28 outubro 2008

Mini conto

- E tua noiva, como está?
- Partiu desta pra melhor.
- Meus pêsames, cara. Meus pêsames. E quando foi que ela morreu?
- Morreu? Quem falou em morte? Lembra-se daquela mania que ela tinha de cheirar perfume? Coisa mais desagradável! Pra mim aquilo era TOC. E me arrastava para as lojas do shopping, abrindo e fechando vidros e mais vidros de perfume, que levava ao nariz. Ao meu nariz! “Sinta esse leve cheiro de alfazema”. Eu nem sei se alfazema é animal, vegetal ou mineral; se é sólido, líquido ou gasoso, mas atendia aos rogos dela. Ou ordens dela. Tudo pelo nosso futuro casamento.
- Fugiu com o dono da loja?
- Quase. Participou de um concurso internacional de provadores de perfume e foi aprovada para trabalhar na Christian Dior, em Paris.
- Mas você disse que ela passou desta pra melhor?
- E você acha São Paulo uma cidade melhor do que Paris?



19 outubro 2008

12 outubro 2008

Heil, Heinzs


“Nós sempre teremos Paris”
Palavras de Rick (Humphrey Bogart) ao despedir-se de Ilsa (Ingrid Bergman) no final de Casablanca


Quando as tropas germânicas invadiram a bela cidade de Paris, Josephine Baker dançava em um cabaré de quinta categoria, se houvesse alguns outros cabarés para que se pudesse fazer a comparação. Cantava e exibia os dotes que a natureza lhe dera: dois belíssimos dentes caninos, que brilhavam quando a luz do refletor incidia sobre eles. Dois marfins que faziam a loucura de quantos puderam ouvi-la cantar Lili Marlene. “Vor der Kaserne/ Vor dem großen Tor/ Stand eine Laterne/ Und steht sie noch davor/ So wolln wir uns da wiederseh'n,/ Bei der Laterne/ Wolln wir steh'n,/ Wie einst, Lili Marleen/ Wie einst, Lili Marleen.” Wunderbar!

Em uma mesinha de canto, um militar francês traça planos de fuga, entre um gole e outro de uma bebida, que a luz difusa não permitia saber se seria uísque ou chá. Fosse inglês o general, dúvidas não poderia haver: ou era uísque ou era chá. A menos que não se chamasse Winston, que nem sei se já era general. Ou se algum dia foi general. Entre um gole e outro da misteriosa bebida, o francês dirigia-se ao ouvido de sua colega de conspiração, uma espiã disfarçada (ou que motivos teria ela para usar aquela saia curtinha e aquele decote enorme?), que ora lhe dizia que sim, ora lhe dizia que não, como era fácil decifrar da inevitável leitura de seus lábios sensuais. Ou de seus movimento de cabeça.

As tropas alemãs passavam sob o Arco do Triunfo e o capitão Heinzs Zumpfill entendeu que era hora de, como direi?, despejar algum volume do líquido que lhe intumescia o abdômen, contido dentro de uma farda que havia sido feita para alguém bem menos obeso do que ele. Hora de mijar, enfim, como disse ele à tropa.

O grande problema era que sua tropa era composta por soldados novatos, que só agora haviam enfrentado sua primeira Grande Guerra. Jovens nazistas ou meros simpatizantes que, como num jogo de futebol, torcem para o time que está ganhando. E nós estávamos ganhando. Perguntem ao Ratzinger, que servia conosco na ocasião. Eles estavam de tal forma adestrados (passe o termo!) para a luta e para seguir sempre em frente que seus ouvidos simplesmente se recusaram a ouvir o que lhes estava sendo ordenado pelo comandante. Eles ouviram apenas o que desejavam ouvir. Como, aliás, ocorre conosco todos os dias. Halt? Nem pensar.

Assim, logo após a ordem, o capitão galopou para o local mais próximo, que outro não era do que a biboca onde a Baker trinava seus gorjeios e mostrava seus belos caninos dizendo que sob a luz da lanterna, perto da entrada da barraca, era ali que você me esperava, querida Lili Marlene, querida Lili Marlene, reiterava ela, se não me falha a memória.

E os soldados? indagar-me-eis. Estes continuaram em frente e posaram para os fotógrafos e cinegrafistas que documentavam aquele solene momento de desagravo. Lembra-se da I Guerra Mundial? Pois é. Humilharam-nos tanto, pois agora não se queixem.
Lá vão eles marchando, imponentes, em seus corcéis brancos, como deuses wagnerianos, baixados à Terra para purificá-la. Só cavalos arianos. Nada de cavalos negros. Nem ciganos. Alguns animais que traziam a testa estrelada foram deixados na fronteira, por motivos que desconheço.

Pois lá estava o capitão saindo do reservado local onde acabara de desaguar-se, com o quepe sob o braço esquerdo, tentando, com as duas mãos, fechar a braguilha da calça. Quando inventarão o zíper? Ou o velcro? indaga-se ele. Aliviado, nosso homem senta-se num canto do cabaré, com os olhos já se acostumando àquela semi-escuridão. Vê os dois caninos que brilham e deixam de brilhar, à medida que Josephine abre e fecha a boca. Maravilhado, ele não percebe que foi visto pelo militar francês. Este ergue o copo de chá, ou uísque, displicentemente, e aponta com ele à sua companheira o recém-chegado.

A voz estridente da cantora impede que ouçamos exatamente o que o casal conversa. Mas o gesto dele, passando o dedo indicador da mão direita no pescoço, denuncia que ele está tramando degolar o capitão alemão. Ou tentando tirar a gravata que o incomoda. Agora que bateu um facho de luz naquele canto dá para perceber que ele, de fato, tirou a gravata. Continua, porém, a gesticular. Não dá para perceber exatamente o que sua gesticulação significa porque a orquestra, na verdade uns três ou quatro músicos que lidam com seus instrumentos com o mesmo entusiasmo de um ascensorista depois de cinco horas de trabalho, agora atacam um acorde que desperta a ira de um dos presentes, que dormia com o rosto despejado sobre a mesa, se me permite a necessária força de expressão, que certamente lhe passou despercebida, se é que te conheço bem. Vê se presta mais atenção ao que lê, rapaz!

Viemos a saber mais tarde que se tratava de um maestro. Como não conhecíamos a sua identidade, estranhamos quando ele puxou de baixo da mesa um longo estilete e se dirigiu à orquestra, na verdade uns três ou quatro músicos que etc. Os músicos param de tocar, esperando para saber qual deles será estocado pelo cabeludo que subiu ao palco. Ele levanta o braço e, antes que possa comandar a orquestra, na verdade etc., com sua batuta, recebe um tiro certeiro na nuca.

Mama mia!, exclama o maestro enquanto cai para a frente. Os músicos, despertados de seu pasmo, voltam a movimentar-se, tocando uma alegre mazurca da moda. Josephine, que já está sentada na perna esquerda do capitão, tenta soletrar alguma coisa em alemão. Ele não entende. Quelle merde de terre c’est la vôtre? grita ela, provocativamente, pensando que ele fala francês. O militar alemão concorda com a cabeça várias vezes, pedindo-lhe que cante a música que ela lhe havia anunciado, quelque chose sur la vie. Enquanto ele procura o sapato, que ficara sob a mesa, ela se levanta e começa a dizer alguma coisa que ninguém ali entende. Sua voz eleva-se cada vez mais. A orquestra, na verdade etc., aumenta o som. O militar francês levanta-se e começa a dançar com a espiã. Forma-se uma barafunda dos diabos e o capitão não entende mais nada. Mas ele está de pé sobre a mesa de canto, descalço, apenas de cuecas e bate palmas ritmadamente.
Longe, muito longe, jovens loiros continuam a avançar, montados em seus belos cavalos arianos, rumo ao futuro da Humanidade, sem saber que a guerra, qualquer guerra, vale bem menos do que um copo de chope.


10 outubro 2008

Piropo (VII)


Penso em ti a todo o momento,
não sabes quanto te quero;
mesmo nas tardes sem vento
no meu veleiro eu te espero.

01 outubro 2008

24 setembro 2008

Baú de Ossos



“Nos dias atuais a educação está muito precoce.”
“O desenvolvimento trás grandes lados positivos e negativos para o meio ambiente.”
“Isso tudo é devido ao raios ultra-violentos.”
“Existem dois tipos de animais: os que vivem em cativeiro e os que não vivem. Ultimamente, surgiram um terceiro tipo que corresponde aqueles os que são presos pela polícia federal. Todos os fiscais são subordinados. É a propina.”


(ENEM 2007, segundo dizem)


Quando nasceu o memorialista Mário Nava, um anjo torto entrou na maternidade, sentou-se ao lado do berço e exclamou a frase célebre: “Vai, Mário, ser gaúcho na vida!” Ele era muito triste e a família resolveu, por isso, mudar-se para Alegrete, onde ele ficou conhecido como o Mário da Quitanda. Dizem que na hora do embarque ele, ainda criança, teria dito: "Parto alegre!” Outros dizem que a frase foi outra: “Parto sem dor!”


Eu poderia também falar do Alberto Calheiros, autor de O Guardador de Camelos, e que se notabilizou pela frase: “Eu não sou mais o mesmo Pessoa”. Alguns supõem fosse ele homo, mas, na realidade ele era hétero. Heterônomo, segundo o Fernando, seu biógrafo. Tanto quanto o Bernardo Soares, homem extremamente desassossegado.


O fato é que, depois que o Raul Gil, ex-esposo de Flora, a virgem dos lábios de mel, assumiu ministério, tudo o que aprendemos é que ele prefere novelas e xaxados. Cultura? Nem pensar. Quem te viu e quem TV!


E tem também o Sal Amargo, homem dado a cegueiras, imortalidades e jeux de mots. Numa jangada de pedras lá vai ele da Ilha da Madeira para as Ilhas Canárias, apenas para que seus conterrâneos digam que fez uma troca d’ilhas.


Essas confusões entre nomes de autores e nomes de personagens só faz agravar-se com o tempo. É o que me dizem pessoas mais velhas, das quais não tenho motivos para duvidar. O Pierre Bayard, que, mesmo não pertencendo ao Ministério do governo brasileiro, acumula as inacumuláveis atividades de psicanalista e professor de literatura na Universidade de Paris, além de escrever romances policiais, acaba de brindar-nos com um interessante e sério livro intitulado Comment parler des livres que l’on n’a pas lus?, que, em português, recebeu, como não poderia deixar de receber, o título Como falar dos livros que não lemos? É um livro que eu não li, mas achei ótimo.


Pois todos nós temos, segundo o Bayard, isso de discorrermos com autoridade sobre coisas de que mal ouvimos falar, livros em especial. Você acha que alguém tem tempo e paciência para ler os não sei quantos volumes do monumental Em Busca não sei de quê, escrito pelo Marcel acho que Proust, é esse o nome do autor? No entanto, todos nós sabemos que aqueles brioches se chamavam madeleines e é graças a eles que o autor viaja ao passado. Como dizia ele, Não há pão? Pois que comam madeleines! É ou não é?


Quando o livro vira filme, como está a ocorrer com o autor português que mora em Lanzarote, isso lá é nome de cidade, pá? a coisa então é de chorar. O livro mais célebre do Joseph Conrad, por exemplo, passa-se na selva africana. Nele “há um homem que é quase um mito, pois sozinho consegue vender mais marfim do que todos os outros juntos, e que chefia o posto mais distante, mais embrenhado no coração das trevas que são aquela selva. Esse homem é Kurtz, uma figura misteriosa de quem se fala praticamente ao longo de todo o livro, mas que só nos é apresentado perto do fim, criando também em nós, leitores, a ansiedade pelo encontro, o fascínio pela personagem” diz uma resenha do livro divulgada na Internet. Acontece que no filme Apocalypse Now, baseado no tal livro, o Ford Coppola narra a história do capitão Willard, papel do Martin Sheen, que recebe a missão de matar um insano desertor, o coronel Kurtz, papel do Marlon Brando, porque este preparara uma tropa de vietnamitas para matar os norte-americanos. Transpor a história do Congo Belga para o Vietnã e transformar o traficante Kurtz no coronel maluco foi o mínimo. Em primeiro lugar, quem não é maluco no filme e na equipe de filmagem? Um tufão acabou com o cenário, que teve de ser refeito, e o Martin Sheen por pouco não morreu por causa de um infarto, coisas de que o Conrad não tomou conhecimento, até porque o filme foi feito mais de 50 anos depois de sua morte. Se você tentar comentar o livro a partir do filme do Coppola, entra na lista do Bayard.


Antes de concluir: já que você teve paciência de aturar-me até aqui, certamente descobriu que isto é um teste de auto-conhecimento, também chamado “jogo dos nove erros”. Ou dezenove, dependendo do enfoque que se lhe dê. Graças a este teste você descobrirá o quanto não sabe de literatura. Nada mau para quem vive dizendo que é socrático, referindo-se ao homem que dizia a seus alunos, chamados por ele de patetas, que tudo o que sabia era que não sabia nada.
A brincadeira que proponho consiste justamente em você reescrever a crônica, que lembra o “Samba do Crioulo Loiro”, do Estanislau Ponte Porto, que, aliás, entendia um bocado de jazz, tanto que se apresentou no “O Céu é o Limite”, lá vão alguns lustros, e ganhou um bom dinheiro, que repartiu com sua Tia Zulmira.


Mas, é claro, reescrevê-la corrigindo o que deve ser corrigido.

E nem me venhas pôr a culpa no Exame Nacional do Ensino Médio.

21 setembro 2008

Ave


Maria vê a ave
marinha.
Mariinha
ia ao mar
e vinha.

E vê
a ave
marinha.

Vê a ave, Maria.
E a ave
vê Mariinha.

A ave vê Maria.

17 setembro 2008

Vale a pena ler de novo (VIII)


Vida severina


Ontõe Gago eu não conheço,

mas uma coisa eu lhe digo:

Guimarães Rosa, assim penso,

se encantaria contigo.


Nome assim de cangaceiro,

se me permite o reparo,

brigador e arruaceiro.

Tô sendo injusto, meu caro?


O gaúcho Mano Meira

mais Zé Preá, nordestino,

falam de moça e rameira

e de home bem feminino.


Sei que tudo é brincadeira,

mas com isso não me afino.

Penso em João Guimarães Rosa,

diplomata e escrevente,

homem muito competente,

cabra bom pra contar prosa,

sabia tudo de gente!


Inventou um Manuelzão,

Riobaldo e Miguilin,

nas veredas e sertão

daquelas terras sem fim.

Mas ele não criou não

alguém com um nome assim.


Se ele ainda vivo fosse

- esta aposta eu faço e pago

com rapadura e pão doce -

esta certeza eu lhe trago

dentre os nomes que ele trouxe

- pena que se finou-se -

punha esse: Ontõe Gago!"

A. Cerviño - SP

(Migalhas 31.08.06)

10 setembro 2008

07 setembro 2008

Que queres?

Que queres tu de mim?
Dize-me lá.
Já te esbofeteei,
chutei-te o traseiro vezes sem conta,
atirei-te ao solo,
espanquei-te a mais não poder.
Doem-me os pulsos,
doem-me as costas
e – por que não dizê-lo? –
doem-me os pés.


Peço-te,
encarecidamente peço-te
que mais não me peças.
Ao menos por hoje,
que é dia santificado.


Finjamos,
por umas poucas horas,
que somos um casal normal,
ainda que poucos saibam
o que é ser normal.
Amanhã ou depois,
- quem sabe? -
talvez recomecemos.
Mas, confesso-te, minha querida:
teu masoquismo está a exaurir-me.

03 setembro 2008

Trova (V)

Fazer verso em ti pensando
coisa mais fácil não há:
abro o peito e vou mostrando
tudo o que existe por lá.

31 agosto 2008

- Pong



Você gosta de pingue-pongue? Nunca jogou? Então vamos lá: ao fim da última estrofe há um tag, que é aquela palavra de cor diferente. Aperte o tag e abrirá um link. Boa brincadeira!


A garota com quem sonho
reside na minha rua.
Vislumbro a silhueta sua,
ela não anda: flutua,
qual bola de pingue.


Sou esse rapaz tristonho,
que ama essa rapariga,
embora jamais consiga
pedir a ela que siga
também o mesmo caminho.


Meu dia será medonho
se essa menina eu não vejo.
Ninguém sabe do desejo
que eu tenho de ter um beijo
ou dela um simples carinho.


Não me conheces, suponho,
ó misteriosa guria,
por quem sofro noite e dia,
por quem vivo em agonia.
Onde ela de mim se esconde?

24 agosto 2008

Vale a pena ler de novo (VII)

Homenagem a um gaúcho

Quem é coxo parte cedo,
frase mais do que batuta.
Um elogio te concedo:
tu és um filho da luta!
Já tem Maia no pedaço
botano sua cuié,
traz a espada de bom aço
vem tarveis com a muié.
Dança o shótis ou baião,
o amigo do nordeste?
Puxa gaita ou rabecão
gaúcho do sudoeste?
Pra saudar nossa amizade,
e abraçar a migalhada,
eu canto Mário de Andrade
com sua viola quebrada.

A. Cerviño - SP

(Migalhas 15.08.07)

20 agosto 2008

Vale a pena ler de novo (VI)

Desafio

Ontõe Gago e Zé Preá,
gente boa num repente,
se encontraro em Cabrobró
pra alegria dos presente.


Fizero um forrobodó
de botá inveja na gente.
Desafia um daqui
arremete outro de lá
e ameaça arrebentá
a cara desse sagüi.

Eis que chega um forastero
para entrá na brincadera.
Quem é ele? Mano Mero,
vindo do sul brasileiro.


No Nordeste é no repente,
lá no sul é califórnia.
Veja o senhor a esbórnia
que ele tem na sua frente.

Zé Preá puxa o punhá
Mano Meira sua espada.
Bota ela ali deitada
no terreno do quintar.


E o gaúcho vem bailando
saltita sobre a danada.
Zé Preá nu intende nada,
Ontõe Gago só mirando.

Toda lida ali termina
com gritinho e alegria,
com abraço e cantoria.
Coisa munta feminina.

Devo agora terminá
este modesto repente.
Me desculpe, Zé Preá,
se lhe fui tão renitente.


Mano Meira vem pra cá
comer churrasco co’a gente.
Ontõe Gago vai dançá
xaxado, todo contente.

A. Cerviño - SP

(Migalhas 1º. 09.06)

18 agosto 2008

Desperdício



Pinga o pote na cozinha
pinga pinga pinga pinga
pinga o pote de caninha
pinga pinga pinga pinga
pinga o pote que continha
pinga pinga pinga pinga
pinga a pinga pinga a pinga
pinga pinga pinga pinga

e pinga e pinga e pinga e pinga
pinga pinga pinga pinga
é pinga é pinga é pinga é pinga
e pinga a pinga e pinga a pinga
pinga pinga pinga e pinga
pinga pinga e pinga
pinga e pinga
pinga pinga
pinga pinga
pinga
pinga
pinga

pinga

pinga


pinga


pin

ga


pin



ga


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17 agosto 2008

Piropo (III)

Ah se pensasses
tudo o que eu quero
e quisesses
tudo o que eu penso ...

08 agosto 2008

Causas e Efeitos


Quando o Zidane, em plena Copa de Futebol, mostrou para todo o mundo o tamanho do seu pavio, alguém se deu o trabalho de procurar traduzir o comentário que o alvejado lhe havia feito. Era coisa de mãe ou irmã. Justificava?

Tempos atrás, um dos nossos selecionados craques, quando um jornalista o acuou com perguntas atrevidas, exibiu o relógio que trazia no pulso e argumentou: pra teu governo, este relógio vale mais do que o apartamento em que tu mora. Diz-se que alguns atacantes já utilizaram de argumento semelhante para humilhar o marcador do time adversário: o que eu ganho num dia você não ganha em um ano! E depois reclamam das botinadas.

Dia desses certo jogador de futebol provocou um auê danado lá no Nordeste porque, sendo expulso injustamente de campo, foi vaiado pela torcida adversária. Ora, vaia de adversário é elogio. Pois ele, que teria feito um gesto obsceno, foi preso, algemado e literalmente expulso do estádio. Na verdade, o que ele queria, segundo diria seu advogado, se fosse eu, era mostrar ao público o dedo médio da mão direita, que, havendo sido lesionado em campo, ele não conseguia dobrar. Vejam o que me fizeram! O pobre rapaz foi mal-entendido, e o caso foi parar na delegacia de polícia, com direito a Juizado Especial e as famosas e providenciais cestas básicas como pena alternativa. O que me faz lembrar de um dentista que, havendo cometido um crimezinho qualquer, foi condenado a prestar serviços comunitários semanalmente, cuidando dos dentes de favelados por uma hora. Mas, doutor, eu já fico a tarde toda do sábado na favela fazendo isso! sussurrou-me ele. Pois de agora em diante ele deveria encarar aquilo como pena alternativa.
E não se fala mais nisso.
O trio Cláudio, Luizinho e Baltazar fez a alegria de muitos corintianos nos anos 40/50. Um desses jogadores, ao que se dizia, tinha um irmão homossexual, o que, naquela época, não era coisa tão comum como hoje. Ou, pelo menos, não era algo de que as pessoas se orgulhassem, como parece ocorrer nos dias atuais, com direito a parada de trânsito e tudo o mais. Pois alguns marcadores passavam o jogo todo sussurrando no ouvido do craque os pormenores dos encontros amorosos que teriam tido com o irmão do corintiano, inventando as histórias mais abjetas e, com isso, conseguindo, não poucas vezes, obter o descontrole emocional do craque e sua expulsão de campo. Certo jogador do São Paulo, bem mais forte do que o corintiano, certa ocasião recebeu foi uma tijolada na testa. Tudo, certamente, por causa da tal provocação.

Ironicamente, hoje é o São Paulo Futebol Clube que faz vistas grossas ao modo de andar de um de seus craques, que, segundo dizem. Bobagem. O Johnny Depp, ao ser convidado para ser o pirata do Caribe, impôs ao diretor uma condição: ele correria rebolando, com os braços dobrados e as mãos sendo agitadas no ar. Resultado: a série já vai para o quarto episódio. E ele nem bate escanteio.

Heleno de Freitas foi uma figura lendária no futebol brasileiro, com uma biografia que merece um belo filme. Pois alguém, naqueles idos e vividos tempos, resolveu compará-lo a Rita Hayworth, que, na ocasião, estrelava o filme Gilda. Nunca houve uma mulher como Gilda dizia o apelo publicitário. Nunca houve alguém como Heleno de Freitas disse um admirador do craque do Botafogo, talvez ligado ao famigerado Clube dos Cafajestes. Foi o que bastou para que a torcida adversária o apelidasse de Gilda.

Heleno apresentava claros sintomas de um crescente desequilíbrio mental, fruto, ao que parece, da sífilis. Vários incidentes são narrados em sua biografia, onde se verifica que a doença se somou à sua notória megalomania, vindo ele , por fim, a ser internado numa clínica psiquiátrica, onde morreu. Não tinha ainda atingido os 40 anos de idade. O mais famoso incidente, autêntica gota d’água, foi algo muito mais constrangedor do que a cabeçada do Zidane na Copa do mundo. Em um FlaFlu qualquer, Heleno vinha infernizando a defesa do time adversário. Era preciso contê-lo, antes que aquilo se transformasse em uma humilhante goleada. Foi quando a sempre irreverente torcida resolveu gritar em um retumbante e sonoro grito o apelido do excepcional craque. Aquilo foi elevando a pressão sangüínea do nosso Heleno de Freitas que, a certa altura, qual um Zizou sul-americano, volta-se de costas para a platéia, baixa o calção e lhes mostra seu alvo traseiro.

Dizem que o seu arrière, como então se dizia, era mais bonito do que o da Rita Hayworth.

06 agosto 2008

A experiência do rio


“A verdade é que apenas Deus pode conhecer Deus.”
(Joseph Campbell)


As religiões orientais geralmente não se atrevem a definir Deus, ao contrário do que ocorre com os ocidentais, menos cerimoniosos, menos humildes, mais atrevidos e mais racionais. Falar d’Ele diretamente nem pensar, tudo são imagens, parábolas e coisas assim, como o caso de alguém que perguntasse ao sábio que é a Lua? e tudo o que o sábio fizesse fosse estender seu dedo indicador dele sábio ali diante dos nossos olhos curiosos, que lhe vêem os pelos do sobredito dedo, seu tarso mais o metatarso, a unha e sua eventual sujidade, coberta ou não por providencial esmalte sangüíneo ou de cor outra mais atrevida, mas a Lua mesmo, nada! Que é da Lua, mestre? E o dedo continua a apontar e o sábio diz: vai e vê. E quando nós olhamos adiante do dedo que nos indica o caminho, lá está uma foice sem cabo que se vai esvaindo até ficar o nada lunar no céu de nossa indagação ignorante. Que é da Lua, mestre? Vai e vê. Mas se não vejo nada? Aguarde pacientemente, que ela lhe ressuscitará.

Primeira idéia: crer é ver a Lua que não está lá.

E olha eu agora mirando o rio ali defronte, riacho heraclitano que se atravessa a vau e onde o sol despeja aqueles ouros lá dele e nós sem saber qual a cor do rio nem o sabor do rio a não ser atravessando, com as águas batendo-nos nas magras canelas, meio e modo de conhecer Deus. Quer conhecer Deus? diz-nos o sábio, banhe-se nele. E agora que vadeaste de cá para lá, certamente pensas que conheces o rio. Conheces nada!, que as águas então vadeadas não mais estão ali, senão lá mais embaixo, cem ou duzentos metros, talvez quilômetro, sendo atravessada agora por outras pernas, talvez de nossos netos, que também pensarão que já experimentaram suficientemente Deus, tanto quanto nossos tios e avós que cruzaram o sempre rio lá perto do seu nascedouro tempo faz.

E se vadeares de lá para cá descobrirás que tuas canelas, já enriquecidas e satisfeitas da experiência anterior do rio, talvez não se abram à nova experiência que é experimentar esse novo rio, pois as águas agora são outras, não vê que aquelas antigas já lá estão longe? Sem falar que o rio não são só águas, senão que peixes muitos, dúzias e dúzias, e mais aquelas pedrinhas, mais de centena, talvez milhar, que o passar do rio, no rio e através do rio e a decorrente experiência que elas assim façam vai delas aparando as arestas do egoísmo e da irritação, da indiferença e da impaciência, e lá vão elas se casando umas com as outras, roliças de virtudes e paciência, respeitando o modo de ser uma das outras, na convivência que se supõe decorrer da harmonia grávida de virtudes.

E se pensares que a experiência humana do rio se faz apenas com as canelas, pobre de ti! Repara na apalpação das pedrinhas que teus pés fazem quando vais e quando vens. Sentes cada pedra? Sabes o tamanho de cada uma? Sua cor? Sua forma? Sabes nada! Saberás acaso quais as pedras que pisaste quando foste e quais as que estás a pisar agora que retornas na nova experiência do rio? Certamente não. E não é só com a sola dos pés e as canelas anuecidas que se experimenta o rio, senão que também com a bunda, atente para isso. Quem te garante que teus pés não escorregarão nessas idas e vindas e quando vês estás lá estatelado no meio daquele corguinho que é o rio mas não é todo o rio? E tuas nádegas lanhadas te ensinarão coisas do rio que nem o frescor da água na canela, nem o confundir-se ele com a cor da poeira dourada que o sol lhe derrama, nem o cheiro bom da água não lhe haviam ainda proporcionado a você.

E aquilo ali é rio mas não é todo o rio. É rio porque ali há água, mas não há toda a água; há peixes, mas não há todos os peixes; há pedregulhos, mas não são todos os possíveis pedregulhos que ali estão naquele trecho que tuas canelas e teu corpo todo experimentaram na vadeagem e na revadeagem, nas idas e vindas a vau que é tua pálida experiência do rio.

E como juntar todos os peixes, e toda a água, e todos os pedregulhos para que saibas como é efetivamente o rio? Como ver ao mesmo tempo o nascimento do rio, seu caminhar por leitos planos e pedregosos, ora calmos ora cascateiros, límpidas aqui sujas ali suas águas, sua espuma e sua planície, e o seu findar, quando se finda? Quanto mais subas ao espaço para buscar essa visão de pássaro, mais longe estarás do rio e tudo o que verás será sempre um pálida imagem do rio em sua inteireza. Uma fotografia, sem vida nem cheiro, quase uma caricatura. E haverá quem diga que aquilo é um rio! Que inocência!

Pensa em tuas pernas jovens e fortes a pisar firme o chão daquele solo líquido que tua experiência agora perfura, tal como já fizeste um dia outrora. Será o pisar de hoje tão forte como o foi o de ontem? Será a correnteza de hoje menos calma do que era a de ontem? E como ficarás quando o titubeio da incerteza te atrasar os passos, por não teres reparado que as pernas já não são as mesmas, e, de fato, não no são, nem as águas já não são as mesmas, como de fato também não são? És o mesmo mas não és mais o mesmo; mesmas são as águas mas as mesmas águas já não são as mesmas; repete-se a mesma experiência que já não é a mesma experiência. Tudo tão velho e conhecido, mas, também, tão novo e desconhecido ainda.

Segunda idéia: a experiência de Deus é a travessia diária, sem saber se o atrevimento do afoito ou a fragilidade das pernas não fará daquela a derradeira travessia, a travessia que não se completará. E tropeçarás, como todos um dia tropeçamos; e cairás e serás envolvido pelas águas; e talvez te levantes e retomes a caminhada, para concluir mais esta travessia.
Ou talvez não seja mais o caso de te levantares. E como os peixes e os pedregulhos, te confundirás com as águas, que te levarão e farão do destino delas o teu destino.

E o rio que agora caminha é apenas rio, embora nele estejam os peixes, os pedregulhos e estejas também ali tu, tudo indistinto. E o rio chegará ao seu fim que não será propriamente um fim, mas um despejar-se num rio muito maior, oceânico e eterno.

E agora que chegamos, onde estão os peixes? Quais as pedras que se acamaram? Que é feito do rio? Onde estás tu?

04 agosto 2008

01 agosto 2008

Trova (V)

Lágrima de quem chora
Lágrima de quem ri
Que pena eu ter ido embora
Que bom você estar aqui

30 julho 2008

28 julho 2008

O Cão e o Dono


Supõe meu dono, ao conduzir-me pela rua,
que apenas sua é a vontade que comanda.
Se eu ando, anda; paro, pára; avanço, avança.
E nessa dança prosseguimos ano a ano.

Qualquer fulano, entretanto, sabiamente,
vendo a corrente que nos liga o tempo todo
e o tenso modo que nos marca o caminhar,
há-de indagar: mas, a final, e a liberdade ?

Onde a vontade de viver, independente
dessa corrente que vos ata e vos limita
e delimita o vosso espaço e a vossa vida ?

Nessa sofrida convivência que nos pune,
o que nos une eu desconheço, isso não nego.
Sei sermos cegos, prisioneiros cão e dono.

25 julho 2008

23 julho 2008

Vale a pena ler de novo (V)




Leilão dos Bens de Abadia

“Começa às 14h desta quinta-feira o encerramento do leilão de uma lancha e de quase 70 relógios e canetas de luxo que pertenciam ao traficante colombiano Juan Carlos Abadia”.

( Dos jornais )

Pra quem tem supertição,
quarqué coisa faiz sentido.
Arguém faiz sinar da cruiz,
quano cruza com ingreja;
otro vira logo o pão,
pra que a mãe não tenha morte.
Por ridículo que seja,
o impurso é munto forte:
mermo sendo de um bandido,
uma cueca traiz a sorte.

A. Cerviño – SP

(Migalhas, 15.04.08)