24 setembro 2008

Baú de Ossos



“Nos dias atuais a educação está muito precoce.”
“O desenvolvimento trás grandes lados positivos e negativos para o meio ambiente.”
“Isso tudo é devido ao raios ultra-violentos.”
“Existem dois tipos de animais: os que vivem em cativeiro e os que não vivem. Ultimamente, surgiram um terceiro tipo que corresponde aqueles os que são presos pela polícia federal. Todos os fiscais são subordinados. É a propina.”


(ENEM 2007, segundo dizem)


Quando nasceu o memorialista Mário Nava, um anjo torto entrou na maternidade, sentou-se ao lado do berço e exclamou a frase célebre: “Vai, Mário, ser gaúcho na vida!” Ele era muito triste e a família resolveu, por isso, mudar-se para Alegrete, onde ele ficou conhecido como o Mário da Quitanda. Dizem que na hora do embarque ele, ainda criança, teria dito: "Parto alegre!” Outros dizem que a frase foi outra: “Parto sem dor!”


Eu poderia também falar do Alberto Calheiros, autor de O Guardador de Camelos, e que se notabilizou pela frase: “Eu não sou mais o mesmo Pessoa”. Alguns supõem fosse ele homo, mas, na realidade ele era hétero. Heterônomo, segundo o Fernando, seu biógrafo. Tanto quanto o Bernardo Soares, homem extremamente desassossegado.


O fato é que, depois que o Raul Gil, ex-esposo de Flora, a virgem dos lábios de mel, assumiu ministério, tudo o que aprendemos é que ele prefere novelas e xaxados. Cultura? Nem pensar. Quem te viu e quem TV!


E tem também o Sal Amargo, homem dado a cegueiras, imortalidades e jeux de mots. Numa jangada de pedras lá vai ele da Ilha da Madeira para as Ilhas Canárias, apenas para que seus conterrâneos digam que fez uma troca d’ilhas.


Essas confusões entre nomes de autores e nomes de personagens só faz agravar-se com o tempo. É o que me dizem pessoas mais velhas, das quais não tenho motivos para duvidar. O Pierre Bayard, que, mesmo não pertencendo ao Ministério do governo brasileiro, acumula as inacumuláveis atividades de psicanalista e professor de literatura na Universidade de Paris, além de escrever romances policiais, acaba de brindar-nos com um interessante e sério livro intitulado Comment parler des livres que l’on n’a pas lus?, que, em português, recebeu, como não poderia deixar de receber, o título Como falar dos livros que não lemos? É um livro que eu não li, mas achei ótimo.


Pois todos nós temos, segundo o Bayard, isso de discorrermos com autoridade sobre coisas de que mal ouvimos falar, livros em especial. Você acha que alguém tem tempo e paciência para ler os não sei quantos volumes do monumental Em Busca não sei de quê, escrito pelo Marcel acho que Proust, é esse o nome do autor? No entanto, todos nós sabemos que aqueles brioches se chamavam madeleines e é graças a eles que o autor viaja ao passado. Como dizia ele, Não há pão? Pois que comam madeleines! É ou não é?


Quando o livro vira filme, como está a ocorrer com o autor português que mora em Lanzarote, isso lá é nome de cidade, pá? a coisa então é de chorar. O livro mais célebre do Joseph Conrad, por exemplo, passa-se na selva africana. Nele “há um homem que é quase um mito, pois sozinho consegue vender mais marfim do que todos os outros juntos, e que chefia o posto mais distante, mais embrenhado no coração das trevas que são aquela selva. Esse homem é Kurtz, uma figura misteriosa de quem se fala praticamente ao longo de todo o livro, mas que só nos é apresentado perto do fim, criando também em nós, leitores, a ansiedade pelo encontro, o fascínio pela personagem” diz uma resenha do livro divulgada na Internet. Acontece que no filme Apocalypse Now, baseado no tal livro, o Ford Coppola narra a história do capitão Willard, papel do Martin Sheen, que recebe a missão de matar um insano desertor, o coronel Kurtz, papel do Marlon Brando, porque este preparara uma tropa de vietnamitas para matar os norte-americanos. Transpor a história do Congo Belga para o Vietnã e transformar o traficante Kurtz no coronel maluco foi o mínimo. Em primeiro lugar, quem não é maluco no filme e na equipe de filmagem? Um tufão acabou com o cenário, que teve de ser refeito, e o Martin Sheen por pouco não morreu por causa de um infarto, coisas de que o Conrad não tomou conhecimento, até porque o filme foi feito mais de 50 anos depois de sua morte. Se você tentar comentar o livro a partir do filme do Coppola, entra na lista do Bayard.


Antes de concluir: já que você teve paciência de aturar-me até aqui, certamente descobriu que isto é um teste de auto-conhecimento, também chamado “jogo dos nove erros”. Ou dezenove, dependendo do enfoque que se lhe dê. Graças a este teste você descobrirá o quanto não sabe de literatura. Nada mau para quem vive dizendo que é socrático, referindo-se ao homem que dizia a seus alunos, chamados por ele de patetas, que tudo o que sabia era que não sabia nada.
A brincadeira que proponho consiste justamente em você reescrever a crônica, que lembra o “Samba do Crioulo Loiro”, do Estanislau Ponte Porto, que, aliás, entendia um bocado de jazz, tanto que se apresentou no “O Céu é o Limite”, lá vão alguns lustros, e ganhou um bom dinheiro, que repartiu com sua Tia Zulmira.


Mas, é claro, reescrevê-la corrigindo o que deve ser corrigido.

E nem me venhas pôr a culpa no Exame Nacional do Ensino Médio.

21 setembro 2008

Ave


Maria vê a ave
marinha.
Mariinha
ia ao mar
e vinha.

E vê
a ave
marinha.

Vê a ave, Maria.
E a ave
vê Mariinha.

A ave vê Maria.

17 setembro 2008

Vale a pena ler de novo (VIII)


Vida severina


Ontõe Gago eu não conheço,

mas uma coisa eu lhe digo:

Guimarães Rosa, assim penso,

se encantaria contigo.


Nome assim de cangaceiro,

se me permite o reparo,

brigador e arruaceiro.

Tô sendo injusto, meu caro?


O gaúcho Mano Meira

mais Zé Preá, nordestino,

falam de moça e rameira

e de home bem feminino.


Sei que tudo é brincadeira,

mas com isso não me afino.

Penso em João Guimarães Rosa,

diplomata e escrevente,

homem muito competente,

cabra bom pra contar prosa,

sabia tudo de gente!


Inventou um Manuelzão,

Riobaldo e Miguilin,

nas veredas e sertão

daquelas terras sem fim.

Mas ele não criou não

alguém com um nome assim.


Se ele ainda vivo fosse

- esta aposta eu faço e pago

com rapadura e pão doce -

esta certeza eu lhe trago

dentre os nomes que ele trouxe

- pena que se finou-se -

punha esse: Ontõe Gago!"

A. Cerviño - SP

(Migalhas 31.08.06)

07 setembro 2008

Que queres?

Que queres tu de mim?
Dize-me lá.
Já te esbofeteei,
chutei-te o traseiro vezes sem conta,
atirei-te ao solo,
espanquei-te a mais não poder.
Doem-me os pulsos,
doem-me as costas
e – por que não dizê-lo? –
doem-me os pés.


Peço-te,
encarecidamente peço-te
que mais não me peças.
Ao menos por hoje,
que é dia santificado.


Finjamos,
por umas poucas horas,
que somos um casal normal,
ainda que poucos saibam
o que é ser normal.
Amanhã ou depois,
- quem sabe? -
talvez recomecemos.
Mas, confesso-te, minha querida:
teu masoquismo está a exaurir-me.

03 setembro 2008

Trova (V)

Fazer verso em ti pensando
coisa mais fácil não há:
abro o peito e vou mostrando
tudo o que existe por lá.