30 agosto 2011

Minha casa



Minha casa é de remendos,
são tremendos seus galpões,
tão incômodos seus sóis,
suas luas giram lentas.

Minha casa sem paredes,
verdes campos que se espraiam;
onde há flores, não há frutos;
onde a gente aí tem paz.

Minha casa abandonada
e desleixada ao relento.
Quem visita ali não fica:
vai e deixa seus segredos.

Dormitório da saudade,
canta o vento umas berceuses
pra ninar quem não desperta.

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Meu amigo Ignácio Velez, venezuelano, assim transportou o poema para sua língua:

Mi casita

Es mi casa de remiendos
tan tremendos sus galpones,
tan incómodos sus soles
pues sus lunas giran lentas.

Es mi casa sin paredes,
verdes campos se desplayan;
donde hay flores y no frutos,
y la gente tiene paz.

Está ella abandonada
y así quedada al relente;
quién visita allí no queda:
sale y deja sus secretos.

Dormitorio de nostalgias,
canta el viento unas berceuses
pa’ arrullar a quién ya duerme.

Acho que o poema até ficou mais bonito.

28 agosto 2011

Os delatores invejosos



“Em 2009 o STF alterou sua jurisprudência com relação à possibilidade de cumprimento das penas logo depois da confirmação da sentença em segundo grau. Em 2009 isso mudou. Não concordei com essa posição e discordo dela até hoje.” (Ministra Ellen Gracie Northfleet, revista Veja, edição de 31/08/2011)

Lon Luvois Fuller, nascido com o século passado, tornou-se professor de Direito na Universidade de Harvard. Deixou um livrinho, que era um deesafio a seus alunos e que muitos estudantes brasileiros já foram instados a ler: “O caso dos exploradores de cavernas”. A hipótese por ele trazida no livro foi tornada realidade tempos depois, quando, havendo caído um avião com passageiros nos Andes, os sobreviventes passaram a alimentar-se com a carne dos falecidos. Como você agiria se lá estivesse?
Em outro livrinho, menos conhecido por aqui, Fuller inventa uma situação mais complexa: em certo país, o governo é assumido por determinado partido, que tem maioria absoluta no Poder Legislativo e muitos simpatizantes no Poder Judiciário. Ele poderia estar falando da Alemanha nazista, do México do século passado, da Cuba atual, da Venezuela ou do Brasil. Graças a esse poder, o tal partido faz aprovar leis curiosas, como aquela que exige dos cidadãos que, quando perderem seu documento de identidade, denunciem o fato às autoridades, em cinco dias, para cancelamento, evitando-se, assim, que alguém, contrário ao regime, se utilize desse documento para fins escusos. A desobediência a tal regra era sancionada com a pena de morte, a ser imposta num processo judicial, por estar em risco a segurança nacional.
Tal como aconteceu na Alemanha pós-nazismo, na Espanha pós-Franco e no Portugal pós-Salazar, com a morte do líder carismático e a eleição de novos governantes, aquelas leis foram revogadas. Ficou, porém, uma “herança maldita”: aqueles que se consideravam vítimas de leis injustas passaram a acionar o governo para pedir reparação dos danos sofridos e a punição daqueles que deram cumprimento a tais “leis injustas”, aí incluídos os juízes. No livro de Fuller, são consultados cinco membros do Legislativo, dando cada qual seu parecer sobre o assunto. Cabia aos alunos adotar uma dessas opiniões, refutando os argumentos das outras quatro.
O professor Dimitri Dimoulis, da Fundação Getúlio Vargas, vem de lançar a tradução do livro, acrescentando, por sua conta, a opinião de cinco juristas, tão fictícios como os deputados de Fuller, cada qual dando seu parecer sobre o tema. Ao finalizar o livro, Dimoulis recomenda a seus alunos: a partir da argumentação dos juristas, tome partido, aderindo a um dos pareceres. Mas, diz ele, “explique o porquê”.
E diz mais: “Defenda bem e detalhadamente a sua opinião. Só se esta for convincente a solução contará com o apoio dos demais”. O que me faz inventar um sexto jurista, o prof. Suarez, que pede licença para por sua colher de plástico nesse caldeirão de polenta.
Em primeiro lugar, quando se diz, como enfatiza o Prof. Satene,  que não podemos falar em “violação do direito” sem antes definirmos o que entendemos por direito, pois “todos usamos esse termo mas cada um entende algo diferente”, está-se a dizer que nenhuma definição de Direito logra dizer exatamente o que é aquilo que se busca definir. O que me faz lembrar do estudante de Teologia que, passeando pela praia, viu uma criança a fazer um buraco onde, segundo revelou ao futuro santo, pretendia enfiar toda a água do mar. Agostinho, esse o nome do seminarista, deu um tapa na nesta e limitou-se a exclamar “É isso!”, referindo-se à impossibilidade de o homem conceituar Deus.
“Putas quid est Jus?” poderemos indagar, parafraseando o santo. Acaso imaginas poder entender o que é o Direito? Falas em Justiça como se fosse possível ao homem equiparar-se a Deus que, justo embora, a mais não ser, consegue julgar-nos com tal benevolência que temos a certeza de estarmos longe da Geena. Sendo, por hipótese, absoluto e detentor de toda a verdade, a ponto de desafiar seu julgador, permite a nossa inteligência o atrevimento de tentarmos alcançá-la. Como pode?
“Quid est Veritas?” indaguemos a qualquer juiz e tudo o que ele nos dirá é: “É aquilo que ficar provado no processo.” Vejamos, então, uma historieta: alguém é processado criminalmente sob a acusação de haver furtado a bolsa de A, a caneta de B e o relógio de C. Condenado pelo juiz singular, apela ao tribunal, sendo seu recurso submetido, como é a regra, a três juízes. O primeiro juiz, relator do processo, reconhece que a prova demonstra apenas a ocorrência do furto da bolsa, devendo o apelante ser absolvido das demais acusações; o segundo juiz, revisor do processo, reconhece que a prova demonstra apenas a ocorrência do furto da caneta, devendo o apelante ser absolvido das demais acusações; e o terceiro juiz, vogal, como se diz no foro, reconhece que a prova demonstra apenas a ocorrência do furto do relógio, devendo o apelante ser absolvido das demais acusações. Quatro juízes chegam a esta verdade: ali está um ladrão. Ele, no entanto, deverá ser absolvido, pois nenhuma das três teses foi sufragada por, pelo menos, dois juízes do tribunal. Que verdade e essa?
Em segundo lugar, tenho também por inconsistentes os reclamos de minhas colegas do gênero feminino, como é de bom tom dizer hoje em dia. Se o caso sob julgamento alude apenas a homens é porque a hipótese versava sobre o comportamento de homens. O reclamo denuncia o complexo de inferioridade que tem a maioria das mulheres, incapazes de reconhecer as diferenças, físicas e psíquicas, existentes entre elas e os homens. Quem atribuiu ao casamento o nome de matrimônio (mater + munus) tinha em mente um fato social: com a união de um homem e uma mulher, é a ela que compete cuidar da prole e da casa. Ao homem compete obter os recursos para formar o patrimônio do casal (pater + munus). Isso, certamente, não foi inventado por uma só pessoa.
Por fim, last but not the least, tenho por risível a responsabilização, civil ou criminal, do homem que levou o marido de sua amante à morte. Se eu vir meu desafeto a atravessar a rua, certamente rezarei com todas as minhas forças a Deus pedindo-lhe que mande um caminhão em alta velocidade para tirar deste mundo aquele canalha. Se Deus me atender, acaso merecerei ser chamado de homicida? Eles que se entendam lá em cima (ou lá embaixo). Sendo Deus, por hipótese, o dono da vida, que nos empresta por prazo que só Ele conhece, se, naquele caso concreto, Ele a reivindicou manu militari, se assim posso dizer sem cometer heresia, certamente porque não confia nos nossos juízes, que culpa me cabe?
Tenho, Senhor Ministro, por equivocadas as conclusões de alguns deputados e alguns de meus colegas, exatamente porque partem de premissas inaceitáveis.
Para não alongar-me em demasia, digo que, a meu aviso, certos fatos sociais, embora produzidos por seres humanos, são apenas manifestações das forças da natureza, algo que as apólices de seguro chamam, atrevidamente, de “atos de Deus”. Um grupo de leões foge de um zoológico e caça pessoas, matando-as e matando, também, sua natural fome. Ondas do mar encapelam-se e invadem a praia num tsunami, matando gente e destruindo tudo o que encontram pela frente. Um doente mental empunha uma arma de fogo e mata, sem motivo objetivo algum, dezenas de pessoas. Um vulcão entra em erupção. Qual a providência judicial que restabelecerá a paz social quebrada por esses acontecimentos? Certamente nenhuma.
De outra parte, e para finalizar, qual a função do juiz criminal senão a de chamar para si o desejo de vingança diante de alguém que, mercê de seu atrevimento, causa danos a pessoas específicas ou ao conjunto dos moradores da sociedade? Ao menos é isso que as “pessoas de bem” esperam dele. Um psicopata, cuja insensibilidade ética (o que quer que seja isso) impede-lhe que tome consciência do mal que causa, por ação ou omissão, àqueles que com ele se relacionam, poderá ser impedido de assim agir? Ele tem escolha? Certamente não. O mesmo se diga com relação aos membros da classe política, que, como regra, confundem seus interesses particulares com os interesses da população que dizem representar. Se a finalidade da condenação criminal é a “ressocialização” dos criminosos, que medidas devem ser tomadas para que esses políticos abram mão de uma característica que parece ser-lhes própria?
O mesmo se diga dos arroubos patrióticos. Como é geralmente sabido, o hoje idolatrado Walt Disney era um patriota como tantos outros, que, por isso, não se negava a indicar ao senador Joseph McCarthy o nome de pessoas suspeitas de simpatizar com o comunismo. Muitos colegas dele perderam o emprego por isso. Durante a II guerra, os EUA tinham um espinho na garganta. Ou, melhor, dois: Getúlio Vargas, no Brasil, e Juán Domingo Perón, na Argentina. Ambos simpatizavam com o nazismo, valendo lembrar que, encerrada a guerra, um número enorme de nazistas fugiu para esses países, como Adolph Eichmann e Josef Menguele. Os EUA sempre procuraram cativar os países da América latina, desenvolvendo, para isso, o projeto da The Good Neighbor Policy, que criou e alimentou vários ditadores, cuja conduta jamais veio a ser questionada pelo alimentante. Naquela época (antes do fim da II Guerra Mundial), Disney foi chamado para ser um dos embaixadores desse estreitamento. Daí, por exemplo, o engajado filme "Alô Amigos". Os políticos não brincam em serviço.
Quando se diz que a possibilidade da pena de prisão inibe a prática de crimes faz-se uma afirmação que a realidade desmente. O criminoso cuja ação é descoberta, por força de mera falta de sorte, algo que os criminólogos chamam de “chiffre noir”, mesmo que venha a ser condenado e cumprir efetivamente a pena, na maioria dos casos não se “ressocializa”. Se for inteligente, na próxima vez procurará deixar menos rastros.
Em conclusão, tenho por absoluta perda de tempo voltarmos os olhos para o passado. Isso não elimina os efeitos de um tsunami nem traz de volta à vida quem daqui foi levado. É vivermos o presente, da melhor maneira que pudermos (o que quer que nos diga a Ética, a Religião ou a nossa consciência) e procurarmos criar condições para que os fatos desagradáveis do passado não se repitam.
Outrossim, a idéia de que, defendendo bem e detalhadamente a minha opinião e tornando convincente a solução proposta, contarei com o apoio dos demais juristas é também pura ingenuidade. O que a experiência mostra é que a vaidade, em tais discussões, fala mais alto, impedindo que a razão coteje com imparcialidade os argumentos opostos.
Sei que alguns dos meus colegas me chamarão de cínico. Eu prefiro que me chamem de pragmático.
            A propósito, permita-me Vossa Excelência, Senhor Ministro, uma pergunta final: é possível fechar a boca de um vulcão?

10 agosto 2011

Quem fiscaliza os fiscais?


         Como sabido de quase todos os operadores do Direito, o Supremo Tribunal Federal, na ADI 3367, relatada pelo Ministro Cézar Peluso, quando julgou pleito apresentado pela Associação dos Magistrados Brasileiros contra a Emenda Constitucional que criou o Conselho Nacional de Justiça, além de afirmar, irrespondivelmente, a constitucionalidade do CNJ, deixou certo que a competência daquele Conselho é “relativa apenas aos órgãos e juízes situados, hierarquicamente, abaixo do Supremo Tribunal Federal”. Tautologicamente enfatizou que “o Conselho Nacional de Justiça não tem nenhuma competência sobre o Supremo Tribunal Federal e seus ministros, sendo esse o órgão máximo do Poder Judiciário nacional, a que aquele está sujeito”. Sintomaticamente, embora julgasse necessário afirmar e repetir a superioridade hierárquica do Supremo Tribunal, esqueceu-se de aclarar a quem compete julgar eventual deslize atribuído a membro daquela Corte Superior.
Realmente, segundo o art° 8° do Regimento Interno do STF, “compete ao Plenário e às Turmas, nos feitos de sua competência, (II) censurar ou advertir os (sic) juízes das instâncias inferiores e condená-los nas custas, sem prejuízo da competência do Conselho Nacional da Magistratura." Ou seja, nem mesmo o Plenário tem competência para impor sanção administrativa a ministro da Casa. Em outras palavras, a quem compete fiscalizar a conduta dos ministros da Suprema Corte?
De fato, a LOMAN, como é conhecida a lei complementar 35/79, dita Lei Orgânica da Magistratura Nacional, prevê, no art° 35, sem abrir qualquer exceção, serem deveres dos magistrados, qualquer seja o patamar em que estejam:

“I - Cumprir e fazer cumprir, com independência, serenidade e exatidão, as disposições legais e os atos de ofício;
II - não exceder injustificadamente os prazos para sentenciar ou despachar;
III - determinar as providências necessárias para que os atos processuais se realizem nos prazos legais;
IV - tratar com urbanidade as partes, os membros do Ministério Público, os advogados, as testemunhas, os funcionários e auxiliares da Justiça, e atender aos que os procurarem, a qualquer momento, quanto se trate de providência que reclame e possibilite solução de urgência.
V - residir na sede da Comarca salvo autorização do órgão disciplinar a que estiver subordinado;
VI - comparecer pontualmente à hora de iniciar-se o expediente ou a sessão, e não se ausentar injustificadamente antes de seu término;
VII - exercer assídua fiscalização sobre os subordinados, especialmente no que se refere à cobrança de custas e emolumentos, embora não haja reclamação das partes;
VIII - manter conduta irrepreensível na vida pública e particular.”

Sendo isso assim, a quem compete fiscalizar se o ministro do STF mantém ou não conduta irrepreensível? Se comparece ou não pontualmente ao expediente? Se excede ou não injustificadamente os prazos para decidir ou despachar? Ao que parece, a ninguém. E tanto isso é assim que o índice do RISTF, quando se refere aos seus ministros, arrola todos os temas que lhes dizem respeito, aí não incluídas as palavras “dever” e “obrigação”. Ei-los:

Ministro do STF
– antiguidade: regulação (art° 17);
– apartes (art° 133, parágrafo único);
– arguição de suspeição (art° 278);
– assento: incompatibilidade (art° 18);
– assento no Plenário (art° 144);
– autor: pedido de vista (art° 134);
– composição do gabinete (art° 357);
– convocação nas férias (art° 78, § 3º);
– convocação nos recessos (art° 78, § 3º);
– direitos (art° 16);
– garantias (art. 16);
– impedimentos (art°s 277 e 287);
– incompatibilidade (art° 16);
– jurisdição nacional (art° 20);
– manifestação oral (art° 133);
– posse (art° 15);
– prazos (art° 111);
– prerrogativas (art° 16);
– Presidente do STF: Relator e Revisor (art° 75);
– Relator: atribuições (art° 21);
– Revisor (art° 24);
– suspeição (art° 277);
– transferência de Turma (art° 19).

No dia 02 de agosto último, deu entrada no Conselho Nacional de Justiça, protocolada sob o número 12.636, representação firmada por advogado, na qual, tendo como fato justificador a repercussão negativa causada pela ausência de Ministro do STF para participar de mera festividade social ocorrida no Exterior, quiçá com despesas pagas por advogado, que, notoriamente, freqüenta a Suprema Corte no interesse de sua clientela, era sugerido que aquele E. Conselho “editasse providências com vistas à preservação do respeito devido ao art° 37 da Constituição Federal”. Citou-se então o contido no acórdão da Suprema Corte, proferido na ADC 12/DF, sendo relator o pranteado Ministro Menezes Direito, no sentido de que, “dentro das atribuições do Conselho Nacional de Justiça está a de preservar os princípios que estão presentes no caput do art° 37 da Constituição. E um desses princípios é aquele relativo à moralidade”.
No corpo da representação, aludiu-se ao conhecido discurso proferido pelo Ministro Carlos Maximiliano quando se despediu do E. Supremo Tribunal Federal, onde ele, com toda franqueza, confessa: “O constante receio de aparecer em público em desacordo com as exigências do cargo pesa sobre mim como um rochedo: ao penetrar, por tolerância e com os meus em grill rooms de casinos  em réveillons espalhados por todo o mundo, eu, embora jamais indigitado como baluarte contra as atrações do pecado, experimento algo do constrangimento do seminarista que, por maldosos companheiros convidado para uma tertúlia de família, de súbito sofresse o envolvimento traiçoeiro da ruidosa alegria de venustas beldades livres de compromissos e opulentas de audácia”.
“Cabe, portanto, a esse E. Conselho definir se tal comportamento, que, como se vê do noticiário, a muitos se afigura absolutamente insólito, afeiçoa-se ou não aos princípios deontológicos previstos no mencionado art° 37 da Magna Carta” concluía a representação.
A secretaria do CNJ, entretanto, com apoio na Portaria n° CNJ/52, de 20 de abril de 2010, “decidiu” devolver a representação ao signatário, esquecida de que, ao dar-se por incompetente, a “autoridade judiciária” deve, por amor à instrumentalidade do processo, enviar a peça à autoridade que reputa competente. É o que diz o art° 122 da lei n° 5.869/73. Conhece?
Ou seja, delegou-se a um mero funcionário de secretaria a competência para “indeferir liminarmente” uma representação que menos não pretendia do que chamar a atenção daquele Conselho para um fato notório apto a desmoralizar o Judiciário, donde o cabimento do contido no art° 19, II, de seu Regimento Interno, que lhe atribui o poder de “zelar pela observância do art° 37 da Constituição Federal e apreciar, de ofício ou mediante provocação, a legalidade dos atos administrativos praticados por membros ou órgãos do Poder Judiciário”.
Em derradeiro caso, era de remeter-se a representação à Suprema Corte, para que ela definisse a quem incumbe fiscalizar os fiscais, coisa que a secretaria deixou de fazer.
Fica no ar uma pergunta: quem apuraria a veracidade de uma notícia dizendo que um desses ministros é proprietário de prostíbulo, como ocorre alhures?

02 agosto 2011

Equívocos vários



Uma jovem amiga minha reuniu-se com colegas de colégio e elas, todas já formadas em curso superior, puseram-se a falar de seus encantos e desencantos amorosos. As solteiras reclamando da escassez de homens na praça; as casadas reclamando da má qualidade do produto disponível no mercado. Uma delas, ao que consta, muito vistosa, juíza de Direito, não tinha de que reclamar: “Minha companheira é uma dona de casa de primeira linha.” Espanto geral. “Ela lava, passa e cozinha como poucas. Até minha mãe reconhece isso.” Ponto para minha amiga Berenice, essa Nélson Carneiro dos Pampas.
Aliás, a intolerância que ainda grassa em nossa sociedade, onde um casal de homens não pode abraçar-se na rua que correm o risco de ser espancados, talvez com perda de uma orelha na refrega, pesasse embora a desconhecida circunstância de serem pai e filho.
), exige que se mobilizem mais policiais do que seria necessário se fosse um encontro de torcedores de futebol. Pois lá está o Dr. Brandão, meu dileto amigo, como delegado de plantão, atendendo a uns e outros casos de rotina quando chegam eles. Dois rapazes, cuja vestimenta escandalosa não deixaria a menor dúvida a respeito de suas opções generais (a palavra da moda não é “gênero”, em lugar do surrado “sexo”?). Um deles dirige-se ao delegado: “Doutor, nóis é gay e queria...” O bem intencionado delegado, preocupado com a última flor do Lácio, qual um Bernard Shaw caboclo, corrige: “Nós somos, você quer dizer. Nós somos.” E o rapaz, dando um saltinho e batendo palmas: “Ai que bom! Então o senhor entende nóis.”
E já que mexi em casa de marimbondo, reconto o que já citei alhures e que vem a talho de foice agora, além de permitir-me falar da figura ímpar de um grande amigo.
Marco Antonio Monteiro, juiz dos mais sensíveis, notabilizou-se por vários mal-entendidos que produziu ou que com ele foram produzidos pelas parcas, que se prestam a entrar no anedotário, não fossem tais fatos coisa absolutamente verdadeira tal como narrado por ele próprio, quando podia fazê-lo, que, dentre as qualidades maiores que tem, está a de haver sido meu colega de escritório tanto quanto nosso terceiro sócio, o Ari Augusto Longo, logo que nos formamos os três e haver-me incentivado, o Marcão, para prestar exame de ingresso na Magistratura, coisa que ele mesmo só veio a fazer muitos anos depois. Nós ambos perdendo dinheiro em nome da vocação, que nosso escritório ia de vento em popa, diga-se.
Quando se submeteu ao chamado vestibular para Direito, não contando com o trânsito da capital de São Paulo, já naquele tempo caótico, e dependente de ônibus como tantos de nós, chegou atrasado ao exame oral, que, naquele tempo, havia isso sim senhora!, ouvindo do presidente da banca examinadora que esperasse até terminar a argüição do último aluno, quando resolveriam se ele seria inquirido ou não, o senhor aguarde! Terminada a oitiva dos alunos que haviam comparecido no horário, muitos dos quais permaneceram sadicamente na sala à espera da solução a ser dada ao caso do retardatário, ele foi chamado pela banca, cujo presidente se pôs a censurá-lo duramente. “Imagine se o senhor já fosse um advogado e comparecesse a uma audiência depois de ela ter terminado, que ocorreria com seu cliente? Diga, que ocorreria? É preciso desenvolver desde agora o senso de responsabilidade, o senhor não acha?”
O aluno, vendo que tudo estava perdido e, perdido por um perdido por cem, inventou uma explicação convincente para seu atraso. “Deu-se que eu me levantei muito nervoso por saber que seria examinado por Vossa Excelência, um professor sabidamente rigoroso, e com isso apertei em demasia a pasta de dente e praticamente esvaziei todo o tubo de pasta. Sabe lá o senhor o que é colocar toda aquela pasta de volta para dentro do tubinho?” O examinador olhou-o com olhos fuzilantes, mas o decano da banca, o Prof. Sampaio Dória, homem de fino humor, explodiu em uma sonora gargalhada e o Marco Antonio não só foi admitido a fazer o exame oral como foi aprovado e passou a cursar a faculdade do largo de São Francisco, onde, dentre outros, teve como mestre e professor de Direito Judiciário Civil, era assim mesmo que se falava naquele tempo, o José Antônio de Almeida Amazonas, que, em pleno exame oral, resolveu humilhá-lo: “O senhor, com esse nome, não deveria estudar Direito mas História”, ao que o Marco Antonio retrucou: “E o senhor, com esse nome, deveria lecionar Geografia”, encerrando-se o exame com risos de lado a lado.
 Ele, juiz, atendeu o réu, que era um notório homossexual que ganhava a vida fazendo o trottoir numa grande avenida da cidade sede da comarca e que havia sido condenado por alguma briga com um colega de profissão, assegurando-lhe a sentença o benefício do chamado sursis. O Marco Antonio, leitor emérito das reflexões do Pietro Ubaldi,  procurava, a cada visita do réu, convencer o homossexual a mudar de atividade, ocupando-se de algo mais condizente com a moral e os bons costumes, onde já se viu? até porque fazer o trottoir logo logo o traria de volta à prisão, sabido que é o risco que se corre nesses locais, o senhor não acha? e mais isto e mais aquilo e o condenado acabou por convencer-se de que o zeloso magistrado tinha toda razão, resolvendo mudar-se para outra comarca onde morava seu irmão, homem influente, que certamente lhe arranjaria emprego, talvez até mesmo como motorista dos sobrinhos, o que acabou por acontecer. Isso, porém, não durou muito tempo porque os meninos pediram ao pai que contratasse outro chofer eis que os colegas de escola das crianças, olha só que maldade, doutor Marcos,  caçoavam do jeito afeminado do motorista, que se despedia dos passageiros enviando-lhes beijinhos, veja o senhor, seu doutor, como é o preconceito! não fossem eles meus sobrinhos, que eu amo demais, demais mesmo, coisa que certamente eles não contaram aos colegas de escola, veja só o senhor! E eu agora estou de volta a esta comarca, onde vou voltar a fazer o trottoir, seja o que Deus quiser, ninguém quer contratar uma bicha escrachada como eu, doutor, diz ele dramático.
E se põe a chorar convulsivamente e o juiz procurando consolá-lo, mesmo porque aquele choro já estava a despertar a atenção de advogados e outros passantes, vá a gente imaginar o que estão eles a conversar! E o Marco Antonio procurando valorizar a atividade do homossexual, quem sabe se não é uma profissão assim tão repugnante como pensa nosso preconceito. Se ele prefere isso a um trabalho nos moldes tradicionais, tudo bem tudo bem, é um direito dele. “Mas me diga uma coisa: dá para você se manter com o que você ganha? quanto você cobra cada vez que sai com um cliente? pergunta ele. E o jovem, entendendo mal a curiosidade do bom e brasileiro juiz Magnaud, com um sorriso de gratidão no rosto já recomposto: “Ah, doutor, o senhor tem sido tão bonzinho comigo que para o senhor eu não cobro nada!”


19 julho 2011

Pernas de pau

“O Paraguai derrota o Brasil na cobrança de penalties.” (Dos jornais)

       
         Que você faria se conhecesse um cirurgião que não conseguisse manipular um bisturi? Permitiria que ele operasse alguém de suas relações de amizade? Confiaria nele? Contrataria para trabalhar em seu hospital?
Todos nós temos nossas limitações, sejam elas físicas ou psíquicas, como é de conhecimento óbvio. A questão está na superação dessas deficiências, para tentar evitar que elas nos impeçam de utilizar nossos demais atributos. Ou, lamentavelmente, tentarmos desempenhar atribuições incompatíveis com essas limitações. Como um advogado cego pode examinar os autos de um processo? Ou ler a tela de um computador? Eis uma pergunta que eu me fazia até o dia em que recebi um livro com dedicatória do autor, que eu conhecia apenas de nome: Francimar Torres. Esperto a mais não poder, agradeci a oferta e arrisquei: “Por sua letrinha arredondada, aposto que você é arquiteto”. E ele: “Errou. Sou advogado e cego. A letrinha é da minha secretária”. Graças a ele, aprendi muito sobre as habilidades dos cegos, dos quais eu conhecia alguma coisa graças ao Instituto Padre Chico, no bairro do Ipiranga, onde judiquei por uns bons anos. Além de jogarem futebol com bola de guizo, os alunos do tal instituto circulavam pelo bairro, geralmente aos pares, fazendo toque toque com a bengala branca. Certa ocasião, uma dessas duplas se encontrava num ponto de ônibus, em frente a um bar, onde houve forte discussão e um disparo com arma de fogo. Os dois cegos foram arrolados por algum sádico como testemunhas dos fatos (testemunhas “visuais”?). Na apuração de certa eleição, a turma apuradora começou a anular cédulas de votação aos magotes. Advertido por um fiscal de partido, fui ver o que estava acontecendo e fui esclarecido pelo presidente da mesa: “Todas essas cédulas só têm furinhos”. É claro que ele jamais havia ouvido falar em Louis Braille. 

Fui durante breve tempo voluntário no Lar Escola São Francisco, uma entidade aqui de São Paulo que abriga pessoas com deficiência física, principalmente crianças, com a finalidade de prepará-las para terem uma vida tão normal quanto possível. Conheci ali algumas pessoas notáveis, como um casal de paraplégicos que se mantinha vendendo chiclete junto aos semáforos. Casaram-se e tiveram um filho, que corria pela casa. Com minha autoridade de “pai adotivo” deles, meti cadeados de braço longo em todas as janelas da casa, pois se aquela criança sapeca resolvesse subir numa cadeira para olhar o mundo lá fora pela janela, nenhum dos pais chegaria a tempo de impedir um desastre. Tentei convencê-los a terem emprego com registro, mas não deu certo, pois eles ganhavam muito mais no emprego informal. Fui fiador do contrato de locação do imóvel onde residiam e jamais fui importunado pelo locador. Disseram-me que tinham condição de adquirir imóvel, mas não tinham como comprovar renda, o que os obrigava a morar em imóvel alheio.

Ali também conheci o “Caiaque”, um rapaz que tinha apenas uma perna. A outra era uma improvisação feita de madeira, que se apoiava em uma base mais larga, que parecia um barquinho. Daí seu apelido. Como membros superiores ele tinha dois semi-braços, cada um com um único dedo, enorme. Tinha lábio leporino e voz roufenha. Jogava futebol, mesmo porque, segundo as regras ali vigentes, ele poderia “chutar” com a muleta. Certa ocasião, durante uma partida, a bola tocou naquele dedo único de um dos braços. O juiz marcou falta, que, na linguagem popular, ainda se chama “hands”. Ele protestou veementemente, com aquela voz rouca: “Que rends é esse se nem mão eu tenho?”

Certa ocasião ele me disse que estava prestando concurso para laboratorista. Dentre suas atribuições estava a manipulação de microscópio. Constrangidamente, indaguei-lhe como ele faria isso.”Dá pra encarar, dá pra encarar” foi sua resposta.

Escrevi tudo isso para preparar o espírito do leitor para um comentário a respeito de nossa seleção de futebol, que acaba de entrar para o Guiness Book graças ao feito notável de não haver consignado um único e mísero gol na cobrança de penalties.

Em lugar disso, vou preferir um eloqüente silêncio. Ao som de um violão tocado por um artista excepcional, que não é argentino, nem uruguaio, nem paraguaio, mas nicaraguense.
Bom proveito, com direito a bis.       

10 junho 2011

Que país é este?


“Procurador-Geral manda arquivar representação contra o Chefe da Casa Civil’ (dos jornais) 

O segredo para obtenção de uma pizza de qualidade está na escolha de componentes confiáveis. Além disso, não se deve descurar dos antecedentes do processo propriamente dito.
Deve-se preferir forno a lenha, pré-aquecido com toda antecedência, condição indispensável para o sucesso na empreitada. Aqui, a pressa é inimiga da perfeição. Lembre-se: o tempo é elemento fundamental desse preparo.
Para uma pizza de bom tamanho, serão necessárias umas 40 xícaras de farinha de trigo especial peneirada, 300 gramas de fermento biológico (fisiológico também serve), 10 colheres de sopa de açúcar refinado, 10 xícaras de leite morno, 10 colheres de sal, óleo de soja e mais farinha de trigo para dar liga à massa. Lembre-se: a homogeneidade da massa é fundamental.
Prepare o fermento, desmanchando-o no leite morno e acrescentando o açúcar e 10 colheres de farinha de trigo. Cubra com um pano limpo e esconda no armário pelo tempo necessário a que se tenha certeza de que o forno está bem aquecido.
Após esse tempo, acrescente aos poucos mais farinha, o sal e o óleo, misturando tudo muito bem, para não haver bolhas. Ressalte-se que na massa não pode ir muito óleo, senão a massa fica dura e o resultado final será insatisfatório.
Sove bem a massa até ela não grudar mais nas mãos e ficar bem lisinha. Isso demora um pouco, mas quanto mais se sova, mais a massa fica macia por dentro e crocante por fora depois de assada.
Quando a massa estiver lisinha, absolutamente confiável, espalhe um pouco de óleo entre as mãos e unte a bola de massa, não pensando em fazer economia de óleo.
Ponha a massa novamente na vasilha, cubra com o pano, leve novamente ao armário, ali deixando por um bom tempo, até que quase ninguém se lembre mais dela.
Após descansar bastante, tire a massa do armário, divida em várias partes, que serão esticadas com um rolo compressor, até ficarem bem uniformes. O rolo compressor é fundamental agora.
Espalhe o molho vermelho, de tomate, ou molho verde, de espinafre, e leve de volta ao armário, onde permanecerá pelo tempo necessário a que o molho vermelho ou o molho verde façam o efeito desejado.
Leve cada peça ao forno, ali deixando pelo tempo necessário a que fique tostada. Retirando-a do forno, ela será coberta com o recheio preferido. Coloque queijo mineiro sobre a massa e leve novamente ao forno, deixando ali até derreter o queijo.
Pronto: a pizza está pronta.

02 junho 2011

Crimes modernos

“Quinto andar. Artigos femininos!” exclamou o ascensorista, como se falasse com os botões à sua frente. A moça de rabo de cavalo, blusinha curta, ligeira barriguinha aparecendo antes de a calça comprida de jeans começar, foi cavando, em silêncio, seu caminho por entre os demais passageiros e deu de cara com o homem grisalho que tentava entrar antes de esperar saírem os que iriam sair.
“Sóri” disse ele, com sotaque de Piracicaba, afastando-se de lado. Ela nem levantou os olhos, passou por ele e seguiu em frente. Ele desistiu de entrar no elevador, rodou nos calcanhares e passou a caminhar ao lado dela. “Que que faz esse cara no setor de artigos femininos?” perguntou ela a si mesma. Tudo que ela não queria era uma companhia masculina. Andava deprimida depois de mais um rompimento de uma relação sentimental, como se diz hoje. Acabara de descobrir que o primo de seu noivo, com quem ele morava há algum tempo, era algo mais do que apenas primo do seu noivo. 
Depois de muito toc toc duplo no corredor vazio do shopping, ele arriscou: “quén ai peiú som cófi?” Ela deu um meio sorriso, desejando por um fim naquilo. “Uai nóti?” respondeu.
Ali mesmo no corredor havia uma coleção de duplas sentadas em torno de mesinhas minúsculas, olhos nos olhos, independentemente de gênero, cor ou idade. Tudo muito moderninho, como pensou a moça. Também se sentaram, e o rapaz, como nos velhos tempos, levantou o braço, para chamar a atenção do garçom. Quando o rapaz chegou, ela viu que, na verdade, era uma moça. Ela olhou a garçonete, procurando não exibir o seu espanto, e pediu primeiro, pensando no “leids fârst”, que nem sabia se ainda existia aqui ou alhures. “E seu pai? Que vai querer?” disse a atendente. Antes que a moça esclarecesse o equívoco, ele pediu “cófi e pau de queiju”, dando depois um meio sorriso à moça, como se aquilo fosse uma homenagem a ela.  
Enquanto a encomenda não chegava, ela foi examinando cada uma das duplas que, voz baixa, trocavam juras de amor ou receita de bolo. Fora criada por uma avó tradicional, dessas de freqüentar missa, em lugar de barzinhos, como hoje é moda, e isso certamente lhe dera uma visão deturpada do mundo onde viveria. Pensava que pensava, quando seu companheiro de mesa esclareceu, agora sem sotaque nenhum.
No mês passado ele estava no mercado municipal quando viu no final do corredor um amigo da época de escola, que não encontrava há séculos. Como usa óculos de grau, tipo fundo de garrafa, chegou perto, para não se meter em confusão. Feliz com o reencontro,  aproximou-se dele, de braços abertos, exclamando: 
- Oswaldo, sua bichona! Há quanto tempo!
E foi com a mão estendida para cumprimentá-lo. Percebeu então que o Oswaldo o havia reconhecido, mas, antes mesmo que pudesse chegar perto dele, viu seu braço sendo algemado.
- Você vai pra delegacia!, disse-lhe o policial que faz ronda no mercado.
Sem entender nada, ele tentou argumentar:
- Mas o que eu fiz de errado? Dei assessoria a alguma empresa quando era deputado? Matei minha amante há mais de dez anos? Assediei minha camareira? Matei 8.000 muçulmanos na Bósnia? Levei o Mappin à falência?
- Homofobia! Bichona é um termo pejorativo. O correto seria chamá-lo de homossexual grande. Crime inafiançável.
Nessa hora, antes mesmo de ele defender-se, o Oswaldo interferiu tentando argumentar:
- Que é isso, meu chapa. O quatro-olhos aí é meu amigo antigo de escola. A gente se chama assim na camaradagem mesmo!
- Ah, então você estudou vários anos com ele e sempre se trataram assim?
- Isso, doutor. É coisa do tempo de criança!
Nessa hora o policial já emendou a outra ponta da algema no Oswaldo:
- Então você tá detido também. 
Aí foi a vez de o outro intervir: 
- Mas, meu Deus, o que foi que ele fez? 
- Bullying! Chamar alguém de “quatro-olhos”, por vários anos, durante todo o tempo de escola, é bulllying. Também inafiançável. 
Oswaldo então se desesperou:
- Que é isso, seu policial! A gente é amigo de infância! É um desses amigos de quem perdi o contato mas estimo até hoje. Vim aqui comprar umas carnes pra um churrasco com outro camarada, nosso colega, que pode confirmar tudo!
Nessa hora ele viu o Jairzinho chegando perto, com uma posta de alcatra na mão. Sem entender nada, ao ver o Oswaldo algemado, o Jair chegou falando, no seu jeito debochado:
- Que porra é essa, negão? Que foi que tu aprontou aí?
E aí não houve jeito. Foram os três parar na delegacia e estão
respondendo a processos por homofobia, bullying e racismo.
“Nos dias de hoje é um perigo abrir a boca. Melhor fingir que sou norte-americano”, explicou ele à moça. “Pior é que no carnaval conheci um baiano em Salvador que é uma glória. Que Pelé, que nada. Aquilo é que é um superdotado.” Olhou para um lado, depois para o outro. “Chamar alguém de baiano pode?”
A moça saiu correndo em direção ao fim do corredor, onde havia uma janela escancarada. O que ela não sabia é que logo abaixo da janela havia uma plataforma que, certamente, ampararia seu corpo se por ali ela se atirasse.


27 maio 2011

Bobagens internéticas


O Joseph Carl Robnet Licklider, que não tinha mais nada de importante para fazer no MIT, concluiu que seria possível estabelecer um sistema mundial de comunicação instantânea. Isso nos idos de 60. Estava criada a Internet. Verdade que o patriota aí de cima via no tal sistema um remédio para evitar a comunização dos States. Tanto que vendeu a idéia a ninguém menos do que o Pentágono. Como o comunismo saiu de moda, eis-nos vítimas dos usuários da Internet. Tudo culpa do J.C. Falo do homem do MIT evidentemente. E tome esse festival de besteiras que nos caem na rede diariamente. Há quem nos envie cinco ou seis mensagens no mesmo dia, fórmula excelente para que o destinatário, sendo eu, apague todas sem abrir nenhuma. 


Em um desses informativos internéticos aprendi umas tantas coisas bem interessantes, o que serviu para mostrar o tamanho de minha ignorância. Faça o teste você também e veja se sua cultura geral já lhe havia permitido saber que:
01 - O nome completo do Pato Donald é Donald Fauntleroy Duck.
02 - Em 1997, as linhas aéreas americanas economizaram US$ 40,000.00 eliminando uma azeitona de cada salada.
03 - Uma girafa pode limpar suas próprias orelhas com a língua.
04 - Milhões de árvores no mundo são plantadas acidentalmente por esquilos que enterram nozes e depois não se lembram de onde as esconderam.
05 - Comer uma maçã é mais eficiente que tomar café para se manter acordado.
06 - As formigas espreguiçam-se pela manhã, quando acordam.
07 - As escovas de dente azuis são mais usadas que as vermelhas.
08 - O porco é o único animal que se queima com o sol, além do ser humano.
09 - Ninguém consegue lamber o próprio cotovelo.
10 - Só um alimento não se deteriora: o mel.
11 - Os golfinhos dormem com um olho aberto.
12 - Um terço de todo o sorvete vendido no mundo é de baunilha.
13 - As unhas da mão crescem aproximadamente quatro vezes mais rápido que as unhas do pé.
14 – Quem tem o olho maior do que seu cérebro não é a mulher, mas o avestruz.
15 - Os destros vivem, em média, nove anos mais do que os canhotos.
16 - O "quack" de um pato não produz eco, e ninguém sabe por quê.
17 - O músculo mais potente do corpo humano é a língua.
18 - É impossível espirrar com os olhos abertos.
19 - O "j" é a única letra que não aparece na tabela periódica dos livros de química.
20 - Os chimpanzés e os golfinhos são os únicos animais capazes de se reconhecer na frente de um espelho.
Pronto. Graças ao J.C. e ao Pentágono, você agora está mais culto do que estava há meia hora.
Acha pouco? Outro desocupado me enviou uma série de “Perguntas irrespondíveis”, das quais destaco estas que partilho com meus leitores:

  1. Por que os jogadores de tênis pedem desculpa quando a bola, antes de bater por duas vezes na quadra adversária, toca na rede?
  2. Por que os filmes de batalhas espaciais têm explosões tão barulhentas, se o som não se propaga no vácuo?
  3. Se depois do banho estamos limpos, por que lavamos a toalha apenas molhada?
  4. Por que as luas dos outros planetas têm nome, mas a nossa se chama apenas Lua?
  5. Quando inventaram o relógio, como sabiam que horas eram, para poder acertá-lo?  
  6. Se "É Proibido Pisar na Grama", como diz a placa, como aquela placa foi colocada no meio do gramado sem que ele fosse pisado?
  7. Se todos os espectadores de uma partida de futebol estão a ver nas costas dele e no calção o número do jogador que entrará em campo, por que o seu número aparece na placa que é erguida, juntamente com a do jogador que será por ele substituído?
Estas são mais fáceis de responder:
a) Qual era a cor do cavalo branco de Napoleão?
b) De que morreu Martin Luther King?
c) Qual o nome do filho do Barack Obama?


Aguardo as respostas. Quer apostar que você não vai acertar todas?

17 maio 2011

A lei da vida


O Joseph Campbell dizia que a vida alimenta-se da vida. De certa forma, foi ele quem me inspirou esta pensata, digo desde logo. Em livro recente, falo da diferença entre agressividade e violência. “Mesmo não nos empolgando uma visão excessivamente fisiológica das reações humanas, é certo que, da mesma forma como a planta arrostará todos os obstáculos, até o limite, para sobreviver, assim também os animais criarão coragem extrema quando se trata de zelar pela prole, maior ainda do que ao cuidar da própria manutenção, pois a perpetuação da espécie é mais importante do que a manutenção da vida de um simples exemplar. Nessas situações alguns autores vêm a presença de uma força que se poderia chamar de agressividade. Sob tal ótica, o peixe maior que come os gerinos, a garça que come o peixe ou a onça que come a garça não estão sendo violentos, mas apenas agressivos, no sentido de que destroem para sobreviver. E, sobrevivendo, mantêm a espécie. Essa pulsão vital é, pois, absolutamente natural, tanto quanto o medo, que faz o animal mais fraco fugir, prudentemente, do animal mais forte, a menos que se trate de um animal racional, quando o medo de parecer covarde tem levado muitos deles, por imprudência, à morte ou ao crime. Já o homem, que mata aquela onça pelo simples prazer de caçar, não está sendo agressivo, mas violento. Enquanto a agressividade deve ser considerada construtiva, pois se refere à manutenção da vida, a violência é negativa, pois se relaciona à destrutividade, algo específico do ser humano."

A opção por essas denominações (agressividade lá, violência aqui) pode desagradar os leitores, tendo-as por arbitrárias, pois talvez prefiram que se fale em “pulsões”. Mas, ao menos para os efeitos restritos de minha pensata, eu gostaria de mantê-las, para que eu possa melhor expor meu pensamento.

O ser humano apresenta inúmeras condutas nas quais se pode ver a presença da agressividade, especialmente em uma sociedade altamente competitiva como a que conhecemos hoje. No campo dos esportes - eles mesmos uma sublimação cultural de tendências primitivas - essa presença é marcante. Tais atividades lidam com uma tendência absolutamente natural: a agressividade humana.

Saio do livro para falar de uma situação concreta. Eu estava numa chácara, onde havia um pasto com animais, à beira de um rio. Eu passeava por ali quando vi uma vaca parir um bezerrinho, experiência rara para alguém que se criou na cidade. Logo que nascido, o bezerro foi lambido pela mãe, uma conhecida forma de batismo, pois estabelece a relação mãe/filho. Embevecido com a cena quase não percebi que acima de minha cabeça um bando de urubus descrevia uma dança soturna, girando em círculo. O centro do círculo correspondia ao local onde estavam mãe e filha. Eu havia aprendido com o João do Vale que aquilo não iria terminar bem.

Não deu outra. Meia dúzia de urubus aterrissou e eles fizeram um círculo em torno da vaca e seu recém-nascido filho. A estratégia era simples: enquanto a vaca investia contra um dos urubus, os demais apertavam o círculo. Num descuido da vaca um deles recolheria o burrego. Muni-me de uma vara e tomei o partido da vaca, tentando espantar os urubus do lado de cá, enquanto ela avançava do lado de lá. É claro que a vaca me tomou por mais um inimigo e, a todo galope investia também contra mim, que tinha de desviar-me dela e correr para espantar os urubus do lado oposto. Antes que eu e a vaca nos esgotássemos, berrei e mandei um garoto que por lá apareceu buscar o dono das reses, vizinho da chácara onde eu estava hospedado. Ele trouxe dois empregados, puseram mãe e filho na camioneta e concluí que minha boa ação não foi em vão.

Eis um eloqüente exemplo de agressividade.

Algum tempo depois, o tal vizinho despediu um daqueles empregados que, com ele, haviam evitado que a agressividade animal levasse à morte, antes do tempo, o tal bezerro. Quando do acerto de contas, o fazendeiro e o empregado discutiram, passando às vias de fato. Inferiorizado na luta, o empregado apoderou-se de um martelo e desferiu com ele um golpe fatal na cabeça do ex-patrão cujo sobrenome, ironia das ironias, era Martelo.

Eis um eloqüente exemplo de violência.

26 abril 2011

Causos forenses*

E tem o causo do juiz que me segredou olhando para um lado e depois para o outro, não fosse alguém ouvir sua confissão, que hoje, veja o desembargador, assim solene, por que drama de consciência passei hoje, repetiu nervoso, não é que o réu denunciado pela prática de crime contra o patrimônio não tinha contra ele prova alguma digna do nome nem vítima reconhecendo nem nada mas ocorre que o advogado dele é o mal afamado doutor fulano de tal, já envolvido até em inquérito policial sob a acusação de receptação dolosa não é que descobriram no sitio de Sua Senhoria, falo do tal advogado, nada menos do que uma oficina de desmanche de automóveis? pois é, o tal mal afamado era o defensor do tal réu e como eu sei que esse advogado só defende bandido não tive outra escolha a não ser condenar o réu mesmo com a precariedade das provas existentes nos autos, o tribunal que o absolva, não eu.
E o Ranulfo não estava junto à porta do fórum do interior do Estado onde judicava então, fim de expediente, aguardando que a Marina o viesse buscar, aquela santa! pois carro oficial com ele, nem pensar! preparando seu cigarro de palha mineira com fumo goiano autêntico quando ali chegou o caboclo aflito a querer falar coisa grave com o juiz de Direito e o Ranulfo solícito como sempre leva primeiro o cigarro à boca acende dá uma solene tragada e volta a empunhá-lo ao tal cigarro, já em condições de atender o queixoso, e naquela fala de mineiro de Passos ou talvez Ventania ele lhe pergunta ao homem agora mais calmo: juiz de que vara? E o caboclo, malicioso a mais não poder: sartei de banda, cigarrim de paia!



*Do livro Menas verdades (Causos forenses ou quase), Editora Migalhas

07 abril 2011

Novos tempos


Vocês que têm o mau hábito de envelhecer já conhecem bem isto. O fato é que eu não sei com quantos anos deixei de acreditar no Papai Noel. Para um dos meus netos, 4 anos de idade, ele é feito de plástico e mora no shopping. E quando deixei de acreditar em cegonha? Se aparecia em nossa casa uma mulher barriguda, poderíamos pensar em muita coisa, menos em gravidez, palavra, aliás, que não era pronunciada em casas de família. As crianças eram trazidas pela cegonha, ave, aliás, que nenhum de nós jamais havia visto, tal como cabeça de bacalhau. Talvez fosse invenção dos adultos para tentar explicar o inexplicável. Em alguns lares, as crianças eram entregues dentro de um pé de repolho. Logo repolho, com aqueles efeitos intestinais lamentáveis? Pois era. Aliás, o repolho era mais adequado do que a cegonha para simbolizar o lugar onde ficava o feto até ser expulso para o sul do Éden, como se diz na Bíblia. O bico da cegonha estava, falando freudianamente, mais para simbolizar um dos agentes do ato de fecundação do que para explicar o transporte do produto. Trenzinho saindo de um túnel iria melhor, aproveitando uma imagem muito cara a mestre Hitchcock.
Não sei bem quando aprendi essas coisas de sexo. Garanto que não foi ouvindo de papai ou mamãe, que, certamente, não eram dados a essas coisas sujas. O fato é que, quando eu ainda tinha calças curtas, minha mãe caiu de cama. Apareceu lá o Dr. Cacuri, que, depois de examiná-la no quarto, com a porta fechada, veio até o quintal e atirou na lata de lixo alguma coisa que eu, curioso à beça, fui ver do que se tratava. Era uma camisinha de Vênus, como os adultos se referiam àquele estranho objeto, também chamado condom, em homenagem ao francês que o inventou, objeto que, segundo a francesa Madame de Staël, parecia feito de aço, no que diz com o prazer, mas parecia feito de renda, no que diz com os efeitos anticoncepcionais. E eu já sabia para que servia aquilo! Que diabos faria aquele objeto de nome impronunciável no corpo da minha mãe? Eis uma pergunta que me acompanhou até depois dos 30 anos de idade, já casado e pai de filhos. Quando passei a fazer psicoterapia, levado por uma insuportável síndrome do pânico, de que já falei alhures, narrei esse incidente de infância, para espanto dos que o ouviram. O Paulo Gaudêncio, nosso psicoterapeuta, achou conveniente que eu indagasse de minha mãe, já viúva e com quase 70 anos de idade, o que havia ocorrido, pois mais dia menos dia essa incerteza se eternizaria. Tomei coragem e, com circunlóquios e gaguejos, consegui concretizar a indagação. Ela admirou-se de minha lembrança, puxou pela memória e, depois de alguns minutos, deu um tapa na testa e se pôs a rir. Contou-me então que naquela ocasião ela se havia submetido a uma cirurgia relativa a uma hemorróida e a coisa complicou-se, tornando-se necessário que, com o uso de uma dedeira de borracha e vaselina, fosse restabelecido o orifício anal, tal como lhe demonstrara o mencionado Dr. Cacuri. Ufa!
As crianças de hoje certamente não carregam dúvidas dessas por muito tempo, pois pouquíssimos temas, se é que ainda há algum, podem ser considerados tabus. Tenho quatro netos. O André, com 12 anos, já se acha um galã, com aqueles olhos verdes e o cabelo loiríssimo cobrindo os olhos. O irmão, na hora do almoço, revela que o André já tem namorada. Interpelado pela mãe, ele responde, altivo: “Por que? Não pode?” Se eu fosse o pai, não saberia o que responder, até porque não imagino o que seja um namoro envolvendo pessoas dessa idade. Tudo o que aprendi na vida foi: “criança que faz criança já não é mais criança”. O Vítor, que é precisamente o delator acima referido, é mais chegado aos livros, e tem vocação artística, como o tio materno. Ele completou 8 anos e a mãe já cuidou de ensinar a ambos a história da sementinha. O Felipe, aos 4 anos, conversava até outro dia com a irmãzinha, que ainda estava na barriga da mãe, de onde sairia, segundo ele, quando o médico fizesse um corte logo abaixo do umbigo. Só faltou dizer que se cuidaria de uma incisão horizontal. No dia marcado para isso, lá estava ele, com pai, tios, avós, bisavó e primos assistindo, pelo vidro da janela da sala de cirurgias, à cesariana que trouxe ao mundo a Mariana, recebida por ele com efusiva salva de palmas, quando exibida, ainda suja de sangue, pelo médico à platéia que se acotovelava diante da tal janela assistindo ao incrível espetáculo, coisa que eu não tivera coragem de fazer quando do nascimento de meus filhos e netos. Como será o mundo dessa bela menina?
Nasce-se e morre-se. Ou, como dizia o Fernando Pessoa, somos cadáveres adiados que procriamos.
Dia desses morreu nossa Elizabeth Taylor, paixão da mocidade de tantos de nós, que, naqueles primórdios, suspirávamos de inveja da Lassie. Sua biografia foi amplamente divulgada pelos meios de comunicação, anotando-se especialmente o número de maridos com que tentou manter um casamento duradouro, como se isso fosse exceção na vida artística. Pouco depois falecia Farley Granger, não tão famoso, mas que aparece em dois filmes do Hitchcock. Que há de especial em sua biografia? Diz-se ali que teve casos amorosos com Ava Gardner, “o mais belo animal do mundo”, na opinião de um fã qualificado: o polivalente artista  francês Jean Cocteau. E também teve ligações amorosas com pessoas não tão belas, dentre as quais o famoso maestro e compositor Leonard Bernstein, autor de coisas belíssimas, como a música de West Side Story. 
  Aliás, essas particularidades dos artistas de cinema eram mantidas, naqueles idos, a sete chaves, mesmo porque havia as comissões da moralidade, que tinha no senador Joseph McCarthy um defensor incansável. Que faria ele se viesse a público a lista dos namorados e namoradas da Marlene Dietrich, por exemplo? Aliás, não faltou quem dissesse que o senador só se casou com a secretária quando surgiram rumores de ser ele gay, como seu braço direito Roy Cohn, que, aliás, morreu em conseqüência de Aids. Que, aliás, matou o belíssimo Rock Hudson, cuja amizade com Marlon Brando sempre suscitou fofocas. Mesmo porque se dizia que ele e James Dean, sei não, sei não.
Em suma, pensando bem, acho que tudo isso que tanto me espanta hoje já havia há muito tempo. Eu é que demorei a perceber.