundamentar tal censura nem pensar. Os cabelos negros do juiz, talvez reflexo da severa toga, davam-lhe o direito de desconsiderar, por um nada, os cabelos brancos do outrora colega de profissão. Um bate-boca desnecessário ao fim do qual os ânimos restariam exaltados, para espanto do cliente e sem proveito nenhum para ninguém. Nova lição a ser aprendida, como diria a Dra. Renata Maria Gomara, que, por sinal, não sei se ainda advoga.
O mesmo advogado, de outra feita, entra na sala da audiência e estende a mão para a juíza em comarca do Interior, com um “boa tarde, Excelência”. “Boa tarde” é a resposta dela, sem tirar os olhos dos autos, que lia com aparente atenção. “Eu sou de São Paulo e...”, diz ele, querendo dizer que não conhecia as idiossincrasias daquela comarca e desejava conhecê-las. Ela o interrompe, sem levantar os olhos: “Eu também sou!” O sempre estagiário, que havia lido alhures que no Itamarati se ensina aos futuros diplomatas que somente se deve estender o braço para responder a um cumprimento, lição que o tempo o fizera esquecer, recolhe a mão e o rejeitado afeto do sorriso do rosto. Sempre é tempo de se aprender algo. Aprender a ser grosseiro?
Durante a tal audiência, a memória vagueia, talvez para fugir do incômodo causado pela descabida indelicadeza, e vai até Araraquara, onde fora juiz substituto e onde a fama de um loirinho bom de bola ainda corria pelo fórum muito tempo depois de ele haver dali saído, para vir para a Capital estudar. Aqui, o loirinho de cabelos cacheados mostrou que também era bom datilógrafo, tornando-se escrevente (em rigoroso concurso, é claro, como era regra “naquele tempo”, quando Q.I. queria dizer “quociente de inteligência”, e não “quem indica”, como ocorre hoje). E bom também no estudo. Formou-se em Direito e, vencido o necessário prazo de experiência nas lides forenses (naquele tempo isso era pra valer), prestou concurso e ingressou na Magistratura.
Novinho ainda (não tão novo como os de hoje, que são de outros tempos), veio auxiliar na comarca da Capital. O antigo escrevente estava presente no datilógrafo expedito que, mangas de camisa, naquele calor de janeiro, batia um texto a máquina, talvez um despacho, ou mesmo uma sentença. Entra o advogado, cara de turco (ele ainda carrega seu corpanzil pelo fórum João Mendes até hoje e confirmará a história, se o desejar, valendo seu silêncio como admissão de anuência, nos termos da legislação vigente), com a petição na mão, vê a cadeira do juiz vazia e, evidentemente, procurando uma informação, dirige-se ao datilógrafo: “Escute aqui, meu rapaz, você é novo aqui, não é?” O datilógrafo responde balançando a cabeça afirmativamente. E continua a datilografar. “É oficial de justiça?” O datilógrafo balança a cabeça, dando resposta negativa. E continua a escrever. “Então você é escrevente?”. Novo meneio de cabeça em resposta negativa, sem interrupção do tec-tec do teclado. O advogado, já impaciente: “Mas então vai me dizer que já é escrivão, moço desse jeito?”. Ainda uma vez uma silente resposta negativa. “Então quer dizer que você, quer dizer, o senhor é...” E o Sydney (seguramente não haverá outro com dois “y” no nome em nenhum lugar do mundo, pelo que me dispenso de incluir o sobrenome do agora ex-Ministro do STF), com um sorriso de orelha a orelha, voltando-se para o estático causídico: “Vamos ver o que temos nessa petição, doutor”.
E ambos riram muito, e riem até hoje, relembrando o fato, nas raras vezes em que se encontram em São Paulo, onde o ex-loirinho agora vive, em seu otium cum dignitate.
Somos ambos daquele tempo.

11 janeiro 2009

O meu amor


Chegando ao fim do poema, você encontrará um tag, uma palavra de outra cor. Acesse-a e abrirá um link.




Meu amor tem jeito meigo
de me dizer eu te amo:
ela corre quando eu chamo.
Ela é crente e eu sou leigo.


Meu amor tem um jeito
de me dizer não te amo:
não atende quando eu chamo
e me deixa só no leito.


Meu amor tem jeito duro
de me dizer vá embora.
É verdade que ela chora.
Ela é chão e eu sou muro.


Meu amor é caprichoso,
faz beicinho a toda hora.
Ameaça ir embora,
eu que fique aqui choroso.


O meu amor é delicado,
parecendo um criança.
Hoje ela vive na França
e eu aqui desprezado.


O meu amor não me ama,
E eu na cama abandonado,
desesperado,
angustiado,
puto da vida.
Dane-se a rima!

05 janeiro 2009

Solidão antiga

Não sei d 'amores; eu não nos conheço.
Só sei d'angústia que me não deixava,
da solidão que devorou meus dias,
só sei de planos qu'eu não realizei.

Senti soidade algu’a vez na vida,
mas tive medo de m'atormentar.
Assi, cobarde, mais que qualquer outro,
matei meus sonhos pra viver em paz.

Nem um só nome na recordação,
lembrança algu’a de quem quer que seja:
ninguém perturba os longos dias meus.

Mas ai de mi, que vivo tão sozinho!
Preciso alguém que creia um pouco em mim;
preciso alguém e um pouco de carinho.

27 dezembro 2008

No templo



Há um medo
que se esconde
atrás da porta.
Torta a boca,
pouca a fala,
olhos no chão.

Um menino
de olhar esbugalhado.
tão calado
que parece
que morreu.

Não sou eu,
que o vejo
do meu canto.
Sem espanto,
sem buscar explicação.

Há um medo
que me fita e paralisa
com seu olhos
como de um congelador.

Um vitral
impede raios penetrarem
e tentarem derreter toda essa estase.

Quase chega
alguma luz,
alguma cor.

Há um homem
semi-nu
pendido à cruz.

Há pessoas coloridas
no vitral.

Há um medo
de pecar
ou de viver.

20 dezembro 2008

Em Terra de Cegos

Dedico este texto ao Poder Judiciário do Espírito Santo e à Polícia Militar de Santa Catarina

Foi numa terra distante. Há muito tempo.
Ali havia um estranho e inexplicável fenômeno: todas as pessoas nasciam cegas. Evidentemente, isso decorria de uma graça divina, pois esse feliz atributo evitava que as pessoas vissem tudo o que há de sórdido nas realidades que nos cercam. Nem pobres, nem doentes, nem cadáveres. E tanto era assim que periodicamente eram realizadas cerimônias religiosas, com ação de graças ao bom deus, por haver-lhes dado o maravilhoso dom da vida e por havê-los feito à sua imagem e semelhança (pois os deus deles era cego e justo, tendo na mão direita uma balança, símbolo da ponderação, e na sinistra uma adaga, símbolo da execução, ainda que nos pareça estranho se possa fazer justiça na cegueira).
Prendas riquíssimas eram trazidas de todas as regiões da tribo, para serem ofertadas em tais festividades, cuja freqüência mostrava o elevado espírito religioso daquele nobre e feliz povo, que não regateava o seu dízimo ao responsável pela sua prosperidade.
Deu-se que, certo dia, um dos habitantes daquele longínquo e feliz povoado sofreu um acidente quase fatal. Ou fatal, como também se pode concluir.
Foi assim: encontrava-se ele encarapitado em uma árvore, chamada, por motivos que se desconhece, árvore da vida, colhendo seus frutos (frutos proibidos, pois a árvore pertencia ao parque público), quando, por ira dos deuses, dali caiu e bateu o crânio em uma pedra. Durante muitas luas ficou ele entre a vida e a morte. Preces fervorosas foram feitas por seus familiares; ervas medicinais foram-lhe ministradas; sacrifícios ofertados em sua intenção; benzimentos e toda sorte de recursos foram utilizados para restituir a saúde ao chefe da família. Tudo inútil.
Certa manhã, contudo, deu-se o inesperado: quando os familiares se encontravam no templo, em adoração, implorando por sua saúde, o acidentado acordou com a saúde recuperada. Um milagre, por certo. Que somente não foi completo em face de uma particularidade, uma pequena seqüela daquele lamentável acidente: ele não conseguiu recuperar a cegueira. Por efeito da queda ele havia adquirido o lastimável estigma da visão. O terrível dom de ver. Não te todo, é verdade, mas o bastante para distinguir um pardal de um falcão.
Mal acreditando no sucedido, foi ele ao templo, pois era dia de ação de graças, ocasião propícia ao agradecimento pela saúde restabelecida, parcialmente embora. E momento adequado para fazer penitência, com vistas a recuperar a cegueira perdida.
Andando com muita cautela, desacostumado da perda da vista, dirigiu-se ao templo. No caminho impressionou-se com os resíduos que ia encontrando, o aspecto das moradias, das ruas esburacadas e sujas, em cotejo com o esplender do templo. Entrou. Procurando esconder sua desgraça, mantinha os olhos fechados, como se os demais fiéis pudessem perceber aquele pormenor. Postou-se num canto, muito discretamente, e pôs-se a fazer suas orações, em silêncio, contritamente. Os olhos, porém teimavam em abrir, por mais que se esforçasse por fechá-los. Era uma força invencível, realmente um castigo, uma tentação diabólica. Cedendo, por fim, a ela passou a examinar o que se passava ao seu redor. As pessoas orando com fervor. A certa altura, as ofertas de costume. Prendas preciosas sendo levadas ao altar, em honra ao venerado deus. Uma cerimônia tocante, realmente.
Terminada a liturgia, as pessoas foram saindo, aos magotes, vagarosamente. O pecador permaneceu no templo, para confessar-se de sua desdita a algum sacerdote. Olhos pregados no altar, viu, claramente visto, o chefe da tribo retirar, uma a uma, as oferendas que os fiéis haviam lá entregue. Tocado pela curiosidade, nosso pecador pôs-se a seguir, em silêncio, aquele transporte dos bens que, segundo os regulamentos da tribo, deveriam permanecer no templo. Soube, então, que o chefe e os sacerdotes transportavam para suas casas aqueles bens todos. Ou quase todos, já que os bens menos valiosos permaneciam, de fato, no interior do templo. Os demais, os mais ricos, eram objeto daquele inacreditável descaminho.
Mal refeito do segundo susto, o pecador pôs-se a berrar, convocando toda a tribo para a ágora nativa, a praça fronteira ao templo. Reunidos todos, tomou da palavra, ainda sob forte emoção, e pôs-se a discursar.
Cidadãos: como sabeis bem, encontrava-me eu acamado, em razão de haver pecado contra o nosso deus, tentando provar do fruto da árvore da vida. Pecado de que publicamente me penitencio, mesmo porque acabo de sair do templo, onde participei da cerimônia de expiação. O que não sabeis ainda é algo que me ocorreu hoje e que desejo contar-lhes aqui publicamente. Hoje, por incrível que isso possa soar, me foi dado aquilo que a nenhum de vós foi dado até hoje. Após tantos e tantos anos de existência de nosso povo, com os dias sucedendo as noites e as noites sucedendo os dias, com nossos sacerdotes vitalícios orientando-nos todos no caminho do bem e da prosperidade, ocorreu-me hoje algo que poderá modificar nossos hábitos, nossa maneira de viver, nossos princípios, nosso futuro.
A impaciência começou a tomar conta dos ouvintes, ante aquela peroração inicial. Aonde pretenderia chegar? Comentários aqui e ali, tentativas de adivinhação. Apostas (era um povo amante das apostas que realizavam por tudo e por nada).
O orador concluiu secamente, como se desse uma estocada final: foi-me dado o poder de ver.
Um surdo alarido percorreu os ouvintes. Uma onda que ia e vinha, cruzando-se de todos os lados.

Como é ver? Diga-nos lá o que é isso? Alguns mostravam-se claramente céticos. Descreve-nos o encontro das árvores com as nuvens do céu. Quão diversa é a curiosidade humana! Como é o rosto do nosso deus? Fala-nos da diferença entre o cão e o pássaro.
A impaciência tomava conta de todos. O homem os examinava um a um, satisfeito com a reação que as suas palavras estavam provocando. Por fim, prosseguiu:
Pouco teria a dizer-vos quanto a isso. A visão não mostra o coração do cão, que pulsa tal como o coração da ave. Se as árvores não tocam no céu é porque ainda não cresceram o bastante. Penso que o rosto de nosso deus não é visível com estes olhos. Isso seria procura inútil. Quero-vos contar algo mais relevante, mais precioso, mais fundamental do que isso. Quero-vos falar de uma visão que tive dentro de nosso templo e que pode modificar nossa vida e nosso futuro.
Os sacerdotes sempre narravam casos de santos que, iluminados por seu deus, haviam tido visões interiores. A partir dessas visões, a fé era incrementada, pois um povo que tivesse alguém assim abençoado por deus era um povo deveras feliz. O orador por certo falaria agora de suas visões religiosas.
Fale-nos, fale-nos, pediram ansiosos.
E o homem falou.
Como sabem todos, periodicamente se realizam cerimônias para aplacar as iras do nosso deus. Cada um de nós tem trazido, ao longo de nossas vidas, os nossos bens mais preciosos, nossas oferendas mais caras para ofertá-los, em holocausto, ao nosso amado criador. Sempre me perguntei qual seria o tamanho do depósito de nosso templo, para que ali coubesse tudo o que temos trazido. Hoje, quando me encontrava no templo, maravilhado com as ofertas que todos fizemos, obtive, por fim, a esperada resposta. E não poderia silenciar em nome da verdade, escolhido que fui pelo nosso criador - estou certo disso agora - para ver o que vi.
O silêncio era total. Podia-se ouvir o farfalhar das asas do pássaro que pulava de uma árvore a outra. A latir distante do cão. O pulsar dos corações inquietos. A respiração de todos.
Vi nosso chefe, nosso maioral, aquele em que depositamos toda nossa mais profunda confiança, vi nosso chefe retirar do templo, juntamente com nossos eternos sacerdotes, as peças mais preciosas, as doações mais valiosas que havíamos depositado no altar. Profanamente, traindo nosso deus e nosso povo, eles transportaram para suas casas aquilo que deveria permanecer no templo.
O murmúrio agora era muito maior. Céticos e ingênuos trocavam palavras ásperas. Durante muitos minutos a multidão se perguntava se poderia crer naquilo que estava ouvindo.
O orador pediu silêncio e continuou.
Sugiro, pois, que se forme uma comissão de cidadãos, dentre os mais respeitáveis, que irá investigar aquilo que acabo de narra. É irmos agora à casa deles e comprovar o que aqui lhes digo. Provado isso, deveremos julgar nossos representantes, aqueles que deveriam fazer de nossos dons coisa sagrada, para depô-los e para que outros, mais dignos e menos ambiciosos, ocupem seus lugares, cumprindo o que lhes toca.
Novo murmúrio, logo interrompido pela palavra do chefe da tribo.
Cidadãos, ouvi em silêncio, como todos vós, a acusação que nos acaba de ser feita. Era o que me competia, pois a cada um, como bem sabeis, é dada a liberdade de expressar-se, garantia máxima de nossa comunidade. Mas a todos também é dado o direito de defender-se, quando acusado. É o que faço neste momento.
Fez uma pausa, procurando estabelecer um hiato entre a palavra do outro e seus futuros argumento.

Todos sabem também que nosso povo tem o dom excepcional da cegueira. Graça divina que reiteradamente temos agradecido ao nosso criador. Benesse que nos trouxe a felicidade suprema de não vermos os andrajos de um mendigo, nem o rosto de um ancião, nem o desfazimento de um cadáver, nem o lixo de nossas ruas. Sabemos de sua existência, mas pela graça de nosso deus, não vemos. Não ver o insolúvel é já evitar preocupação inútil. Podemos, assim, olhar para dentro de nós mesmos e aí descobrirmos tudo o que há de bom e de belo em nós mesmos. Descobrirmos lá dentro, no nosso âmago, aquele pedaço de deus que ali existe. Quando existe. Frisou bem a última afirmativa.
As pessoas voltaram-se o rosto, expressando um sorriso que não passou despercebido ao denunciante. Era como se todos sorrissem para ele. Ou rissem dele, não sabia bem.
O chefe continuou.
Qual dentre vós alguma vez sentiu-se mal olhando para dentro de si? Quem dentre vós alguma vez lamentou não ter olhos para ver o lixo, o cadáver, a velhice? Pois bem. Agora aparece no meio de nós alguém que nos diz ter visto. Confessadamente ele provou do fruto proibido, foi castigado por nosso deus e, depois disso, adquiriu o poder de ver. Viu o céu separado das árvores, viu o cão igual ao pássaro. Ele viu, segundo nos diz. Ora, senhores, diante de tal afirmação somente podemos concluir que estamos diante de uma verdade ou diante de uma mentira.
A lógica da conclusão era inarredável e levou o auditório a não reparar na falsidade das premissas. As conseqüências imediatas do sofisma não foram percebidas desse modo pelo denunciante, que tudo acompanhava em respeitoso silêncio, como convinha e era norma.
O orador prosseguiu.
Aceitemos que ele está a falar verdade. Ele realmente viu. Nesse caso, este homem é um maldito, um amaldiçoado por deus, que nos fez todos à sua imagem e semelhança. Se nosso deus não fosse cego, algum de nós teria a salvação eterna? Se ele visse todos os nossos pecados, quem de nós teria a salvação? A cegueira de nosso deus é a nossa esperança, amados irmãos. Como ter fé em um deus que tudo vê e que tudo sabe? Como esconder-se dele? Como amá-lo plenamente se somos imperfeitos e, por definição, temos a impossibilidade de amá-lo tal como ele merece ser amado? Só sua cegueira nos salva! Como é possível, pois, que um homem, feito à imagem e semelhança de nosso deus cego, seja mais do que ele é? Se é verdade que este homem vê, ele é um réprobo, cuja presença entre nós somente poderá significar provocação às iras de nosso bom, porém justo, deus. É um novo lúcifer, que se supõe ser dotado de mais luz do que quem lhe deu à luz e lhe deu a luz!

Saboreou, vaidosamente, o jogo de palavras que, sabia-o muito bem, pouquíssimos ali teriam percebido.
O denunciante percebeu a movimentação das pessoas, que se puseram a formar um círculo de ferro em torno dele. Via-lhes a expressão inamistosa, demonstrando que suas palavras já haviam caído no limbo do esquecimento. As palavras do chefe, contudo, continuavam a martelar os ouvidos da multidão. Ele concluiu o raciocínio de forma fulminante, como quem dá um xeque-mate:
A não ser assim, este homem mentiu. E mentiu no propósito inequívoco de semear a discórdia entre nós, no seio de nossa feliz comunidade, quebrando a serenidade e a paz social de que todos desfrutamos, em nossa santa cegueira. O objetivo desse pecador é a nossa cizânia. Sentenciou, em remate Tertium non datur,

As palmas que ele intimamente esperava, não vieram. Mas eles já haviam feito o julgamento. O círculo de ferro foi-se fechando sobre o denunciante, que jamais pensaria em tentar fugir.
Se este homem é um maldito de deus, ou se este homem é um subversivo, pouco importa. O que é certo e verdadeiro, tão verdade como a cegueira de nosso deus, é que ele não pode mais continuar entre nós.
E mais não disse. O círculo fechou-se de vez. Ali mesmo na ágora o povo executou o maldito, linchando-o. Como se não tivessem pecados, apedrejaram-no até a morte. Depois, seu corpo foi esquartejado. As postas foram deixadas apodrecendo ao sol, para que o cheiro servisse de advertência aos incautos.

Para que não haja dúvidas: este conto saiu em 1982, no livro Cristo Hoje, Editora Loyola (esgotado), o Ensaio sobre a Cegueira, do José Saramago, saiu em 1995, e os fatos envolvendo magistrados capixabas e policiais de barriga verde ocorreram em 2008.

09 dezembro 2008

Quando eu partir


Quando eu partir,
que seja num dia alegre,
talvez numa quinta-feira,
melhor se for numa terça,
quem sabe no Carnaval.

Quando eu partir,
que a noite seja de lua,
crescente, de preferência,
com nuvenzinhas vagando,
quais aves do arrebol.

Quando eu partir,
que as flores abram-se todas
mesmo em outono ou inverno
que abrirem-se em primavera
é natural que ocorresse.

Quando eu partir,
que riam meus inimigos.
Eu vou querer que eles chorem?
Vou esperar que eles orem
por quem lhes fez tanto mal?

Quando eu partir,
num mês de março qualquer,
que seja detardezinha,
sem o mais mínimo azáfama,
tal qual sempre morre o sol.

Quando eu chegar,
um coro de anjos interromperá seu ensaio.
Um deles, mais atrevido,
nariz franzido, por certo
indagará:
“Quem é esse?”

03 dezembro 2008

Brechtiana

Quando me convocaste
eu disse sim
pois o inimigo
estava à porta.

E me reconvocaste
eu disse sim
pois o inimigo
logo estaria à porta.

E outra vez me chamaste
eu disse sim
pois o inimigo
logo poderia vir a estar à porta.

Agora,
quando me convocas
em caráter permanente,
tirando-me o tempo e a paz,
pondo-me a fiscalizar
os meus irmãos,
eu me pergunto:

onde o inimigo?

onde o inimigo?

onde o inimigo?

29 novembro 2008

Vernissage

Vernissage, dizem os nossos dicionários, é aquela festa que indica a inauguração de uma exposição de obras de arte. Um autêntico galicismo, diriam nossas avós. Francesismo, se quiserem. Por extensão, creio que se poderia empregá-la para designar o dia em que se dá o lançamento de um livro. Por que não?

O dia em que se abre uma exposição de fotografias pode ser chamado de vernissage? Sim, me direis, culto que sois. E de uma exposição de esculturas? Idem, haveríeis de retrucar-me, digo-o eu em português bolorento. Pois saiba, se ainda não o sabe, que a palavra francesa decorre de um fato pitoresco: no dia da inauguração de uma exposição de pinturas a óleo, ainda se sente no ar o cheiro do verniz, que muitos artistas usam (ou usavam, vá lá) para conservar a tela. Daí nasceu a palavra vernissage, francesa, com certeza. Logo, como as fotografias, as gravuras e as esculturas não são, normalmente, envernizadas, não se poderia falar em vernissage quando a inauguração diz respeito a gravuras, fotografias e esculturas. Entretanto, se se usa, como de fato se usa, dessa palavra também para referir-se à inauguração de uma exposição dessas, por que não haveríamos de utilizá-la para designar a chamada noite de autógrafo? Eis minha proposta.


Pois o jornal internético Migalhas vem de informar a seus mais de 300.000 leitores que no dia 10 de Dezembro, a partir das 19 horas, na livraria FNAC, situada na Avenida Paulista, fundos com a Alameda Santos, haverá a vernissage relativa ao lançamento do livro Justiça & Caos, da autoria de um certo migalheiro, cujo nome não me ocorre no momento. Julgo ter sido uma temeridade essa informação.

Pensem comigo. Que dos mais de 300.000 destinatários do festejado jornal eletrônico, apenas metade dos leitores tenha tomado conhecimento daquele aviso. A outra metade é composta daqueles leitores que naquele dia tiveram um TPM que os impediu de ler o anúncio. Refiro-me ao terror de advogadas e advogados: um Texto Para Minutar, seja Apelação, Agravo ou um REsp. Ou tem hora marcada no dentista, ou seja lá o que for. Ainda assim, 150.000 pessoas tomaram conhecimento daquela informação.

Digamos que a metade desse número corresponda a leitores que não vêm com bons olhos o autor do livro. Ou porque se convenceram de que ele não sabe escrever, ou porque ele é pernóstico, ou porque cuida de temas irrelevantes, ou. Nosso número já baixou para 75.000 pessoas.

Admitamos que esses remanescentes não tenham maiores restrições ao autor, para sermos otimistas. Ou pessimistas, não sei bem. Mesmo assim, metade deles não está disposta a enfrentar o trânsito de São Paulo para dirigir-se à Alameda Santos, onde fica a ampla garagem da livraria FNAC, livraria na qual, como noticiado pelo Migalhas, em data de 10 de Dezembro haverá o lançamento do livro Justiça & Caos. Resta a outra metade, nada menos do que 37.500, se me não falha a matemática, mais gente do que a maioria dos torcedores que se dispõem a ver um Fla x Flu ou um San-São. Ou um Come-Fogo, para homenagearmos a brava gente de Ribeirão Preto.

Se todo esse público se dispuser a vir à tal vernissage, que seria do já caótico trânsito daquele trecho da cidade de São Paulo? Se passeata de professores, que reúne uma ínfima parte disso, já rende homenagens às mães deles, imagine o que será das orelhas da falecida mãe do autor daquela obra literária em tais circunstâncias?

Pensemos, por tudo isso, em um número mais factível: 10%. Não me refiro a 10% do número de leitores que receberam aquele exemplar do Migalhas, mas à décima parte do último número levado em consideração para expressar o meu estado de quase pânico. Ou seja: 3.750 pessoas.

Façam as contas. Uma fila de 3.750 pessoas exigiria qual espaço para acomodá-las todas ao mesmo tempo no mesmo lugar? Calcule, otimisticamente, 30 centímetros quadrados por pessoa, vá à máquina de calcular e terá a resposta em metros. Ou quilômetros, não sei bem. Talvez será melhor falar em pessimisticamente. Isso, porém, não é problema meu, mas do DSV. Ele que destaque para lá tantos marronzinhos quantos necessários forem para a boa ordem do tráfego. Meu problema é muito outro.

De fato, qual a rotina em uma cerimônia dessas? Segundo minha pessoal experiência, o futuro leitor vai até o caixa com o livro que havia pego na prateleira, paga o livro e vem até a fila de autógrafo. O autor do livro lhe dá um sorriso e uma breve saudação, o que consome alguns preciosos segundos. Em seguida o candidato a leitor estende o livro, que é recolhido pelo autor, que o abre naquela página onde a moça do caixa havia posto um papelzinho com o nome do comprador, contando que o autor, naquela idade, não vai estar a lembrar o nome de toda pessoa que, no devido tempo, lhe dirá “Lembra-se de mim? Quanto tempo, hein? Você não mudou nada!”. Mesmo que seja o irmão do escritor. E outras frases semelhantes que servem para inflar o ego do conceituado escritor e atrasar a cerimônia programada.


Ato seguinte, o autografante lança no livro uma frase com letra ilegível, lança uma rubrica e a data, fecha o livro e o devolve ao futuro leitor. Com essa onda de telefone celular que mais parece um bom bril, tantos são os mil e um instrumentos que abrigam, e como fatalmente haverá um ou uma acompanhante, a quem o futuro leitor ou futura leitora pedirá: “Benhê, pode fotografar a gente?”, mais tempo a ser considerado. Aí o autografante levanta-se, fica ao lado do ou da adquirente da preciosa obra literária e fala ”xixi”, para aparecer sorrindo na foto. Se se cuidar de leitora, ele fatalmente encerrará aquela mini-cerimônia com um respeitoso ósculo na fase esquerda. Mediram o tempo?

Pois minha experiência mostra que é impossível dedicar a cada leitor menos do que um minuto de tempo, isso em média, considerando as moçoilas beijoqueiras num extremo e os senhores de rosto grave e ar de crítico literário no outro da curva de Gauss, como diria a Maria Helena.

Se a minha bexiga nesse dia se comportar como não costuma fazê-lo, eu não terei de levantar-me a cada meia hora para ir depositar a água que vou tomando enquanto fico ali sentado naquela prazerosa sauna que geralmente são as salas de autógrafo de livros, temeroso de uma desidratação. Isso significa que deverei valer-me de 3.750 minutos até que o último leitor, já com olheiras e barba crescida, seja por mim atendido. “No céu os últimos serão os primeiros” será a piadinha que lhe direi, para tentar compensar aquele tempo de espera. Qual tempo?

Se a minha calculadora não me trai, 3.750 minutos equivalem a mais de 40 horas. Ou seja, o primeiro leitor já foi para casa, deitou-se na cama dele, dormiu, acordou no dia seguinte, tomou banho, barbeou-se, foi trabalhar, voltou para casa e eu ali, com um massagista ao meu lado, como se fosse aquilo uma partida de tênis de Roland Garros, a contornar as sucessivas câimbras na mão direita que tanto me atormentarão.

Tomado de pânico, ante a absoluta falta de condições físicas para uma partida desse jaez, se me permitem a má palavra, estou pensando em reduzir meus cálculos, para que, chegando a uns 25 leitores, se tantos, minha saúde não corra os riscos que já me preocupam. Pensem nisso, antes de pensarem em atender ao convite que lhes foi precipitadamente feito.

Escrevo isso, estejam certos, exatamente para mostrar a todos a irresponsabilidade de quem resolveu divulgar que no dia 10 de Dezembro, a partir das 19 horas, na FNAC da Avenida Paulista, haverá o lançamento do aguardado livro Justiça & Caos.

Se puder, não vá.



26 novembro 2008

Vale a Pena Ler de Novo (X)




Supremo eu gosto é o de frango,

um tantinho apimentado,

boto o regime de lado,

e caio de boca no rango.


Confusões, já não sei quantas,

aprontou o tal ministro.

Com seu aspeto sinistro,

pôs na rua o tal de Dantas.


Estava armado o salseiro!

O juiz, bem descontente,

diz que o outro é incompetente

e o Dantas tem é dinheiro.


O juiz, bravura imensa,

mandou prender novamente,

ofendeu-se o presidente,

segundo lemos na imprensa.


Formou-se angu de caroço

e o tempo foi esquentando.

'Que que ele está pensando?

Vou processar esse moço!'


Meu parecer eu vou dar,

pra delicada questão.

o juiz tá co'a razão:

o presidente agil mar.

( Migalhas 15.07.08 )

19 novembro 2008

Per Baco!



Vinhas tu da vinha,
alquebrada e triste,
nem mesmo sorriste,
quando me fitaste.

Vendo-te sozinha,
tentei um contato,
nem sorri, de fato,
quando me miraste.

“O que te aporrinha?
Que tristeza é essa?
Aonde vais com pressa?
Diga lá, mocinha.”

E o semblante azedo,
ar aborrecido.
Que teria havido?
Estará com medo?

Não me importa a uva,
o vinho é que importa.
Se a casa tem porta,
fuja-se da chuva.

“Cale-se” me dizes,
com ar arrogante,
e um jeito pedante.
Imitas atrizes.

Essa não és tu.
Te conheço bem,
deixa de desdém.
Tomemos um cru.

Tu bebes, pressinto.
A vida é tão curta,
então, vamos, curta
um copo de tinto.

Brindemos a vida,
com taças de vinho,
talvez um beijinho
antes da partida.

Pra que não apanhes
tu um resfriado
aceita um bocado
deste meu champanhe.

Já vejo um sorriso
surgir-te no rosto.
Foi-se o teu desgosto,
voltou-te o juízo.

Não sou adivinho,
sei que voltaria
a velha alegria,
graças ao bom vinho.

16 novembro 2008

Vale a Pena Ler de Novo (IX)

Juíza na rua

"RJ - juíza que decidiu trabalhar no meio da rua
corre o risco de ser demitida" (Dos jornais)

A juíza foi pra rua,
pra mode de trabaiá.
É um comportamento novo,
querê se ingualá c'o povo,
mais num deve injagerá.

Dexe disso, minha santa,
quixotismo num adianta,
um senta déis alevanta,
desembargadô é vivo
sabe que trabaiá sua,
isso de ficá na rua,
faça sór o venha a lua,
só te trais munto perigo.

Oça bem o que lhe digo,
quem lhe fala é um amigo:
isso é teimosia tua,
tu querê ficá na rua.
Pode le vim um castigo
e isso sê difinitivo.

(Migalhas 16.08.07)

02 novembro 2008

Froidianices

À Cláudia,
com amor e admiração.

Você está dormindo e sonha. Um bispo, sentado em seu trono, mitra na cabeça, exibe o báculo, ostensivamente. As senhoras presentes genufletem, respeitosamente, diante dele. Ao fundo, sobre a nave, o maestro empunha a batuta e, a um sinal do báculo, agita o instrumento, para êxtase dos presentes. É o casamento de um cadete. No corredor principal, colegas do noivo, frente a frente, descumprem a ordem latina dada por Cristo a Pedro - mitte gladio in vagina -. Ao reverso, tiram da bainha o espadim e cruzam-nos, dois a dois, formando um arco, sob o qual passarão os noivos. Que, certamente, terão muitos filhos. Fora, um canhão dispara salvas de tiro. As donzelas aplaudem, excitadíssimas. O povo, entretanto, munindo-se de pedaços de pau e cacetes, tenta penetrar no templo, que tem a porta ovalada. Os guardas, vestidos de branco, quais vestais, postam-se diante da porta, para impedir a violação do templo do amor. Com os fuzis nas mãos, os guardas calam neles as baionetas, em posição de combate. Frente-a-frente os grupos contendores, aparece o juiz da comarca, exibindo a vara, símbolo da jurisdição e do poder. O prefeito dirige-se ao microfone, que tem a cabeça como uma glande coberta de uma malha de aço. De microfone na mão, ele agita o dedo indicador. Dedo em riste, como se diz, ele ameaça castrar os presentes.

Você acorda com um barulho. Um livro do velho Freud caíra da prateleira, com estardalhaço. Apalermado, meio sonolento, você vê o homem de barba branca e olhar maroto sair das páginas do alfarrábio. Soltando baforadas de fumo, ele lhe repete a lição que dera aos jovens na saída do teatro, em Viena: “Meu filho, por vezes, um charuto simboliza apenas um charuto".
Você começa a lembrar-se de que na véspera estivera lendo algo sobre a simbologia freudiana. Báculo, batuta, lança, espadim, pau, cacete, vara, dedo em riste, microfone, canhão, fuzil, baioneta. Uma chuva de símbolos fálicos invadira seu sonho. Aliás, o que não falta é gente tentando achar símbolos em toda parte.

Assustado, você vê sobre a mesa de trabalho a estátua de Têmis. Na mão direita ela traz o ainda presente falo da autoridade - vista sob o ponto de vista masculino -. Ela parece envergonhada de sua bissexualidade, e, por isso, cobre os olhos com uma venda, certamente temerosa de que a balança que ela traz na mão esquerda, representação óbvia da feminilidade, lhe mostre se o animus, representado pela espada, prevalece sobre a anima, ou vice-versa. Uma figura andrógina que não tem coragem de encarar-se, conclui você.

Pensando bem, não foi o Freud o teu inspirador. Isso de anima e animus não era coisa do Sigismundo, mas do outro, que, aliás, não fumava charuto, mas cachimbo, símbolo feminino, com aquela abertura destinada a levar fumo, se a senhora me permite a grosseria.

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Esta brincadeira foi publicada originalmente há muitos anos. Agora que minha filha é Mestra em Psicologia Clínica, achei que cairia bem a provocação. Até porque ela é freudiana e eu sou Carl Gustaviano.