16 março 2010

Twist

“Eu invento, mas invento com a secreta esperança de estar inventando certo.” (Lygia Fagundes Telles)


Contemos uma fábula. No tempo em que as coisas falavam, o marido da bateria de telefone celular, para encerrar uma discussão, diz à mulher: “E vá para o diabo que a recarregue!”

Qual a reação do leitor diante de um disparate desses? Analise-se e conclua.

O autor desse texto pretendeu conduzir o leitor para um caminho e, repentinamente, tomou um rumo inesperado, deixando-o a ver navios. Ou no mato sem cachorro, como também se diz.

Experimente, durante uma discussão, dizer ao seu adversário: “Quer saber do que mais? Vá pra santa que te pariu!” Ele (ou ela), certamente, se ofenderá, talvez até parta para as vias de fato, não por aquilo que você disse, mas por aquilo que ele imaginou que você estaria pensando, pois ele tinha no arquivo mental outra frase. Você acabará pagando não por aquilo que disse, mas por aquilo que o ouvinte imaginou que você teria pensado antes de dizer o que disse. Arte é isso: um diálogo entre quem faz e quem é chamado a apreciar o que foi feito.

O. Henry, pseudônimo do contista norte-americano William Sydney Porter, que, por sinal, teve uma vida desgraçada, morrendo precocemente, por causa do álcool, tem um livro, Páginas da Vida, no qual todos os contos têm um final surpreendente, absolutamente inesperado. Houve, aliás, um filme contendo alguns desses belos contos, que, por esses mistérios que só a estupidez humana pode explicar, jamais foi convertido em DVD por aqui. Charles Laughton como um mendigo que assedia uma sensual e solitária Marilyn Monroe, na véspera do Natal, para poder passar o geladíssimo fim de ano na aquecida cadeia local, é algo simplesmente inesquecível. Um ladrão de bancos, agora regenerado, vê-se obrigado a “voltar à ativa” no dia em que a filha do dono do banco onde ele agora trabalha fica preso no cofre novo, cujo segredo ninguém ainda conhece. Um casal de namorados que trocam presentes de Natal, imaginando estar a complementar algo que falta ao outro. Ela vende os seus. Não vou estragar a surpresa. São contos que vale serem lidos ou relidos.

É a chamada técnica do twist, que não só os escritores costumam usar, mas também os teatrólogos e os cineastas, que pretendem colher o leitor (ou o espectador) numa armadilha.

No filme Spellbound (o nome que lhe deram em português é horroroso: Quando fala o Coração), Alfred Hitchcock fez uma dessas brincadeiras: Gregory Peck considera-se um criminoso e, por isso, Ingrid Bergman, que põe e tira os óculos para nos mostrar que é uma psiquiatra, está empenhada em demonstrar-lhe que isso é uma ilusão, fruto de um trauma da infância e outras freudianices que têm, de quebra, pesadelos ilustrados por ninguém menos do que o Salvador Dali, que, aliás, não resistiria a uma boa sessão de psicoterapia. A certa altura do filme, a câmera nos mostra, do alto da escada, o velho professor esparramado na cadeira, lá no centro da biblioteca, a sugerir-nos que teria ele sido mais uma vítima daquele criminoso. Entretanto.

Carrie, a estranha, que consagrou o hitchcockiano Brian de Palma, tem uma cena célebre, que, na ocasião em que foi exibido, há mais de 30 anos, despertou, como não poderia deixar de ser, um grito uníssono dos espectadores, eu incluído. A habilidade do diretor estava justamente em colocar a cena em um momento em que ela não seria jamais esperada. Um inesperado twist. É claro que também não vou tirar o prazer do leitor antecipando-lhe o susto, se ainda não viu tal filme.

O mesmo ocorreu com Black-out (em português, Um Clarão nas Trevas), no qual Audrey Hepburn interpreta uma cega que, vinda do Exterior, transporta, sem o saber, numa boneca, certa porção de cocaína, que depois é procurada, em seu apartamento, por traficantes, um deles um sádico. Tema atualíssimo, não fosse o filme de 1967, filmagem, aliás, de uma peça teatral, que, exibida no Brasil, teve, no papel da cega, Regina Duarte, em uma de suas raras interpretações no palco, ainda mocinha. A técnica do twist funciona ali à maravilha. Tanto que minha acompanhante apertou-me a mão com tanta intensidade que a unha dela se cravou na palma da minha mão.

Mais recentemente tivemos o imperdível Sexto Sentido, com a frase famosa: I see dead people!

Dia desses recebi uma mensagem eletrônica de um ex-aluno, que mostra como algumas coisas que dizemos em aula ficam guardadas na memória dos nossos alunos, se a aula não é uma monotonia insuportável, como ocorre tantas vezes. Eu lecionava, naquela ocasião, Noções de Direito Público e Privado em curso de Administração de Empresas. O tal aluno agora me informa que, motivado por aquelas aulas, foi fazer o curso de Direito, tanto quanto seu filho, que eu não cheguei a conhecer, tornando-se ambos advogados. Diz ele: “Lembro-me de uma resposta que você dava diante de toda pergunta que um de nós fazia: depende!”

De fato, eu dizia que não é tão importante alguém dizer que tem direito a este ou àquele bem da vida. Importante é ele provar isso. Logo, a possibilidade de ele vir ou não a desfrutar de tal direito depende menos de ele afirmar ter direito a isso do que da prova que ele faça a respeito de ter esse direito. Quando algum aluno me fazia alguma pergunta, seus colegas respondiam, antes de mim, com o sonoro depende.

Cinemaníaco que sempre fui, utilizei-me do expediente do twist em uma de minhas aulas, com propósitos pretensamente didáticos. Foi assim: quando falava dos chamados frutos civis (aluguel, renda e que tais), perguntei quem ali gostava de chupar laranja, fruto da laranjeira. Obtida a resposta, repeti a pergunta usando agora outra fruta, uva que seja. Havendo obtido a atenção da classe, renovei a mesma questão a um terceiro aluno: “Se eu lhe desse agora uma manga, você chuparia?” Ante a resposta afirmativa do aluno, apresentei-lhe, num autêntico twist, a manga de meu paletó para que ele a chupasse. Ele apenas olhou-me atônito, sem saber o que dizer ou fazer. Na verdade, eu havia condicionado a resposta futura, ao falar, antes, de frutos e frutas, produzindo a associação de idéias dele, necessária para minha surpreendente pergunta. A lição que eles jamais esqueceriam: há frutos e frutos.

Expedientes desse tipo, com fins didáticos, tinham um efeito extraordinário, embora me custasse muito esforço mental, pois tinha de inventar sempre alguma coisa nova, para motivar a classe, já que muitos alunos do curso noturno, havendo trabalhado durante o dia, chegavam sonolentos para a aula. Sempre que possível eu introduzia na exposição um chiste desses, também com finalidade mnemônica. Lembrando-se da anedota, o aluno, quase sempre, se lembraria da matéria onde ela havia sido incluída.

O que não impediu que um dos alunos, muito espirituoso, durante uma prova, indagasse: “Mestre, eu não me lembro da resposta à quinta questão, mas me lembro perfeitamente da piada que você contou naquela ocasião. Posso apenas escrever a piada?”

Uma gag digna de um Hitchcock.

25 fevereiro 2010

O que mais conta

Não a rosa, mas o gesto

Não o tapa - a indiferença

Não a mão, senão apoio

Não o beijo, mas o afeto

Não a nau, mas a viagem

Não o sol, porém a luz

Não o teto, mas o abrigo

Não a vida, mas o amor

Não a lua, mas a calma

Não o tempo, mas o instante

Não o abraço, mas a estima

Não a morte - a eternidade

08 fevereiro 2010

Sardinhas literárias

Tenho a impressão de que o autor da boutade é o Delfim Neto, que, aliás, foi embaixador do Brasil na França. Boutade é palavra do tempo em que se ouvia a Edith Piaf em discos de vinil, chamados bolachões, e que diziam girar à razão de 78 rotações por minuto, coisa que eu nunca fui conferir. A Edith foi aquela cantora que seria apontada como imitadora da Mireille Mathieu, se não tivesse nascido muito antes da Mireille, e cujo sobrenome, falo agora da Edith, era, na verdade, um apelido grosseiro pois o sobrenome pardal, aquele pássaro miudinho sem graça e sem cor que, ainda por cima, não canta, só poderia ter sido posto nela por alguém que a odiasse terrivelmente. Aliás, dizem seus biógrafos que ela nem precisava ter inimigos, pois foi simplesmente esquecida pelas parcas. A sua biografia cinematográfica, Oscar merecido para a intérprete, como é mesmo o nome dela?, não conta da missa a metade. E ela, a original Piaf, sempre a dizer que não se arrependia de nada que havia feito.

Na verdade, quem deveria arrepender-se seriam as parcas.

A história que o Delfim contava, há muitos quilos atrás, era a seguinte: o cidadão comprou, por R$ 7,00, uma lata de sardinha, que era vendida no varejo a R$ 10,00. Mostrou-a a um amigo, que a comprou por R$ 8,50. Cada um ganhou R$ 1,50 na transação. O dono da lata de sardinha revendeu-a por R$ 9,00, lucrando novamente. O novo comprador revendeu-a por R$ 9,50 e aumentou seu lucro. O derradeiro comprador resolveu abrir a lata e comer a sardinha. Descobriu que ela estava estragada e foi reclamar aos vendedores anteriores. Um deles, que era economista, explicou ao decepcionado comprador: “Você cometeu um erro ao abrir a lata, pois a sardinha não era para se comer, era apenas para ser vendida.”

O que o Delfim pretendia ensinar a seus alunos era como funciona o mercado de ações. Se os seus colegas norte-americanos tivessem prestado atenção às suas aulas, o american way of life ainda estaria sendo invejado pelo Sarkozy. Dizendo em bom português: a cow não teria ido para o swamp!

Mas não era de economia que eu pretendia falar hoje. Lembrei-me do Delfim porque tenho notado que há na Internet número enorme de sardinheiros. Explico-me: Quantos e-mails você recebe por dia? Quantos desses e-mails contêm alguma coisa que vale a pena ser vista? Quantos desses e-mails circulares, com elogio da velhice, crítica ao governo, oração para santos ou santas de quem você jamais havia ouvido falar, pensamento do Dalai Lama ou do Papa, fotografias das cavernas da Mongólia e coisas semelhantes ou ainda mais exóticas você passa adiante? Quanto tempo você gastaria para ver tudo isso que recebe? Se alguém me manda mais de dois e-mails no mesmo instante, deleto todos sem ler nenhum, com direito a pôr o nome do remetente no rol dos culpados.

Aí é que está: esse volume incalculável de informações internéticas não é para ser lido, mas apenas para ser passado adiante.

Certa ocasião o Vargas Llosa, não sei se já ouviu falar dele, veio a público, putíssimo da Silva, para negar a autoria de uma despedida que ele teria escrito, às vésperas de sua morte próxima. “O pior é que estou em excelente estado de saúde” arrematou ele. Aliás, nem sei bem se foi ele, pois isso me foi enviado pela Internet, por alguém cujo nome eu não guardei.

Já recebi reflexões espiritualizadas assinadas pelo Pablo Picasso, logo ele, que só sabia pintar coisas deformadas e apalpar mulheres, e mensagens psicografadas enviadas por ninguém menos do que o Mário Quintana, que, pelo jeito, ao passar para o lado de lá teria deixado do lado de cá a sua conhecida irreverência. Dia desses minha filha Patrícia recebeu uma baboseira qualquer assinada pelo Paulo Coelho. Boa advogada que é, não teve dúvida: foi ao site do homem e consultou se aquele insulto à inteligência do leitor seria um desserviço que ele estaria prestando à cultura nacional. Gentilmente a secretária do homem respondeu que aquilo não havia saído da cartola do Coelho.

Já recebi mensagens gentis informando o valor milionário da fazenda adquirida pelo filho de certo político, ou a dinheirama que sicrano tem depositada numa conta nas Ilhas Canalhas, ou por quanto o Ministro tal deu aquela famosa liminar. Quando o remetente merecia, eu lhe respondi solicitando que me desse mais informações a respeito da informação prestada, pois eu pretendia ingressar com representação junto ao Ministério Público e arrolaria o remetente como testemunha. Preciso dizer qual foi a reação?

Já houve quem elogiasse um poema meu. Não é que eu não mereça elogios pelos belos poemas que escrevo, muito pelo contrário. Ocorre que aquilo era um conto, não um poema. Tenho tentado mostrar aos leitores que a Internet abriu novas possibilidades para aqueles que se sentem inclinados à arte da escrita. Se o Machado molhava a ponta do lápis na língua enquanto pensava na frase de efeito que lançaria no papel almaço, temos hoje o recurso do hipertexto. Cheguei a incluir, provocativamente, cerca de 10 palavras-chave (tags) numa única crônica, remetendo o leitor a textos situados alhures, ligados (linkados) àquele. Apenas alguns poucos leitores deram-se conta da proposta. Publiquei algo homenageando uma garota extraordinária e poucos foram os leitores que falaram da Eliana.

O fato é que pouquíssimos internautas se utilizam desse recurso, a maioria ainda escrevendo como se não houvesse diferença substancial entre um computador e uma máquina de escrever. A possibilidade de uma oportuna ilustração ou um anexo complementar do texto nem sempre, lamentavelmente, são recursos utilizados pelos colaboradores.

Certamente virá alguém a dizer que o tempo é pouco para considerações mais longas sobre esta ou aquela obra. Alguém já confessou explicitamente que não havia tido tempo de rever o que havia escrito, o que, no limite, é um desrespeito ao provável leitor. Aliás, escrever não é acrescentar, mas cortar ou substituir palavras, ensinam os mestres. Eu mesmo confesso que gostaria de deter-me em análise mais demorada, mais crítica de certos trabalhos. Por vezes envio essas observações reservadamente ao autor da obra, apontando isto e recomendando aquilo. Há os que se ofendem, mas há também aqueles que se dispõem a prosseguir na discussão. E isso é bom para ambos.

Lembro que a palavra crítica, tanto quanto a palavra crise, provêm, segundo os bons dicionários, do grego, onde se referiam a julgamento. Quem está em crise deve julgar os prós e os contras, para melhor decidir que caminho tomar. Um crítico de arte não tem a finalidade de humilhar o autor da obra criticada, mas realçar os aspectos positivos e negativos que, a seu ver, a obra apresenta. Quando Monteiro Lobato se referiu à obra de Anita Malfatti, indagando se aquilo seria paranóia ou mistificação, ele estava sendo grosseiro, não crítico.

Todos nós, reconheço, corremos o risco de cometermos tais grosserias nas considerações que fazemos, mesmo ressalvando que o deselogio não se refere ao autor, mas à obra. Entretanto, com risco de expor-me a críticas, a crítica que aqui faço é, segundo estou convencido, por uma causa nobre: sugerir que cada um de nós se capacite do modo como gasta seu tempo diante do computador. Da mesma forma como não vale generalizar críticas à televisão, pelo descompromisso que ela geralmente apresenta em relação àquilo que nos parece o padrão ideal para a cultura de nossa gente, assim também podemos selecionar o tipo de conteúdo que estamos dispostos a ver no monitor de nosso computador, eliminando liminarmente as latas de sardinha.

Para encerrar: você gostou mais do Non, je ne regrette rien na voz da Piaf ou na da Mathieu?

30 janeiro 2010

Conto surreal


"The only difference between Surrealism and myself is that I am Surrealism." (Salvador Dali)

Domingo, Salvador(*) sai da tela, depois de tê-la pintado. Traz consigo sua inseparável musa e esposa, Gala. Sua mulher não está calçada e ambos caminham pela calçada. Ele dirige-se à praça, onde entra no banco para sacar algum dinheiro. Ele gosta de tênis, mas hoje está usando sapatos. Como não havia levado raquete, não conseguiu sacar nada. Sai do banco e senta-se no banco da praça, onde há uma cesta com seis mangas. Ele conta as mangas e pega a sexta, que corta em quatro pedaços. O quarto tem uma casa e um botão. Ele pega o botão e espera que ele abra. O botão torna-se uma rosa, que não é cor de rosa. Ele enfia a rosa branca em um dos buracos de uma ferradura, onde normalmente se colocaria um cravo. Ele vai até o pé de rosa e coloca nele a ferradura.

Em seguida, Salvador sai dali a caminho de casa, acompanhado de sua esposa, que está em trajes de gala.

(*) Salvador Domingo Felipe Jacinto Dalí i Domènech morreu na cidade de Figueres, Catalunha, em 23 de janeiro de 1989. Segundo o atestado de óbito, morreu de pneumonia "e parada cardíaca", como todos nós. Foi um dos mais importantes artistas plásticos (pintor e escultor) surrealistas do mundo. Em 1934, casou-se com uma imigrante russa chamada Elena Ivanovna Diakonova, conhecida como Gala. E nasceu em 11 de maio de 1904, na mesma cidade onde morreu.

22 janeiro 2010

Partida

Esse teu olhar mortiço

esse sorriso postiço

essa cara encarquilhada.


Ah o tempo que devasta;

uma perna que se arrasta

e tão próxima a chegada.


Isso tudo sem sentido.

Do silêncio esse vagido

um sorriso de criança.


Olha os mortos se enterrando

e a vida recomeçando

trazendo nova esperança.


Esse teu olhar sem brilho

um pai que pranteia um filho:

tão inúteis tais desvelos.


Uma vida que se apaga,

essa mão que não afaga

nunca mais os meus cabelos.

18 janeiro 2010

Amanhã Vai Ser Outro Dia

"O que mais me preocupa não é nem o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética. O que mais me preocupa é o silêncio dos bons." (Martin Luther King Jr.)

Quando ele se mandou, muita gente torceu o nariz. “Logo agora?” Aí está a sabedoria do homem. Já imaginou algum jornalista perguntando a ele se ainda indicaria a alguém algum candidato do PT? Ou então: “Já houve na história recente do Brasil um Ministro da Cultura pior do que o teu colega?” Aliás, num dos inúmeros DVDs que ele deixou para consolo meu e de todo mundo, ao lhe perguntarem se havia preconceito de cor no Brasil, ele não teve dúvida: “Pois meu genro não teve de vender o apartamento que tinha em Ipanema, já que os moradores do tal prédio não aceitam preto? Que que eu posso fazer? Sair no tapa?”

Eu seria pouco original se começasse uma crônica sobre o Chico dizendo que esse moço tá diferente. Pudera, tomando kir no Les Deux Magots e lendo Baudrillard a bordo do Bateau Mouche até eu. Eu nem precisaria morar na Ille de Saint Louis, ali onde só os chiques e novaes, como a minha amiga Noca, compram apartamentos. Ser esquerdista na França até o Sartre, meus caros. Vinhos excelentes, comida boa, companheira compreensiva com tuas puladas de cerca. Que mais queres? E, além disso, quando calha, o dia todo no Roland Garros, vendo o Nadal ajeitar a cueca e as meias antes de sacar, ou aplaudir o Federer ganhar mais uma partida de tênis, com aquela fleugma suíça. A menos que o adversário seja o Nadal, é claro. O único problema do Sartre foi que bateu um ar nele durante um certo jogo e cada olho ficou fixado num dos jogadores. Ele conseguia, a partir daí, assistir a uma partida de tênis vendo os dois jogadores ao mesmo tempo, sem ter de estar movendo a cabeça daqui pra lá, de lá pra cá, como nós, pobres mortais. Un œil sur le chat, l’autre sur le poisson, como diria o Chico, agora metido a falar francês. Songes et mensonges, sei de longe e sei de cor. Quando ele canta “acorda, acorda, acorda” ele talvez esteja querendo dizer “d’accord, d’accord, d’accord”, depende de quem ouve.

O antigo agitador de massas, que chamava democracia de carnaval e mandava os militares calarem a boca valendo-se de uma homofonia, deu lugar a um tranqüilo avô de três ou quatro netos, alguns deles composições do Carlinhos Brown. O rosto triste, de alguém que talvez esteja pensando “qual, este país não tem mesmo jeito!”, aquele fiapo de voz anasalada de sempre, barriga nenhuma e um par de orelhas que aumentaram de tamanho devido ao rigoroso regime militar, “seulement caviar et champagne, monsieur Chico?”, ainda está vendendo saúde. Coisa da academia Polytheama.

Sou, confessadamente, uma das milhares, talvez milhões, de viúvas do nosso Carioca, como era conhecido na rua Maria Antonia, lá se vão muitas decepções, inconformado com essa besteira de ele querer falar em Benjamins e outras cidades visíveis. Quem não cantou o “quem sabe faz a hora não espera acontecer” não sabe a efervescência que era aquilo, no tempo em que ser de esquerda era algo um pouco mais do que se chamar Zagallo. Se você acha que eu não sei que o autor daquele hino era o paraibano Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, problema teu.

Os teóricos diziam, e nós acreditávamos, que o socialismo era o filho bastardo do capitalismo. Aí está a família Bush para ilustrar isso: o atual Bush é aquilo que todos sabemos. E nem o candidato do seu partido quer o homem por perto. O Michael Moore já mostrou quem foi o pai do W. num dos esculachos cinematográficos que fez. E o pai de um e avô do outro? Gente finíssima! Prescott Bush robbed Geronimo's tomb and brought his skull and bones to Yale, diz sua biografia, orgulho do neto, certamente. Violar túmulo de um herói indígena para exibir os ossos como troféu de guerra! Só mesmo um Bush! “Mr. Bush - like his father and his grandfather - belonged to Skull and Bones, an elite secret society that includes some of the most powerful men of the 20th century”. A notícia está no CBS 60 Minutes. Se duvidar, consulte o primeiro Google da rua. Alguém imagina que daí surgirá algum socialismo? Nem se o novo presidente fosse negro e muçulmano, meu caro.

Agora, falando sério, eu preferia não falar de política. Ou dizer, como o Chico, alô, liberdade, levanta, lava o rosto, fica em pé; como é, liberdade? vou ter que requentar o teu café?

Antes o problema da nossa frágil democracia brasileira eram o Legislativo e o Executivo. Morrendo de inveja, o Judicário resolveu mostrar que também é composto de brasileiros, tal como seus irmãos montesquianos. E deu no que deu.

Entretanto, quem de nós, os eternos quixotes, não está de acordo em que se deve sonhar mais um sonho impossível? Lutar, quando é fácil ceder? Vencer o inimigo invencível? Negar, quando a regra é vender?

Quem sabe um dia o mundo ainda venha a ver brotar uma flor do nosso impossível chão.

24 dezembro 2009

Feliz Ano Velho

Veja o lado positivo das crises, ainda que renais. Falo das renas do bom velhinho, evidentemente. Não me refiro ao Oscar Niemeyer, mas ao outro. Também não é o Levy-Strauss, minha senhora. Deixa pra lá.
O que eu queria dizer é que nos idos e vividos tempos, reunião de Natal era um desfile de esbanjamento, no que diz com os infalíveis presentes. O convidado A vinha com cinco pacotes, que distribuía a B, C, E e F. Epa! Faltou um. B dava presente a A, C, D, E e F. C dava presente a D, E, F, A e B e assim seguia a ciranda. Você ia pra casa carregando quatro ou cinco LPs, se fosse do sexo masculino. Se mulher, eram duas ou três caixas de pó-de-arroz. Ou de perfume. Na certa, Royal Briar, “o perfume que deixa saudade”, como se dizia na Rádio São Paulo.
Com a crise (falo daquela longínqua), inventou-se o “amigo secreto”. O convidado A dá presente a B; B dá presente a C; C dá presente a D e assim seguia a roda, com visível economia para todos.
Com o atual crack da bolsa, batizado sub-prime, que mostrou que a economia não estava nas mãos de craques, eu acabo de propor uma revisão do instituto do “amigo secreto”, inspirado no funcionamento das bolsas de valores. A coisa funcionou assim: em lugar de presentes concretos (vale dizer, CDs e perfume da Boticário), presentes virtuais. Secreto não será mais o amigo que recebe, mas o amigo que dá o presente.
Eu, como amigo secreto, daria a alguém um vale, feito no computador, pois sou bom no paintbrush: “Vale uma Maserati vermelha”, caso o sorteado fosse do sexo masculino; “Vale um colar de pérolas South Sea, com fecho de ouro branco e dois rubis”, se o sorteado fosse do sexo feminino. O resultado foi um estouro. Com a grande vantagem de, sendo secreto o amigo presenteador, o sorteado não terá como identificar-me. Ele, então, na segunda-feira mandará colocar num quadro o tal vale, ao lado dos quadros onde ele já colocou os cheques sem fundo que tem recebido ultimamente e as cautelas de ações que ele comprou no boom da bolsa, o que ele fez, aliás, sem a mais mínima cautela.
Já no que concerne ao final do atual inesquecível ano, sinceramente, eu gostaria de pagar o jantar do réveillon para todos os meus amigos. E certamente eu o faria se não tivesse havido o problema com a bolsa, que me afetou sensível, econômica e financeiramente. Desde que minha mulher escondeu a bolsa dela está difícil eu pagar as contas, que não param de vencer. Falo das minhas, é claro, cujo vencimento faz de mim um derrotado.
Tenho recorrido aos bancos, mas fico sentado na Praça da Sé o dia todo e nada de cair alguma moeda no meu furado chapéu. Mudo de banco e no shopping é ainda pior, pois o guarda me manda levantar e circular. Eu, nesta idade, girando minhas pás pra lá e pra cá!
Até pensei em bancar transportador de bebuns ao final de alguma festa do dia 31, mas não sei como estará, na tal data, o meu decrescente prestígio junto ao posto de gasolina da esquina, onde já sou atendido pelo trasista, pois o frentista nem me olha mais. É que ali ninguém mais acredita no meu cartão de crédito.
Segunda-feira próxima farei uma derradeira tentativa: procurarei a caixa. Colocarei uma carta na caixa do correio, esperando sensibilizar o idiota, digo, o samaritano que a receberá, com votos disto e mais aquilo, talvez até luzinhas piscando, e sugestão no sentido de que ele envie cópia a mais dez pessoas, cada uma me remetendo, ao depois, a gentileza de um substancioso óbolo. Difícil será encontrar dez pessoas que saibam o que é óbolo e o que é substancioso. Enfim, se até o Ronaldo encontrou quem acreditasse nele, por que não haverei de encontrar quem acredite em mim, que não estou tão gordo?
Bom mesmo foi 2007, quando éramos felizes e não sabíamos, ano digno de ser lembrado.
Desejo pás na terra a todos os homens de boa vontade e com saúde para limpar as ruas da cidade onde moram, especialmente considerando que os servidores municipais têm coisa mais importante para fazer. Greve, por exemplo. Eu não me candidato a esse trabalho porque as pás me deixam as mãos inchadas.
E adeus, pois minha inspiração foi-se.
 

10 dezembro 2009

Justiça

Há uma réstia de esperança em cada fato;
há um pouco de verdade no que é falso,
uma sombra que persegue o insensato.
Há um justo conduzido ao cadafalso.

Há uma causa que se vence injustamente:
uma chance de acertar se desperdiça.
Há uma lágrima no rosto do inocente;
uma luz vacila e morre na injustiça.

Há um justo condenando um inocente.
Há uma sombra de esperança em cada fato;
uma réstia de verdade na injustiça;
uma lágrima no rosto do que é falso.

Há uma chance de acertar injustamente,
uma luz a perseguir o insensato.
Há um justo, que vacila, e desperdiça
uma causa, que conduz ao cadafalso.

01 dezembro 2009

Presunções

"Não existe nenhum país no mundo que ofereça tamanha proteção (aos acusados). Portanto, se resolvermos politicamente – porque esta é uma decisão política que cabe à Corte Suprema decidir – que o réu só deve cumprir a pena depois de esgotados todos os recursos, ou seja, até o Recurso Extraordinário ser julgado por esta Corte, nós temos que assumir politicamente o ônus por essa decisão".

(Ministro Joaquim Barbosa, quando do julgamento do HC 84078/MG pelo STF)

Se você conhece alguma coisa da vida sabe que o criminoso é alguém que demonstrou não respeitar as regras de convivência social. Se conhece alguma coisa do Direito Penal certamente sabe que uma das finalidades da pena é proporcionar a ressocialização de quem cometeu um crime.

Imaginemos, porém, que você seja leigo em Direito. Você passa por uma avenida pela manhã e vê um automóvel inteiramente desfeito, com aqueles ferros retorcidos empilhados junto a um poste, sangue na calçada correspondendo ao passageiro que ali era transportado. Se você é um adulto que conhece as coisas naturais da vida, o que os juristas costumam chamar de illud quod plerumque accidit, aquilo que normalmente acontece, sabe que: a) automóveis não foram feitos para colidirem contra um poste, mas para trafegarem no chamado leito carroçável; b) os automóveis são construídos com material resistente e só se desmancham quando colidem contra um obstáculo, em alta velocidade. Aqueles dados à sua disposição permitirão que você chegue a algumas conclusões: a) o automóvel colidiu contra o poste por haver saído indevidamente do leito carroçável; b) os danos produzidos na colisão sugerem que ele estava trafegando em velocidade incompatível com a que seria razoável nas circunstâncias. Logo, concluirá você que esse motorista acaba de cometer um crime de trânsito, causando danos físicos ao passageiro ou sua morte.

Se, entretanto, ao seu lado estiver um advogado criminalista, ele bradará: “Enquanto não for comprovada a culpa desse motorista em um processo judicial, assegurando-se a ele ampla defesa, com a possibilidade de interpor todos os recursos previstos em lei, ele deve ser considerado inocente”.

Você então concluirá que os operadores do Direito são gozadores ou débeis mentais, pois, de acordo com o citado illud quod plerumque accidit, a presunção evidente, decorrente daquilo que ali está exposto, é no sentido de que o motorista foi imprudente, ao imprimir velocidade inadequada ao veículo, e imperito, ao deixar o automóvel desgovernar-se. Logo, a menos que ele justifique cabalmente sua conduta, a presunção será de culpa, não de inocência, até porque o fato se passou na madrugada e não havia qualquer testemunha presencial. O tal advogado, ao ouvir isso, lhe entregará um cartão de visitas. “Não saia à rua sem ele”, dirá a você, com um sorriso de mofa no rosto.

Imaginemos agora que você more num prédio de apartamentos, no qual moram várias famílias, cujas crianças costumam brincar num play ground situado nos fundos do terreno. No terceiro andar mora um rapaz, dono do apartamento, cujo quarto tem a janela voltada para o tal play ground. Ele encontra-se em gozo de férias e, por isso, pretendia dormir até mais tarde, o que o barulho da criançada não permite. Ele então empunha sua espingarda de caça e vai abatendo, uma a uma, as perturbadoras crianças, como se estivesse em Columbine.

Ele vem a ser preso, é lavrado o auto de prisão em flagrante e arbitrada fiança, pois ele é primário, tem residência fixa e emprego. Paga a fiança, ele é solto, voltando para casa.

Vamos dramatizar ainda mais: uma das crianças mortas era seu único filho. Como você se sentiria cruzando diariamente com aquele vizinho no corredor do edifício ou subindo com ele no mesmo elevador? Que idéias lhe viriam à mente?

Oferecida denúncia contra ele, o defensor arrola meia dúzia de testemunhas, dentre as quais Gisele Bündchen e Ricardo Izecson Santos Leite. Serão expedidas cartas rogatórias para ser tomado o depoimento da itinerante modelo onde quer que ela esteja desfilando e para ser ouvido o tal rapaz, que atua no futebol da Europa sob o nome de Kaká. Anos depois, quando voltarem as cartas rogatórias devidamente cumpridas, a defensoria requererá que o jogador e a modelo sejam submetidos a acareação, cujo indeferimento caracterizaria cerceamento de defesa. Quanto tempo mais será necessário?

Imaginemos que um dia a instrução desse processo termine e sobrevenha uma sentença condenatória. Condenatória? Coisa nenhuma. Será uma sentença determinando que o réu seja submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri. O acusado continuará a circular pelo edifício onde vocês dois moram, pois é primário e tem bons antecedentes. E continua sendo legalmente inocente.

A primeira providência da defensoria será apresentar um recurso de Embargos de Declaração, para que o juiz explique melhor algum trecho da sentença. Esse recurso será rejeitado ou acolhido, publicando-se o resultado meses depois.

Sobrevém então o recurso propriamente dito, que deverá ser apreciado pelo Tribunal de Justiça, recurso esse no qual a defensoria certamente argüirá umas tantas nulidades e pedirá a despronúncia do recorrente, como é de praxe. Os autos do processo irão à Procuradoria de Justiça, de onde retornarão no ano seguinte. Enquanto isso você continua a cruzar com o mesmo vizinho no corredor do edifício onde ambos residem.

Anos depois, o recurso será julgado, confirmando-se a decisão que mandara o réu a julgamento pelo Tribunal do Júri. O Acórdão será então lavrado, assinado, registrado e publicado, o que exigirá uns tantos meses. A defensoria, então, apresentará recurso de Embargos de Declaração, para que seja esclarecido isto e mais aquilo. Meses depois os tais Embargos serão julgados, o respectivo Acórdão será lavrado, assinado, registrado e publicado, o que exigirá mais alguns meses. Enquanto isso você continua a cruzar com o recorrente no corredor do edifício onde ambos residem, pois ainda não é o caso de expedir-se mandado de prisão, já que o réu continua sendo legalmente inocente.

Agora a defensoria apresenta não apenas um, mas dois novos recursos. No primeiro, dito Recurso Especial, ela invocará violação de algum preceito constante de lei federal; no outro, dito Recurso Extraordinário, a defensoria alegará violação de algum preceito constitucional, coisa que qualquer rábula sabe fazer. Os autos irão novamente à Procuradoria de Justiça, de onde retornarão no ano seguinte, com pareceres sobre um e outro desses recursos. Eles serão então despachados pelo Presidente do Tribunal de Justiça que ou manda que o recurso seja enviado ao tribunal de Brasília competente para apreciá-lo, ou indefere o recurso. Do indeferimento caberá novo recurso, dito Agravo de Instrumento, que será apreciado por um Ministro de um Tribunal Superior, em Brasília, sabe-se lá quando. Em Brasília caberão tantos recursos de Embargos de Declaração quantos a imaginação e a criatividade do Advogado conseguirem criar. Quando algum deles for indeferido liminarmente, sob a alegação de ser meramente protelatório, sempre caberá o recurso de Agravo Regimental, cuja decisão também admite novos Embargos Declaratórios.

Enquanto isso você continua a cruzar no corredor do edifício, onde ambos ainda residem, com a pessoa que, anos atrás, quando os cabelos de tua esposa ainda não eram grisalhos e quando havia cabelos em tua cabeça, disparou contra crianças que faziam algazarra no play ground do edifício onde você e ele já viviam. Lembra-se?

Repare que até agora ele ainda não foi submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri. Quando isso ocorrer e ele for condenado, finalmente ele será preso e começará a cumprir a pena. Certo? Errado. Ainda faltam ser interpostos muitos e muitos recursos.

Quando tiver sido definitivamente julgado, o tal rapaz, agora um respeitável senhor, casado e bem empregado, deverá deixar o emprego e a família para passar uns tempos atrás das grades. Uns anos mais e ele sairá de lá presumivelmente ressocializado.

09 novembro 2009

Intolerância





"Faculdade expulsa aluna que se trajava indevidamente."

(Dos jornais)


Erich Fromm, já na década de 70, intuíra haver nítida relação entre o culto da tecnologia e tendências necrófilas. “A fusão da técnica com a destrutividade não se mostrava ainda visível por ocasião da Primeira Guerra Mundial. Havia pouca destruição por parte dos aviões, e o tanque era apenas uma evolução das armas tradicionais. A Segunda Guerra Mundial trouxe uma mudança decisiva: a utilização do avião para a mortandade em massa. Os homens que jogavam as bombas mal tinham consciência de que estavam liquidando ou matando pelo fogo milhares de seres humanos, em poucos minutos. As tripulações aéreas eram uma equipe: um homem pilotava o avião, outro incumbia-se de sua navegação, outro jogava as bombas. Não estavam preocupados com o ato de matar e mal tomavam consciência de um inimigo. Estavam preocupados era com o manuseio de seu próprio avião, uma complicada máquina, construída segundo as linhas mestras referidas em planos meticulosamente organizados. O fato de que, como resultado de seus atos, muitos milhares e, algumas vezes, mais de cem mil pessoas seriam mortas, queimadas e mutiladas era, sem dúvida, do conhecimento deles cerebralmente, mas dificilmente compreendido sob o ponto de vista afetivo. Era um fato, por mais paradoxal que isso possa soar, que não lhes competia. Foi provavelmente por isso que eles – ou, pelo menos, a maior parte deles – não se sentiram culpados por atos que pertencem à lista dos mais horripilantes que um ser humano pode realizar”.

Se a palavra do professor de Heildelberg não valia nada, dada sua reconhecida formação marxista (menos sob a ótica política e mais pelo humanismo que caracterizou as preocupações do outro pensador alemão), a julgar pelo incremento da indústria bélica norte-americana na última metade do século passado, que dizer dos comentários irrespondíveis de Noam Chomsky a respeito de atos terroristas (assim ele os classifica) praticados pelo governo norte-americano, como, por exemplo, o bombardeio das instalações farmacêuticas de Al-Shifa, no Sudão, levada a efeito em agosto de 1998?

“As instalações de Al-Shifa eram as únicas a produzir drogas contra a tuberculose, para mais de 100.000 pacientes, a preço de cerca de uma libra inglesa por mês. Qualquer remédio importado (mais caro) não é acessível aos sudaneses – ou aos maridos, esposas e filhos dos doentes, que serão infectados a partir de então. Al-Shifa também fabricava drogas de uso veterinário para esse vasto país, que vive na sua maior parte da produção pastoril. A especialidade de Al-Shifa eram as drogas para matar parasitas, que passam do gado para quem cuida dele, e que são uma das principais causas, no Sudão, da mortalidade infantil”, relata, citando reportagem de James Astill, publicada no Guardian de 2 de outubro de 2001.

Tudo isso, porém, são dados estatísticos. Dados reais são os nomes dos fuzileiros navais norte-americanos mortos no Vietnã e imortalizados no panteão a céu aberto erguido por seus compatriotas. Identificássemos todas as vítimas do terrorismo norte-americano na Ásia, na América e na África, tal como registra Chomsky, e teríamos, certamente, de utilizar a muralha da China para imortalizar seus nomes.

Façamos, a esta altura, alguns closes com nossa câmera investigativa: Bouvanah Maneevong é plantador de arroz no Laos. Cuidadosamente ele procura, com as mãos, no local alagado, pela presença de algum artefato explosivo. Quando os encontra, leva-os cuidadosamente para um buraco aberto além, e aciona um gerador para explodir as bombas em segurança. Mas sabe que sempre haverá o risco de elas explodirem durante o transporte. Até 1993 ele e seu sócio haviam encontrado 45 desses artefatos.

Em agosto de 1993, Nag Saiko e sua filha Posua, de 13 anos, trabalhavam lado a lado no jardim de sua casa, na província de Xieng Khouang, no Laos. Posua tocou com seu instrumento de trabalho em um artefato de metal, que explodiu, matando-a. Estilhaços feriram a mãe no rosto e na perna.

Chantaly era uma moça de 18 anos, que sonhava casar-se e ter filhos. Em julho de 1993 uma explosão de um de tais artefatos causou-lhe graves queimaduras, além de cegá-la. Quando chega alguma visita, ela se esconde, envergonhada de seu aspecto. Em 1976 ela já havia perdido um irmão, quando uma dessas bombas explodiu. Ele tinha 11 anos de idade.

Em novembro de 1993, os dois filhos de Tu Va Chao, Kou Ya, de 4 anos, e Sai Ya, de 6, levavam um búfalo para o pasto. Sai Ya encontrou uma bola metálica e a apanhou, supondo fosse um brinquedo. Em seguida atirou-a na direção de seu irmão. A bomba explodiu, matando Kou imediatamente. Sai Ya morreu dois dias depois. Um ciclista que passava pelo local ficou ferido com a explosão.

Que há de comum em todos esses casos (e em muitos outros que poderiam ser lembrados), exemplos típicos de terrorismo, consoante a definição de Chomsky? De 1964 a 1973, o Laos fora submetido a um dos maiores bombardeios de que se tem notícia, pois os Estados Unidos pretendiam destruir a infra-estrutura montada naquele país, vizinho do Vietnã, pelos comunistas, bem como apoiar as campanhas militares favoráveis ao governo norte-americano, que era preciso estimular. Daí a decisão do bombardeio massivo de um país que, oficialmente, não estava participando da guerra.

Estima-se que foram realizados mais de 580.000 vôos ao longo desses nove anos, que despejaram cerca de 6.000.000 (seis milhões) de bombas convencionais além de 100.000.000 (cem milhões) de “bomblets”, que eram uma espécie de granada redonda, pouco maior do que uma bola de baseball, transportada em uma bomba especial que, ao se aproximar do solo, explodia apenas para o efeito de espalhar essas granadas aleatoriamente por toda a área. Assim, essas “bomblets” transformaram-se em minas, em armadilhas mortíferas, à espera de serem detonadas quando alguém, desavisado, as tocasse. Só na província de Xieng Khouang foram despejadas mais de 300.000 toneladas de bombas, o que corresponde a duas toneladas por habitante!

Ocorreu que, por força das chuvas torrenciais que costumam cair sobre aquela região, as monções, essas bombas foram levadas para outros lugares ou cobertas pela lama, ficando imperceptíveis. Somente quando tocadas por algum objeto mais duro (um instrumento agrícola, por exemplo) elas acusam sua existência, explodindo.

Mais de 11.000 pessoas foram mortas ou feridas nos vinte anos seguintes ao término da guerra do Vietnã, em razão da explosão dessas “bomblets”.

Esses dados constam de relatórios da Mennonite Central Committee, organização não-governamental, sediada nos Estados Unidos e ligada à North American Mennonite and Brethren in Christ, e que desenvolveu, juntamente com outras entidades (como a inglesa Mines Advisory Group, trabalhos de assistência naquele país. Evidentemente, não há como saber quantas bombas restam para serem detonadas nem como recolhê-las todas, pois, com o passar do tempo, a própria vegetação ou os efeitos da erosão escondem ainda mais tais armadilhas, tornando-as mais perigosas.

Temos, portanto, que um propósito inicial voltado para uma causa que se dizia justa, por mais criticável que fosse, vem acarretando danos perfeitamente previsíveis e cuja ocorrência se dará sabe-se lá por quanto tempo ainda, pois é impossível calcular quantas bombas ainda não foram localizadas. Vive-se ali, literalmente, em um campo minado, sem que ali haja guerra. E sem que o país tivesse estado sob uma guerra oficial. Ironicamente, muitas das vítimas (mais de 50% são crianças e jovens com menos de 15 anos) nem haviam ainda nascido quando a guerra terminou, ao menos oficialmente. Valha notar que o Brasil fabrica e exporta essasbomblets, por mais pacifista que seja o discurso de seus governantes.

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Extraído do livro Justiça & Caos, Editora Instituto Memória, 2008, p. 162