31 agosto 2008

- Pong



Você gosta de pingue-pongue? Nunca jogou? Então vamos lá: ao fim da última estrofe há um tag, que é aquela palavra de cor diferente. Aperte o tag e abrirá um link. Boa brincadeira!


A garota com quem sonho
reside na minha rua.
Vislumbro a silhueta sua,
ela não anda: flutua,
qual bola de pingue.


Sou esse rapaz tristonho,
que ama essa rapariga,
embora jamais consiga
pedir a ela que siga
também o mesmo caminho.


Meu dia será medonho
se essa menina eu não vejo.
Ninguém sabe do desejo
que eu tenho de ter um beijo
ou dela um simples carinho.


Não me conheces, suponho,
ó misteriosa guria,
por quem sofro noite e dia,
por quem vivo em agonia.
Onde ela de mim se esconde?

24 agosto 2008

Vale a pena ler de novo (VII)

Homenagem a um gaúcho

Quem é coxo parte cedo,
frase mais do que batuta.
Um elogio te concedo:
tu és um filho da luta!
Já tem Maia no pedaço
botano sua cuié,
traz a espada de bom aço
vem tarveis com a muié.
Dança o shótis ou baião,
o amigo do nordeste?
Puxa gaita ou rabecão
gaúcho do sudoeste?
Pra saudar nossa amizade,
e abraçar a migalhada,
eu canto Mário de Andrade
com sua viola quebrada.

A. Cerviño - SP

(Migalhas 15.08.07)

20 agosto 2008

Vale a pena ler de novo (VI)

Desafio

Ontõe Gago e Zé Preá,
gente boa num repente,
se encontraro em Cabrobró
pra alegria dos presente.


Fizero um forrobodó
de botá inveja na gente.
Desafia um daqui
arremete outro de lá
e ameaça arrebentá
a cara desse sagüi.

Eis que chega um forastero
para entrá na brincadera.
Quem é ele? Mano Mero,
vindo do sul brasileiro.


No Nordeste é no repente,
lá no sul é califórnia.
Veja o senhor a esbórnia
que ele tem na sua frente.

Zé Preá puxa o punhá
Mano Meira sua espada.
Bota ela ali deitada
no terreno do quintar.


E o gaúcho vem bailando
saltita sobre a danada.
Zé Preá nu intende nada,
Ontõe Gago só mirando.

Toda lida ali termina
com gritinho e alegria,
com abraço e cantoria.
Coisa munta feminina.

Devo agora terminá
este modesto repente.
Me desculpe, Zé Preá,
se lhe fui tão renitente.


Mano Meira vem pra cá
comer churrasco co’a gente.
Ontõe Gago vai dançá
xaxado, todo contente.

A. Cerviño - SP

(Migalhas 1º. 09.06)

18 agosto 2008

Desperdício



Pinga o pote na cozinha
pinga pinga pinga pinga
pinga o pote de caninha
pinga pinga pinga pinga
pinga o pote que continha
pinga pinga pinga pinga
pinga a pinga pinga a pinga
pinga pinga pinga pinga

e pinga e pinga e pinga e pinga
pinga pinga pinga pinga
é pinga é pinga é pinga é pinga
e pinga a pinga e pinga a pinga
pinga pinga pinga e pinga
pinga pinga e pinga
pinga e pinga
pinga pinga
pinga pinga
pinga
pinga
pinga

pinga

pinga


pinga


pin

ga


pin



ga


pin





ga

17 agosto 2008

Piropo (III)

Ah se pensasses
tudo o que eu quero
e quisesses
tudo o que eu penso ...

08 agosto 2008

Causas e Efeitos


Quando o Zidane, em plena Copa de Futebol, mostrou para todo o mundo o tamanho do seu pavio, alguém se deu o trabalho de procurar traduzir o comentário que o alvejado lhe havia feito. Era coisa de mãe ou irmã. Justificava?

Tempos atrás, um dos nossos selecionados craques, quando um jornalista o acuou com perguntas atrevidas, exibiu o relógio que trazia no pulso e argumentou: pra teu governo, este relógio vale mais do que o apartamento em que tu mora. Diz-se que alguns atacantes já utilizaram de argumento semelhante para humilhar o marcador do time adversário: o que eu ganho num dia você não ganha em um ano! E depois reclamam das botinadas.

Dia desses certo jogador de futebol provocou um auê danado lá no Nordeste porque, sendo expulso injustamente de campo, foi vaiado pela torcida adversária. Ora, vaia de adversário é elogio. Pois ele, que teria feito um gesto obsceno, foi preso, algemado e literalmente expulso do estádio. Na verdade, o que ele queria, segundo diria seu advogado, se fosse eu, era mostrar ao público o dedo médio da mão direita, que, havendo sido lesionado em campo, ele não conseguia dobrar. Vejam o que me fizeram! O pobre rapaz foi mal-entendido, e o caso foi parar na delegacia de polícia, com direito a Juizado Especial e as famosas e providenciais cestas básicas como pena alternativa. O que me faz lembrar de um dentista que, havendo cometido um crimezinho qualquer, foi condenado a prestar serviços comunitários semanalmente, cuidando dos dentes de favelados por uma hora. Mas, doutor, eu já fico a tarde toda do sábado na favela fazendo isso! sussurrou-me ele. Pois de agora em diante ele deveria encarar aquilo como pena alternativa.
E não se fala mais nisso.
O trio Cláudio, Luizinho e Baltazar fez a alegria de muitos corintianos nos anos 40/50. Um desses jogadores, ao que se dizia, tinha um irmão homossexual, o que, naquela época, não era coisa tão comum como hoje. Ou, pelo menos, não era algo de que as pessoas se orgulhassem, como parece ocorrer nos dias atuais, com direito a parada de trânsito e tudo o mais. Pois alguns marcadores passavam o jogo todo sussurrando no ouvido do craque os pormenores dos encontros amorosos que teriam tido com o irmão do corintiano, inventando as histórias mais abjetas e, com isso, conseguindo, não poucas vezes, obter o descontrole emocional do craque e sua expulsão de campo. Certo jogador do São Paulo, bem mais forte do que o corintiano, certa ocasião recebeu foi uma tijolada na testa. Tudo, certamente, por causa da tal provocação.

Ironicamente, hoje é o São Paulo Futebol Clube que faz vistas grossas ao modo de andar de um de seus craques, que, segundo dizem. Bobagem. O Johnny Depp, ao ser convidado para ser o pirata do Caribe, impôs ao diretor uma condição: ele correria rebolando, com os braços dobrados e as mãos sendo agitadas no ar. Resultado: a série já vai para o quarto episódio. E ele nem bate escanteio.

Heleno de Freitas foi uma figura lendária no futebol brasileiro, com uma biografia que merece um belo filme. Pois alguém, naqueles idos e vividos tempos, resolveu compará-lo a Rita Hayworth, que, na ocasião, estrelava o filme Gilda. Nunca houve uma mulher como Gilda dizia o apelo publicitário. Nunca houve alguém como Heleno de Freitas disse um admirador do craque do Botafogo, talvez ligado ao famigerado Clube dos Cafajestes. Foi o que bastou para que a torcida adversária o apelidasse de Gilda.

Heleno apresentava claros sintomas de um crescente desequilíbrio mental, fruto, ao que parece, da sífilis. Vários incidentes são narrados em sua biografia, onde se verifica que a doença se somou à sua notória megalomania, vindo ele , por fim, a ser internado numa clínica psiquiátrica, onde morreu. Não tinha ainda atingido os 40 anos de idade. O mais famoso incidente, autêntica gota d’água, foi algo muito mais constrangedor do que a cabeçada do Zidane na Copa do mundo. Em um FlaFlu qualquer, Heleno vinha infernizando a defesa do time adversário. Era preciso contê-lo, antes que aquilo se transformasse em uma humilhante goleada. Foi quando a sempre irreverente torcida resolveu gritar em um retumbante e sonoro grito o apelido do excepcional craque. Aquilo foi elevando a pressão sangüínea do nosso Heleno de Freitas que, a certa altura, qual um Zizou sul-americano, volta-se de costas para a platéia, baixa o calção e lhes mostra seu alvo traseiro.

Dizem que o seu arrière, como então se dizia, era mais bonito do que o da Rita Hayworth.

06 agosto 2008

A experiência do rio


“A verdade é que apenas Deus pode conhecer Deus.”
(Joseph Campbell)


As religiões orientais geralmente não se atrevem a definir Deus, ao contrário do que ocorre com os ocidentais, menos cerimoniosos, menos humildes, mais atrevidos e mais racionais. Falar d’Ele diretamente nem pensar, tudo são imagens, parábolas e coisas assim, como o caso de alguém que perguntasse ao sábio que é a Lua? e tudo o que o sábio fizesse fosse estender seu dedo indicador dele sábio ali diante dos nossos olhos curiosos, que lhe vêem os pelos do sobredito dedo, seu tarso mais o metatarso, a unha e sua eventual sujidade, coberta ou não por providencial esmalte sangüíneo ou de cor outra mais atrevida, mas a Lua mesmo, nada! Que é da Lua, mestre? E o dedo continua a apontar e o sábio diz: vai e vê. E quando nós olhamos adiante do dedo que nos indica o caminho, lá está uma foice sem cabo que se vai esvaindo até ficar o nada lunar no céu de nossa indagação ignorante. Que é da Lua, mestre? Vai e vê. Mas se não vejo nada? Aguarde pacientemente, que ela lhe ressuscitará.

Primeira idéia: crer é ver a Lua que não está lá.

E olha eu agora mirando o rio ali defronte, riacho heraclitano que se atravessa a vau e onde o sol despeja aqueles ouros lá dele e nós sem saber qual a cor do rio nem o sabor do rio a não ser atravessando, com as águas batendo-nos nas magras canelas, meio e modo de conhecer Deus. Quer conhecer Deus? diz-nos o sábio, banhe-se nele. E agora que vadeaste de cá para lá, certamente pensas que conheces o rio. Conheces nada!, que as águas então vadeadas não mais estão ali, senão lá mais embaixo, cem ou duzentos metros, talvez quilômetro, sendo atravessada agora por outras pernas, talvez de nossos netos, que também pensarão que já experimentaram suficientemente Deus, tanto quanto nossos tios e avós que cruzaram o sempre rio lá perto do seu nascedouro tempo faz.

E se vadeares de lá para cá descobrirás que tuas canelas, já enriquecidas e satisfeitas da experiência anterior do rio, talvez não se abram à nova experiência que é experimentar esse novo rio, pois as águas agora são outras, não vê que aquelas antigas já lá estão longe? Sem falar que o rio não são só águas, senão que peixes muitos, dúzias e dúzias, e mais aquelas pedrinhas, mais de centena, talvez milhar, que o passar do rio, no rio e através do rio e a decorrente experiência que elas assim façam vai delas aparando as arestas do egoísmo e da irritação, da indiferença e da impaciência, e lá vão elas se casando umas com as outras, roliças de virtudes e paciência, respeitando o modo de ser uma das outras, na convivência que se supõe decorrer da harmonia grávida de virtudes.

E se pensares que a experiência humana do rio se faz apenas com as canelas, pobre de ti! Repara na apalpação das pedrinhas que teus pés fazem quando vais e quando vens. Sentes cada pedra? Sabes o tamanho de cada uma? Sua cor? Sua forma? Sabes nada! Saberás acaso quais as pedras que pisaste quando foste e quais as que estás a pisar agora que retornas na nova experiência do rio? Certamente não. E não é só com a sola dos pés e as canelas anuecidas que se experimenta o rio, senão que também com a bunda, atente para isso. Quem te garante que teus pés não escorregarão nessas idas e vindas e quando vês estás lá estatelado no meio daquele corguinho que é o rio mas não é todo o rio? E tuas nádegas lanhadas te ensinarão coisas do rio que nem o frescor da água na canela, nem o confundir-se ele com a cor da poeira dourada que o sol lhe derrama, nem o cheiro bom da água não lhe haviam ainda proporcionado a você.

E aquilo ali é rio mas não é todo o rio. É rio porque ali há água, mas não há toda a água; há peixes, mas não há todos os peixes; há pedregulhos, mas não são todos os possíveis pedregulhos que ali estão naquele trecho que tuas canelas e teu corpo todo experimentaram na vadeagem e na revadeagem, nas idas e vindas a vau que é tua pálida experiência do rio.

E como juntar todos os peixes, e toda a água, e todos os pedregulhos para que saibas como é efetivamente o rio? Como ver ao mesmo tempo o nascimento do rio, seu caminhar por leitos planos e pedregosos, ora calmos ora cascateiros, límpidas aqui sujas ali suas águas, sua espuma e sua planície, e o seu findar, quando se finda? Quanto mais subas ao espaço para buscar essa visão de pássaro, mais longe estarás do rio e tudo o que verás será sempre um pálida imagem do rio em sua inteireza. Uma fotografia, sem vida nem cheiro, quase uma caricatura. E haverá quem diga que aquilo é um rio! Que inocência!

Pensa em tuas pernas jovens e fortes a pisar firme o chão daquele solo líquido que tua experiência agora perfura, tal como já fizeste um dia outrora. Será o pisar de hoje tão forte como o foi o de ontem? Será a correnteza de hoje menos calma do que era a de ontem? E como ficarás quando o titubeio da incerteza te atrasar os passos, por não teres reparado que as pernas já não são as mesmas, e, de fato, não no são, nem as águas já não são as mesmas, como de fato também não são? És o mesmo mas não és mais o mesmo; mesmas são as águas mas as mesmas águas já não são as mesmas; repete-se a mesma experiência que já não é a mesma experiência. Tudo tão velho e conhecido, mas, também, tão novo e desconhecido ainda.

Segunda idéia: a experiência de Deus é a travessia diária, sem saber se o atrevimento do afoito ou a fragilidade das pernas não fará daquela a derradeira travessia, a travessia que não se completará. E tropeçarás, como todos um dia tropeçamos; e cairás e serás envolvido pelas águas; e talvez te levantes e retomes a caminhada, para concluir mais esta travessia.
Ou talvez não seja mais o caso de te levantares. E como os peixes e os pedregulhos, te confundirás com as águas, que te levarão e farão do destino delas o teu destino.

E o rio que agora caminha é apenas rio, embora nele estejam os peixes, os pedregulhos e estejas também ali tu, tudo indistinto. E o rio chegará ao seu fim que não será propriamente um fim, mas um despejar-se num rio muito maior, oceânico e eterno.

E agora que chegamos, onde estão os peixes? Quais as pedras que se acamaram? Que é feito do rio? Onde estás tu?

04 agosto 2008

01 agosto 2008

Trova (V)

Lágrima de quem chora
Lágrima de quem ri
Que pena eu ter ido embora
Que bom você estar aqui

30 julho 2008

28 julho 2008

O Cão e o Dono


Supõe meu dono, ao conduzir-me pela rua,
que apenas sua é a vontade que comanda.
Se eu ando, anda; paro, pára; avanço, avança.
E nessa dança prosseguimos ano a ano.

Qualquer fulano, entretanto, sabiamente,
vendo a corrente que nos liga o tempo todo
e o tenso modo que nos marca o caminhar,
há-de indagar: mas, a final, e a liberdade ?

Onde a vontade de viver, independente
dessa corrente que vos ata e vos limita
e delimita o vosso espaço e a vossa vida ?

Nessa sofrida convivência que nos pune,
o que nos une eu desconheço, isso não nego.
Sei sermos cegos, prisioneiros cão e dono.

25 julho 2008

23 julho 2008

Vale a pena ler de novo (V)




Leilão dos Bens de Abadia

“Começa às 14h desta quinta-feira o encerramento do leilão de uma lancha e de quase 70 relógios e canetas de luxo que pertenciam ao traficante colombiano Juan Carlos Abadia”.

( Dos jornais )

Pra quem tem supertição,
quarqué coisa faiz sentido.
Arguém faiz sinar da cruiz,
quano cruza com ingreja;
otro vira logo o pão,
pra que a mãe não tenha morte.
Por ridículo que seja,
o impurso é munto forte:
mermo sendo de um bandido,
uma cueca traiz a sorte.

A. Cerviño – SP

(Migalhas, 15.04.08)

21 julho 2008

Freiras & feiras


Para o Francimar, com estima

Numa quarta-feira, uma freira foi à feira, encontrar uma segunda freira, que vinha de uma quinta com uma cesta.

16 julho 2008

Il Arco Íridis

(À maneira do Juó Bananére)

Io tava no chópingue co’a Mafalda. Tudas as veisi qui o negrelo passava per noi, la mia moglia sucurava a borsa forte di incontro aos peito. I adonde nóis ia lá stava o negrelo com qüeli dui ogli negri in gopa di nui. Io nun gustava di qüelo e arresorvi domandá a uno signore, di terno azulo, sempre parlando nuno teléfono senza filo. Doveva éssere uno sicuranza. Io tchercava uno dgeto di acalmá a Mafada, mia moglia. Qüelo negrelo lá é uno suspeto. Ilo istá persegüendo noi. Io desidéro qui ilo cheja investigato, io falê ansin cum inleganza pro sicuranza, como si fossi uno filme amerigano.


U uomi mi ogliô da testa al piede i mi proguntô: Per acaso lui sape qui il preconceto di colore é crímine inafiaçábile in qüesto paese?


Má qui é preconceto? Io non hó preconceto nessuno. Compro il pane na padaraia di uno portugueise isquifozo, sensa ricordare tuto qui il Salazaro há fato nei ani 40/50, dopo di lachare il Mussolino xupano u dedo; compro mei escarpe na logia do Isaco, sensa ricordare tuto qui la parentela dilo fizero c’o nostro Jesú Cristo, qui ilo non aceta come figlio di Dio, qüelo disgraciato.


Il signore há chiamato qüelo citadino di negrelo i qüesto la nostra lege non amitte. Guarda, le dico io, guarda bene una cosa. Il Dio in cui il Isaco non crede, há criato tute le cose del mondo. Há criato il sabiá larangiera, le rose, il papagalo. Si ilo há criato tute le cose come ilas sono, é perquê ilo quiria qui ilas fosse como sano. Bene? Si io dico qui um piriguito, qüelo papagalo anô, per ricordare uno timi di cálcio qui io adimirê molto in ani passati, ma qui oggi non mereci una spernáquia, é azulo, qui qui il signore, con tuto respeto, mi dice? Dice qui io sono patso. Il piriquito é verde, verde come la foglia de tute le árvole qui il traficante di monho dirúbano nela Amazônia i qui il governo findge qui non vede. Azulo é il mare, cuano l’áqua no stá poluta con tuta qüela fece qui il pópulo dispegia nei canali aquátice e i prefeti non facen niente.


Vá via, qui io non tengo tempo per conversa fiata, dice Il signore.


Conversa fiata! Perquê fiata, si io me stô buscando li isplicá qui non sono criminale come il signore pensa qui io sono? Io falava dei colore de tute le cose criate da Jesú Cristo i qui il Isaco supone qui nascero di chocadera. Ma, io domando, qui há inventato la chocadera, qüela prima, madre de tute le madre? Fu Dio. Ilo é la chocadera qui cria, ilo medésimo, tute le chocadere.


Saímo du chópingue i entramo nel ônibo, sempre guardando si o negrelo non venia co noi. Cuano il ônibo já stava bê londgi, a Mafalda dá um bruto duno tapa nela testa.

Bastiô! Era o Bastiô. Io pensê qui o inchidente aveva laxado mia moglie patsa. Ila mixplicô. Nun ti ricorda da Dgenoveva, qüela negrona qui mi fazia la faxina, cuano io istava na guarantena? Il figlio dela era uno negrelo molto tímido, bambino cosi pícolo. I oqui sono i medésimi. Io me ricordo bene dei qüeli oqui. Per qüesto qui ilo non venia parlare co noi nel chópingue. Era di vergonza!


Vergonza! La mia vergonza ancora era piú grande qui qüela del negrelo. Ma, Dio, perquê tu non há fato tuta la genti de la medésima colore? Si il arco íridis qui é il arco íridis no tché la colore negra, perquê tu há fato dgente de tali colore?

Mentratanto, Mafalda, co la sapienza delhi moglie vivite, m’augmentato la mia vergonza: Ma dove tu há visto la colore bianca nel arco íridis, cecato?

14 julho 2008

Vale a pena ler de novo (IV)

Bronca

Tem juiz puto da vida
com o Migaias, dotô!
Foi notiça difundida,
já digo o que se passô.
Foro eles para a praia,
todos de sunga e sandaia,
dizeno assim: “não espaia,
foi os banco que pagô!”.

A. Cerviño - SP



É pro A. Cerviño, de Sampa:

Esse versinho é nortista!
Essa língua é dos meus mano,
num pode ser da Paulista
cum seu céu de arioplano!
É cordel arcoverdense,
de Aderaldo, cearense,
ou Preá, pernambucano.

Zé Preá

(Migalhas, 15.09.2006)

11 julho 2008

Sínteses (V)

Languidescência - palavra nobre pra eu não sentir vergonha desta preguiça imensa

09 julho 2008

O Que mais Conta



Não a rosa, mas o gesto
Não o tapa - a indiferença
Não a mão, senão apoio
Não o beijo, mas o afeto

Não a nau, mas a viagem
Não o sol, porém a luz
Não o teto, mas o abrigo
Não a vida, mas o amor

Não a lua, mas a calma
Não o tempo, mas o instante
Não o abraço, mas a estima
Não a morte - a eternidade

02 julho 2008

30 junho 2008

Cristo Hoje


"Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me."
Mat 19,21


Andou só por andar, como se fosse autômato;
num banco de jardim, permaneceu estático.

Pensar, já não pensava. O pensamento, errático,
voava, além de si, como de um ser sonâmbulo,
que traz atrás de si como visões oníricas.

Chorou gotas de dor tendo um sabor insípido;
co’a manga da camisa recolheu as lágrimas;
sentiu dentro de si um mal-estar famélico;
a cara transmudou-se num rostinho angélico
e foi pro barracão, pra tapear as vísceras.

Sonhou matar a fome, então, nuns seios túrgidos.
No catre remendado ele se achou um príncipe:
por manto de arminho ele vestiu a túnica,
que fora do seu pai, quando servira o exército,
morrera e lhe deixara como herança única.

Buzinas na avenida ressoaram lúgubres:
do sonho não voltou porque morrera eufórico;
no rosto inda se via um como riso cínico,
no gesto inda se via uma postura cívica.
Viveu só por viver, como se fosse autômato.

Sonhou sonhos de cor, tendo visões angélicas;
no catre remendado o pensamento errático
voava além si, pra tapear as vísceras.

Pensar já não pensava, pois morrera eufórico.
Morreu como viveu: permaneceu estático.

Num banco de jardim ele se achara um príncipe.
Passara pela vida como fosse sândalo:
aos golpes da miséria sucumbira impávido

Morreu só por morrer: como se fosse errático.

27 junho 2008

Vale a pena ler de novo (III)

Viagem

Gaúcho é bom na promessa,
mais convite mermo, nada!
Lá no Sur tem boi à beça
pra fazê uma churrascada.
O pobrema é o avião:
quem garante que ele avoa?
Eu vou mermo é polo chão,
levando minha patroa.
Saio daqui na segunda
chego lá na sexta-fêra.
A questão é minha bunda
que não agüenta cansera.
Isso é coisa que não ligo:
paulista tem resistênça,
se for pra encontrar um amigo
cometo essa imprudênça.

A. Cerviño - SP

(Migalhas 10.08.07)

24 junho 2008

Ó poeta enganador


“Tenho do amor profundo e do uso proveitoso dele
um conceito superficial e decorativo.”
(Do Livro do Desassossego de Bernardo Soares)

Esse poeta é impostor,
com que cinismo nos mente
a fazer versos de amor,
coisa que ele não sente.

Ó poeta enganador,
com teu semblante tão triste,
como podes falar de amor
se isso jamais sentiste?

Se máquina tens no peito
- comboio fora do trilho –
teu caso não tem mais jeito,
por mais que esbanjes teu brilho.

Ó guardador de cordeiro,
ó meu prezado Fernando,
disse o vate brasileiro
que amar se aprende é amando.

23 junho 2008

Hvordan har du det?


(Terceira parte)

Como pude verificar mais tarde, o sanduíche é uma instituição nacional. No ônibus, no bonde, no metrô, no barco, na rua, na ante-sala dos cinemas, no páteo da universidade, nos jardins é comum eles abrirem sua skulder veske (uma bolsa que carregam nas costas, outra instituição nacional, que os transforma numa espécie de marsupiais, e que, além do lado prático, talvez explique a inexistência de senhoras nem senhores corcundas, já que a espinha, na infância e na juventude, vai-se cristalizando em linha reta) e dali retirarem as coisas mais inimagináveis, em especial um embrulho contendo o matpakke, um sanduíche que pode ter os mais variados recheios, em especial o delicioso camarão local cozido.
Os restaurantes, claro, fazem concessão ao turista e lhes exibem as refeições completas a qualquer hora do dia. Em especial as universais pizzas, que os jovens compram por fatia e saem comendo pela rua, sem a menor preocupação.
Nos restaurantes quase não se come carne vermelha, cujos preços são proibitivos. Além da carne de alce, há carne bovina, importada adivinha de que país? O café vem da Colômbia, a banana vem da África mas a carne bovina vem do Brasil. Em compensação, há mil tipos de pão, nenhum deles o pão fresco, que tanto me empanturra o estômago e foi proibido por meu médico. Ponto para eles.
E há os doces. E os queijos, que, certamente, serão minha perdição. Adeus regime!
Finda a refeição, servem-me um café. Em lugar do corto, como se bebe na Itália, eles o tomam em uma caneca que mais seria apropriada a uma chocolatada quente. E a economia de pó é visível até na cor da bebida, cujo sabor lembra, remotamente, um chá de rubiácea.
No parque, lá estavam algumas vovozinhas saboreando seu matpakke. O que, mais que depressa, fiz registrar ad perpetuam rei memoriam, tanto quanto as mais de duzentas esculturas do meu colega Vigeland.
Paga a conta, circulamos pelo belo parque, onde o famoso foetus não poderia deixar de ser registrado. Não conheço outro artista que tivesse tido a idéia de registrar esse momento de nossa vida. Depois de uma boa caminhada, seguimos para o hotel, onde as pessoas sempre me recebem com um sorriso que me faz sentir um marajá. Estão todos certos de minha generosidade na hora da gorjeta, por certo. Ele mais uma vez me corrige: Essa cordialidade você vai encontrar em todo lugar aqui, mesmo por parte de pessoas desconhecidas. Mais tarde conferi que, nos ônibus, o motorista não tem a menor dúvida em abrir um mapa para indicar a um passageiro onde fica o lugar procurado, por onde não passa aquele veículo, que o passageiro havia tomado por engano.
A belíssima atendente do hotel me pergunta se quero aproveitar o sol da tarde para um banho na piscina. Aquecida e coberta?, indago ingenuamente. A moça positivamente jamais ouvira tal pergunta. E meu guia me informa que, com tal temperatura (eu estava vestindo casaco) é comum os noruegueses nadarem no mar. Aquele sol de fim de verão é coisa rara por aqui e é preciso aproveitá-lo. Rejeito delicadamente o convite, despeço-me de meu guia e sigo para o quarto, para um merecido repouso, que os dias próximos serão de muito trabalho, pois tenho de estudar a programação do congresso.
Antes de fechar a porta, porém, acho adequado fazer-lhe uns esclarecimentos. Não pretendo ser um desses turistas deslumbrados, como há muitos. Os melhores restaurantes, os hotéis mais confortáveis, os recantos mais visitáveis. Tudo isso também me atrai, é claro. Gosto de conhecer locais bonitos, de comer calmamente e, se possível em boa companhia, uma boa refeição, tomando uma boa bebida, e também prefiro hospedar-me num hotel de qualidade, em lugar de ficar numa espelunca. Ser turista não quer dizer ser perdulário, mas também não pode significar viver miseravelmente, assim penso eu. A sempre oportuna virtus in medio cai bem nesse momento. Got it?
Entretanto, minhas observações sobre a Noruega não serão, certamente, as de um simples turista. Espero que sejam mais amplas, com um toque pessoal que eu não poderei evitar. Talvez até vire um livro. Ou vários, diz ele. Veremos.
À medida que for me aclimatando no país, começarei a fazer alguns amigos noruegueses, a quem, certamente farei observações que lhes causarão espanto. Sobre o narizinho das moças, por exemplo. Já viram nariz mais bonito do que o das norueguesas? indagarei. Não, eles nunca repararam nisso. Convivendo com elas no dia-a-dia, eles certamente não percebem a graça daquele nariz arrebitado, porque, ilhados em seu país, não têm parâmetro para comparar. Sugerir-lhes-ei, então, que visitem o museu Kon Tiki e comparem o nariz delas com aquele das estátuas de pedra que lá estão, trazidas da Ilha de Páscoa pelo extraordinário navegador Thor Heyerdahl. E se darão conta da beleza das moças nativas. Aliás, Kon Tiki era o nome de uma balsa construída como uma cópia de um barco pré-histórico. Feita com nove troncos de madeira leve e uma tripulação de apenas seis pessoas, partiu em 28 de abril de 1947 de Callao, no Peru, chegando à Polinésia depois de 100 dias. Tudo está devidamente documentado e exibido naquele museu.
E assim ficou a idéia de que um estrangeiro poderia registrar sua opinião sobre pessoas, coisas e costumes locais, enquanto aguardo o tal congresso de escritores.
Não me move o propósito de fazer um simples registro, digo-lhe desde já. Como dizia o Fernando Pessoa, por um de seus heterônomos, o poeta (e todo artista) é um fingidor, que finge tão completamente que até finge que é amor o amor que deveras sente. Ou seja, o leitor, o apreciador de qualquer obra de arte, não saberá jamais onde está a reprodução da realidade e onde está a contribuição pessoal do artista.
Atrevo-me a dizer que todo artista é um inconformado com a obra do Criador. O que Deus fez foi muito pouco. É preciso acrescentar algo a ela. Pendurar um quadro numa parede de uma casa ou plantar uma escultura numa praça pública não é isso? Com o escritor acontece o mesmo. Até onde o historiador é alguém neutro nas descrições que faz? Um ponto de vista é sempre uma visão a partir de um ponto. E esse ponto é o olhar de quem vê. Ao escrever, utilizo-me da realidade, acrescentando-lhe, porém, algo que me parece cabível. Ou crio eu mesmo essa realidade, que, pelo fato de existir apenas na imaginação do autor, não deixa de ser realidade.
Ou você acreditou que alguém iria me convidar para um congresso de escritores?
( Fim )